Perfil de Nélio do Ponto Ka

Por Val Oliveira

Ele já recebeu muitas premiações por seu famoso prato, a “Costela no bafo”, e recebeu em seus domínios celebridades como o eterno Ayrton Senna. Contudo, para o dono do Ponto Ka – Costelaria e Choperia, sucesso é ter família e poder viver fazendo o que mais gosta e dá prazer.

Os olhos azuis desse gaúcho combinam com as cores do time do coração: o Grêmio de Porto Alegre. Da tradicional família sulista herdou o entusiasmo pela gastronomia. De um clássico da culinária dos pampas ele fez o mote para empreender em terras guarus: o churrasco.
Natural de Carazinho, Rio Grande do Sul, aos 55 anos, Nélio Ongaratto, proprietário do Ponto Ka – Choperia e Costelaria -, pai de quatro filhos, conta que está em Guarulhos desde 1990 e se considera um guarulhense feliz e grato por, apesar de alguns percalços, ter conseguido fincar raízes por aqui e construir uma família, prosperar e permanecer no ramo que escolheu para atuar.
Há 25 anos, após uma crise financeira, em decorrência do plano Collor, que bloqueou dinheiro de toda a população, ele veio para Guarulhos em busca de oportunidade para recuperar o que havia perdido. “Eu tinha uma churrascaria em São José do Rio Preto, interior de SP. Com a crise, vim para Guarulhos e fiquei quatro anos trabalhando na Dallas Churrascaria. Depois saí para montar meu próprio negócio”, lembra.
Segundo ele, ao chegar à cidade, além da necessidade de trabalho e renda para si mesmo, a vontade e a intenção era oferecer um serviço diferente de tudo o que tinha por aqui na época. Antes do atual negócio, tentou restaurar a situação financeira e empresarial por meio de duas outras casas, a Nelio’s Choperia e a Bruleu´s, que já não existem, mas foram os “embriões” para o restaurante que comanda atualmente.
Conversador e sorridente, Nélio explica que o Ponto Ka existe desde 2002 e que sempre gostou de administrar pessoalmente seus negócios. Conta que no momento está “puxando o freio”, mas que foi preciso trabalhar muito duro e valer-se de outras experiências para consolidar-se no mercado guarulhense. “Em 1969 meu pai já trabalhava com restaurante. Eu tinha nove anos e ajudava a descascar camarão. Aos 12, já era garçom. Hoje tenho quase 43 anos de atividade no setor. Apesar disso aqui ser a minha vida, é preciso ir desacelerando”, pondera.
Antes de ser uma ferramenta de trabalho, a culinária para ele é um hobby. A despeito de nunca ter feito cursos na área, considera-se um bom chef de cozinha. Quando perguntado qual a sua especialidade, não titubeia na resposta: churrasco e galinhada. “Como churrasqueiro eu me garanto. Nas festas dos amigos, involuntariamente, sempre assumo a churrasqueira. Se tiver fogão a lenha, melhor ainda. Adoro tudo isso e faço uma galinhada à moda gaúcha muito boa”, entrega, sem modéstia.
A figura descontraída desaparece e o semblante fica sério ao revelar seu olhar crítico sobre a cidade, bem como as preocupações sobre o momento difícil que o Brasil vive. Além de reiterar seu amor por Guarulhos, ele desabafa sobre dificuldades e chateações no desempenho de suas funções, pois acredita que seu sucesso contribui, direta e indiretamente, para o bem-estar social e financeiro de funcionários e fornecedores, da cidade e do país, de maneira geral. Para ele, há espaço para muitos exercitarem o poder criativo e empreendedor, desde que todos respeitem a legislação e não haja concorrência desleal. “Considero-me guarulhense e sou mais empreendedor que muitos que aqui nasceram. É horrível você tentar progredir, gerar trabalho e renda, encontrando obstáculos e críticas. Nos eventos que fazemos nas praças dizem que deixamos tudo sujo e que atrapalhamos outros comerciantes. Isso não é verdade. Limpamos o que sujamos, praticamos preços diferentes e tiramos nota da mesma maneira. Minha esposa, a Neguinha, usou a praça em frente ao estabelecimento dela, “Praça do Boteco”, e foi criticada. Lá fizemos o calçamento, cuidamos da jardinagem, pintamos e gastamos um bom dinheiro. E tudo foi feito dentro da lei. Poucas pessoas reconheceram nosso trabalho de recuperação e manutenção do local. Não invadimos nada. Há tantos outros estabelecimentos que usam espaço público e eu não me sinto prejudicado por isso. Dentro do nosso ramo, somos parceiros e não concorrentes”, desabafa.
Nélio acredita que muitas mazelas pelas quais passa a população brasileira, são decorrentes da má gestão do dinheiro público. Para ele, independente de partido, é preciso que haja uma força-tarefa capaz de fazer a economia reagir, bem como que aumente as preocupações e investimentos em segurança, saúde e educação. “Penso que 90% dos nossos problemas são causados pela corrupção. Precisamos mudar essa mentalidade e sair desse marasmo. Pretendo continuar na luta, mas o movimento caiu cerca de 10% e o lucro despencou 80%, pois tudo aumentou. Minha conta de luz, de R$ 6 mil foi para R$ 10 mil. É triste, mas tive que enxugar o quadro de funcionários. Não tenho casa própria e tudo o que ganho invisto no meu negócio. Acho que mereço e espero conseguir um cantinho para mim e para os meus filhos, um espaço em que eles possam trabalhar e ganhar o dinheiro deles”, planeja.
Para encerrar, o empresário enaltece as riquezas do Brasil e deposita suas esperanças em um futuro promissor para todos, no qual prevaleça o altruísmo e a ética. “Somos um país riquíssimo, de muitos recursos. Como diz a música, aqui tudo o que se planta dá. A terra e o clima são favoráveis para agricultura e pesca, mas somos governados por pessoas gananciosas. Espero que o país, o estado e a cidade melhorem, não importa quem está ou estará governando. Quero que sejam pessoas dignas, que trabalhem em favor da população e não em benefício próprio”, finaliza.

Jogo rápido

Saudade: Meus 18 anos
Música: Exceto funk, todas. Em especial as canções dos anos 1960 e 1970.
Hobby: Cozinhar e dançar
Ídolo: Ayrton Senna – exemplo de garra
Viagem internacional: Portugal, Espanha e Chile
Viagem nacional: Cidades praianas do Nordeste
Superstição: Fujo dos números 13 (azar) e 4 (morte) – (Segundo a numerologia)