Por Luiz Gerardi
Fotos: divulgação

A China vem se mostrando um grande parceiro comercial do Brasil nos últimos anos e essa relação chegou agora ao futebol. Assim como nas commodities, nossa matéria-prima é abundante quando o assunto é a bola. Após investirem na contratação dos craques da Seleção, Diego Tardelli e Ricardo Goulart, na janela de transferências do meio do ano, quem vem sofrendo agora com esse assédio é o Corinthians. Com Felipão, Mano Menezes e Vanderlei Luxemburgo dirigindo clubes por lá, o atual campeão brasileiro viu sua equipe ser desmantelada, em grande parte por ação de clubes chineses. Saíram Jadson, Renato Augusto, Ralf e Vágner Love, e ainda podem deixar o clube o volante Elias e o zagueiro Gil. O goleiro Cássio resolveu ficar.
E não foram só os chineses que trouxeram dor de cabeça aos treinadores de cá. Os mercados da Europa e Oriente Médio sempre foram compradores ávidos e continuam contratando. Vários fatores explicam essa debandada, mas três deles são principais: o alto valor do dólar em relação ao real, o baixo valor da multa rescisória e a qualidade desses jogadores.

Péricles Chamusca em sua apresentação ao Al Gharafa

O técnico Péricles Chamusca, que já dirigiu clubes do Japão e Qatar, conhece bem o mercado e acredita que essa movimentação do futebol chinês não será uma constante.“Em um primeiro momento, os clubes da China estão fazendo um investimento pesado para dar um ‘boom’ no futebol deles. Mas não acredito que isso será uma constante, apesar do poder econômico que eles têm”, explica o treinador, que aqui no Brasil dirigiu clubes como Coritiba e Botafogo.

Apesar de levar jogadores renomados e até os que são frequentemente convocados para a Seleção Brasileira, a tática chinesa é investir em atletas livres no mercado, caso do atacante Luís Fabiano, que acertou com o Tianjin Quanjin, mesma equipe que levou o meia Jadson, ou em jogadores com multa baixa, como no caso dos outros corintianos. Pressionado para renovar contrato com os seus principais jogadores após o título, o Corinthians se viu obrigado a aceitar um valor menor da multa, o que facilitou a investida estrangeira e não chegou a encher os cofres do clube, que tem direito a uma pequena parte dessa quantia.

Atacante Mazola quando atuava na China

O atacante Mazola, ex-São Paulo e Figueirense, defendeu o Urawa Reds, do Japão, e depois passou duas temporadas no futebol chinês. Ele dá um parecer sobre o que os brasileiros vão encontrar por lá. “Os clubes da China estão se estruturando, muitos já têm CTs e campos bem modernos. A torcida é fanática e como eles têm muito dinheiro é certeza que o futebol vai pegar de vez por lá”, comenta o atacante, que no país defendeu o Hangzhou Greentown. A transferência de jogadores brasileiros ao exterior rendeu 98,8 milhões de dólares no primeiro semestre de 2015, segundo a CBF. Foram 355 transferências, número dentro da média anual.

A alta do dólar também é um fator que explica essa movimentação. Com a moeda americana na casa dos quatro reais, propostas de clubes intermediários e que antes não eram sedutoras, agora passaram a ser bem vistas. Um salário de 10 mil dólares, valor médio pago por clubes pequenos de mercados emergentes na Europa e da Ásia, passou a valer mais de 40 mil reais. Para conseguir um contrato assim aqui no Brasil o atleta teria que assinar com um clube de Série A, por exemplo.

Esses mercados foram os responsáveis pela maior parte dessas 355 transferências. Países pouco lembrados no mundo da bola como Indonésia, Malásia, Tailândia, Índia e Canadá também passaram a investir em jogadores brasileiros. A globalização do futebol não afetou só o mercado brasileiro. Atualmente, um torcedor do Al-Sadd, do Qatar, pode comprar ingresso e assistir ao meia espanhol Xavi Hernandez defendendo seu clube do coração. Thierry Henry, Kaká, David Villa e Frank Lampard estão disputando a MLS, primeira divisão do futebol nos Estados Unidos, e Didier Drogba defende um clube canadense.

Voltando ao futebol tupiniquim, a saída para os nossos clubes tem sido olhar para o mercado sul-americano e tentar buscar a solução no próprio continente. Além de nomes já consagrados por aqui, como o meia D’Alessandro e o volante Guiñazu, os treinadores latinos também têm entrado na preferência dos clubes nacionais, mesmo que o histórico de sucessos seja pequeno dentre os clubes que investiram neles.
Apenas o uruguaio Diego Aguirre fez um trabalho que deixará saudades no Internacional-RS. Em 2016, o treinador dirigirá o Atlético-MG. Juan Carlos Osório chegou a impor mudanças importantes ao Tricolor Paulista, mas um convite para dirigir a Seleção Mexicana colocou um ponto final prematuro no trabalho do treinador. O clube tentou Doriva, mas para este ano apostará em ‘El Paton’ Bauza.

Outra solução é valorizar as categorias de base, nossa maior commodity. Fazer contratos mais longos e com benefícios gradativos, montar um plano de carreira para o jogador e saber a hora certa de inseri-lo no time principal são as lições de casa que precisamos fazer. Chamusca destacou ainda a organização do nosso futebol e a melhora do panorama econômico como pontos cruciais para esse sucesso. “Esse processo que estamos vivendo de profissionalização dos clubes administrativamente e também financeiramente vai ter um reflexo positivo daqui para a frente. Mas vai depender do crescimento econômico do país para que eles possam dar continuidade. Se as propostas forem muito próximas, a tendência é não perdermos tantos jogadores”, explicou o treinador.

O fato é que nossos clubes nunca arrecadaram tanto com o futebol. Diversificaram as fontes de renda, estão investindo cada dia mais no torcedor, o que tira a dependência das cotas de TV, e aprendendo com os erros do passado. Somos uma das principais fontes de matéria-prima do futebol e só com criatividade e inteligência vamos conseguir garantir nosso futuro dentre as principais seleções do mundo. “O Brasil ainda continua como o maior exportador porque o talento do jogador brasileiro ainda é o melhor do mundo quando o assunto é futebol: o mundo todo olha para cá”, finalizou Péricles Chamusca.

 

 

 

Luiz Fernando Mendroni Gerardi é jornalista e designer gráfico. Trabalhou no Diário LANCE!, Valor Econômico e Diário de S. Paulo. Atualmente é proprietário da Player ONE, empresa de comunicação e marketing voltada ao esporte.

 

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