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Não siga o mestre, siga você mesmo

Por Amauri Eugênio Jr.

Considere as duas situações expostas abaixo:

Durante uma aula no ensino médio, um professor faz uma pergunta para a classe inteira e quase todos os alunos erram a resposta. Um deles sabe a resposta correta, mas por medo de ser julgado e virar alvo de piadas dos seus colegas, por seguir na contramão da maioria, acaba seguindo a opinião dos demais, mesmo sabendo que a resposta é a errada.

A diretoria de uma empresa multinacional apresentou lucros abaixo do que havia sido estipulado para o primeiro trimestre do ano. Para aumentá-los no trimestre seguinte, a opção apresentada foi recorrer a um corte no quadro de funcionários da área operacional. O único diretor que discordava da medida, por achar que isso resultaria em problemas de produtividade e em desmotivação nos colaboradores que fossem continuar na área, não teve coragem de expor o que pensava por estar contra o que todos os outros pensavam. Dias depois, ele pediu demissão, por acreditar que as diretrizes adotadas na empresa conflitavam com o que ele julgava ser correto.

O que os casos citados têm em comum? Por mais que sejam de realidades bastante diferentes, ambos dizem respeito a pessoas que tinham opiniões diferentes em comparação com as da maioria. Com certeza, você já presenciou ou passou por isso em situações corriqueiras, como em uma reunião no trabalho, debate na faculdade ou até mesmo em uma confraternização familiar. Seja por medo de a maioria discordar do que pensava, ou porque os outros poderiam se incomodar por ela se destacar em determinado aspecto, a pessoa acabava se escondendo e seguindo o que o grupo julgava ser certo.

Pode parecer estranho para alguns, mas isso tem nome e sobrenome: síndrome de Solomon. Em resumo, a pessoa tende a se comportar de modo que não se destaque ou a se autossabotar para não fugir do que a maioria tende a fazer, para não ser alvo de inveja ou de julgamento. “Quando a pessoa se destaca, ela cria o efeito contrário. Ou seja, ela faz com que os outros tenham de se destacar também. O que acontece nesse caso? A maioria bate em quem se destacou, essa pessoa para de se destacar e volta à média. O livre pensamento não é muito estimulado e, no fim das contas, essas pessoas desistem [do que iriam falar] por medo de dizer besteira”, explica o master coach trainer e psicólogo João Alexandre Borba.

Por que Solomon?

Vamos lá: quem descobriu – ou melhor: conceituou – a síndrome foi um psicólogo estadunidense chamado Solomon Asch. Ele realizou, em 1951, uma pesquisa com 123 jovens voluntários, mas sob o pretexto de fazer um teste de visão. O teste consistia em colocar uma pessoa em meio a um grupo de sete pessoas, que já haviam combinado as respostas com Asch, e esse oitavo elemento achava que os demais também participavam dessa mesma prova de visão.

Esse foi o ponto de partida para a história ficar divertida: Solomon, passando-se por oftalmologista, mostrava três linhas verticais de comprimentos diferentes, que estavam desenhadas com uma quarta linha – a primeira e a quarta tinham a mesma medida. A partir disso, ele perguntava aos participantes quais linhas tinham o mesmo tamanho e, claro, o oitavo elemento era o último a responder. A maioria induzia a cobaia (ops: participante) ao erro, pois dava uma resposta errada de propósito.

Quase todos seguiram o que os outros responderam por medo de remarem contra a maré, sendo que apenas 25% mantiveram o que achavam de imediato. A cereja do bolo foi que os 123 envolvidos disseram ter distinguido a linha correta, mas não o disseram por receio de expor-se ao ridículo. Foi assim que a síndrome de Solomon surgiu.

Medo, força que não te deixa andar

É inegável que é grande a pressão recebida por uma pessoa para ter opiniões e atitudes iguais às de outras pessoas dentro de um grupo social. Por exemplo, “ai” de quem dizer que votou em um político A ou B, estar com a camisa do time arquirrival no meio de um grupo de torcedores de outra equipe ou dizer que segue uma religião X no meio de pessoas adeptas de Y – aí são casos extremos de intolerância, mas exemplificam bem a pressão popular.

Essa pressão é fruto da insegurança, que tem relação muito forte com a síndrome de Solomon. Esse sentimento explica, inclusive, por que uma pessoa muda a percepção sobre si própria para ter a aprovação dos outros e perde a sua identidade aos poucos – é como um peixe no meio de um cardume. Um exemplo clássico é uma pessoa que muda o estilo como se veste e o modo como fala só para seguir uma tendência da moda ou o que é tido como comportamento “cool”. Sem exageros, dá para dizer que é uma pessoa que deixa de ser ela mesma para agradar um grupo social e se sentir parte dele.

Em situações extremas, essa síndrome pode se tornar um combustível para o surgimento e manutenção de regimes totalitários e governos ditatoriais. Não acredita? É aquela velha história de que atrocidades só são cometidas porque têm apoio popular. O nazismo, por exemplo, virou o que virou nas décadas de 1930 e primeira metade da de 1940 por ter apoio maciço da população. Poucos tinham coragem de questionar as atrocidades capitaneadas por Adolf Hitler.

Laços de família

Boa parte dessa insegurança tem como ponto de partida as questões familiares, ainda na infância. Pode não parecer, mas pais que censuram os filhos pequenos em tudo o que eles fazem acabam, sim, deixando-os sem autoconfiança para fazer escolhas e com dificuldade para opinar sobre o que pensam. O mesmo princípio vale para comparações feitas com os irmãos ou com filhos de outras pessoas. Pode não parecer, mas dizer que Fulano é mais organizado ou tira melhores notas do que Beltrano pode destruir a autoestima da criança e fazê-la achar que tudo o que ela faz é errado.

Qual é o antídoto para isso? Deixar os filhos terem autonomia para escolher e tomar decisões. “A criança vai ter espaço para agir e é na ação que ela se destaca. A pessoa pode ter ideias geniais, mas na hora de praticar ela fará tudo errado se não tiver conseguido vivenciá-las antes de colocar em prática”, destaca Borba.

Antídoto da síndrome

Para sair da caverna da síndrome de Solomon e perder o medo do que os outros acham, o primeiro passo é expor o que pensa, mesmo aos poucos. Por exemplo, que tal rebater algumas besteiras ditas por parentes e amigos, mas de modo bem amigável e com uma dose de zoeira?

Não é preciso chutar o balde, mas não aceitar passivamente tudo o que dizem é fundamental.
“É importante arriscar, dizer o que pensa e ousar cada vez mais, em vez de ficar com aquilo [o que se pensa] só guardado. Isso não levará a lugar nenhum”, finaliza o master coach trainer e psicólogo João Alexandre Borba.

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