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Corrente do bem

Por Amauri Eugênio Jr.

Fred acredita que pode fazer do mundo um lugar melhor se o meio ambiente for preservado e se a relação entre homem e natureza for sustentável. Luiza fica com o coração partido ao ver crianças e idosos em situação de abandono, e procura fazer o que está ao seu alcance para minimizar o sofrimento deles. André não suporta viver em uma sociedade na qual algumas pessoas têm plenas condições de desenvolvimento, enquanto outras não têm perspectiva sequer para o dia seguinte. Bianca luta pela inclusão plena de pessoas com deficiência no mercado de trabalho e demais segmentos sociais. Todos eles são apoiadores de projetos para redução da desigualdade social e melhora ambiental.

É certo que muita gente se identifica com as causas ilustradas acima, o que mostra que transformar o mundo em um lugar melhor é uma vontade coletiva. Não dá para dizer que se trata de um desejo de todos, ainda mais ao ver os escândalos políticos nos quais gente de diversos partidos e ideologias estão envolvidos, mas qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade tem essa vontade dentro de si, independente de classe social, etnia, grau de escolaridade, orientação sexual, ideologia e demais variáveis.

Voluntário, eu?

Se você colabora para uma causa social, pouco importando qual, parabéns: você é voluntário. Não acredita? Pois bem, ser voluntário é doar o próprio tempo, trabalho e talento para causas de interesse social e comunitário, o que é refletido positivamente em alguma comunidade.
Vamos aos fatos: uma a cada quatro pessoas com mais de 16 anos já fez trabalho voluntário no Brasil e, segundo estudo da organização britânica CAF (Charities Aid Foundation), o País está entre os 10 países com mais voluntários no mundo, com aproximadamente 18 milhões. “Ninguém perde com o voluntariado, pois essa é uma ferramenta à disposição de qualquer pessoa para ela gerar mudanças que deseja no mundo. A pessoa ganha por poder contribuir. A sociedade e a organização que recebe ajuda, também”, explica Silvia Maria Louzã Naccache, coordenadora do Centro de Voluntariado de São Paulo, entidade atuante há 18 anos na formação de voluntários e na preparação de instituições que os receberão.

Será que posso ser?

Sim, pode. Aliás, qualquer pessoa pode ser voluntária em algum segmento. Contudo, algumas coisas devem ser levadas em conta para saber como e em que área é possível fazer atividades voluntárias:

Além disso, é importante ter em mente que a causa a ser apoiada deve fazer parte da sua vida. De nada adianta você lutar pela preservação do meio ambiente se costuma jogar lixo na rua; ou fazer voluntariado com idosos, mas dormir no assento preferencial em pleno horário de pico e deixar justamente uma pessoa idosa sem lugar garantido. A mesma coisa vale para, falando o português claro, ser voluntário só para aparecer. “Não cabe o personalismo no trabalho voluntário, pois se está lá para servir outra pessoa. Aprendemos a lidar com as próprias emoções, de modo mais humilde e sem haver autopromoção. A gente deve acreditar, de coração, na capacidade do outro”, destaca Zilda Silva, porta-voz do CVV (Centro de Valorização à Vida) em Guarulhos.

Por que ajudar?

Além de ajudar ao próximo, a pessoa ajuda a si própria, pois passa a se conhecer melhor, a ser mais disciplinada e, de quebra, a despertar suas próprias virtudes. Isso sem contar que se tornam, com o passar do tempo, melhores ouvintes, seres mais fraternos, solidários, compassivos e que saibam respeitar as diferenças alheias.

No entanto, é importante quebrar o mito de que pessoas voluntárias são boazinhas ao ponto de ser submissas. Elas têm mais empatia e transformam plenamente o ambiente onde estão, mas sabem quando ser firmes. Há uma diferença importante entre ser uma pessoa boa e alguém bonzinho de dar raiva.

O voluntariado e a firma

Que o trabalho voluntário transforma o mundo e a pessoa praticante, isso é um fato. Mas a atividade pode, também, deixá-la em posição de destaque na busca por um emprego. Fazer uma atividade voluntária aumenta a autoconfiança, por ela sentir que está fazendo a diferença na sociedade. Outro ponto importante é o ganho de habilidades como iniciativa, liderança, relacionar-se melhor com outras pessoas, comunicação, altruísmo, poder de negociação, e demais aspectos correlatos.

Por isso, é importante saber como citá-lo no currículo. O primeiro passo é acrescentar o item “Atividade voluntária” e explicar o que fez, onde, como e quando, incluindo habilidades, experiências e valores adquiridos. “Ele deve escrever um breve parágrafo explicando como a experiência se relaciona à sua meta profissional – se liderou uma pequena equipe, contribuiu com um boletim informativo ou ensinou um grupo de pessoas, fazendo-a desenvolver habilidades valiosas para o trabalho que tenha em vista”, ressalta Luciana Boschi, diretora da Dom Graphein Consultoria.

Colorindo a vida

Em um sábado ensolarado, a lógica é procurar por um lugar para diversão. Mas há quem, ainda bem, aproveite o dia para fazer o bem ao próximo. Assim foi em 29 de agosto, quando aconteceu o Solidare, última etapa do programa Universidade Futura do Pintor, programa da indústria Futura Tintas para capacitação de pintores imobiliários, na sede do GAPC (Grupo de Apoio a Pessoas com Câncer). A ação, que foi realizada em parceria com a loja Bangu Tintas, de Santo André (SP), envolveu, além dos pintores formandos, funcionários da Futura Tintas – ou melhor: voluntários naquele dia. Até familiares do pessoal da empresa participaram da ação. “Fazer o bem é bom para a gente e se sentir útil em uma causa. O nosso propósito é colorir vidas, que tem a ver com tintas. É isso o que nos move”, conta Ricardo Stiepcich, presidente da Futura Tintas.

O programa, existente há um ano e que já formou 13 turmas, visa a retribuir à sociedade o que a empresa já ganhou nos 34 anos de mercado; conectar negócios com fazer o bem; e a despertar o orgulho em ser pintor. Esse é o caso de Sidnei Rodrigues, 39, conhecido como Sidão, formando da turma que estava revitalizando a sede do GAPC. Ele não conseguia conter em si a felicidade por ter participado do curso – “Moro em Taboão

Carta branca

Pessoas com menos de 16 anos podem fazer trabalho voluntário educativo, ou seja, como ferramenta para formação de valores; enquanto as que tiverem entre 16 e 18 anos poderão ser voluntárias mediante autorização dos responsáveis. Já as pessoas maiores de 18 anos podem fazer sem entraves, pois se trata de uma decisão pessoal e individual.

da Serra, chegava em casa à 1h30 e acordava com alegria às 5h30” – e por participar de uma ação voluntária. “Doamos um pouco do nosso trabalho e potencial para pessoas que precisam. Isso é fundamental: doando, você também ganha.”

A ação levou dois dias: na sexta-feira, as paredes do imóvel foram lixadas e preparadas para ser pintadas, e no sábado foi feita a pintura propriamente dita. O processo para a iniciativa levou cerca de dois meses, desde o primeiro contato feito com Cristina Raelene, presidente do GAPC, com uma pessoa que a colocou em contato com a Futura Tintas. “Receber de profissionais a tinta na parte interna e externa é algo muito bom, pois é para o uso das pessoas atendidas na casa. Ainda mais em um sábado, um dia bonito como esse. Elas estão aqui, fazendo o bem, que é um ato de doação. O amor faz a diferença.” Sua fala foi endossada pelo proprietário da Tintas Bangu, José Garcia. “Pedi para um rapaz, que conhece o projeto, ficar no meu lugar na loja. É [um trabalho] tão profundo, que se trata de inclusão social e valorização.”

Ligando anjos

Durante uma conversa com a irmã, o produtor de eventos Anderson Ferreira Silva decidiu criar um site que funcionasse como uma central para ligar ONGs por região e área de atuação, como um mecanismo de busca para interessados em fazer trabalho voluntário, mas não têm tempo disponível para tal. E não é preciso fazer trabalhos mirabolantes, pois pequenas atitudes contam. E muito. “Você consegue ser solidário revisando texto ou preparando material para uma ONG, por exemplo. Tem muita gente que queria ser voluntária, mas não tem tempo; ou não quer se envolver diretamente com a causa. Às vezes, o tempo de deslocamento para chegar a uma ONG inviabiliza o trabalho voluntário.” E assim nasceu o portal Link de Anjos. Para deixar o site consistente, está sendo fechada uma parceria com o Portal do Voluntariado, no qual é usado o recurso desse portal.

Anderson, que já faz trabalho voluntário em outra ONG, está trazendo para o Link de Anjos o conceito do projeto Vamos Combinar, de Joinville (SC). O objetivo, resgatar a dignidade, em âmbito social. Por exemplo, são “pegas” histórias relacionadas à desigualdade social, como a de um adolescente que quer ser jornalista, e ela é colocada em contato com outra pessoa dessa área que possa ajudar, tornando-se mentora dessa jovem. Nesse caso, a pessoa se responsabiliza em ajudar quem está na outra ponta.

Olhar sobre o mundo

A história da adolescente Beatriz Martins de Souza, a Bia, é conhecida na mesma proporção em que é inspiradora. Também, pudera: uma criança de 6 anos decidir dividir suas balas com outras que faziam malabares na rua é um ser especial. Isso ficou mais intenso quando a vontade de fazer do mundo um lugar melhor foi transformada na ONG Olhar de Bia. O braço direito e anjo de Bia é seu pai, Ricardo Martins Xiruli, que tornou concreto o sonho de sua filha. O reconhecimento, que já era grande, tornou-se ainda maior após ela ganhar em 2014 o “Meus Prêmios Nick”, organizado pelo canal por assinatura Nickelodeon, na categoria “Agente transforma”. E olha que ela concorreu com gente do nível de Isadora Faber, criadora da fanpage “Diário de Classe”, no Facebook.

A atuação da ONG, que começou com arrecadação de mantimentos, roupas, brinquedos e afins, hoje está também na esportiva, com modalidades e parcerias com as federações como o jiu-jitsu, cujos treinos acontecem no Clube do Cecap e em um espaço no Jardim São João, tae kwon do e luta greco-romana. Além disso, há a capacitação profissional, que começará em breve, na gastronomia (Olhar do Chef), fotografia (Olhar do Bem) e oficina de moto (Mão na Roda).

Bia tem uma vida igual à de qualquer adolescente na mesma idade. O que muda é a ajuda ao próximo estar em sua essência. E a garota, que quer enveredar pelo mundo da comunicação, fala com a espontaneidade típica da sua faixa etária sobre o segredo para fazer a diferença no mundo. “Basta parar de marcar ‘um dia’ no calendário, com o ‘quando eu…’ Dá para fazer com pequenas coisas e, para começar, basta dar o primeiro passo.”

Anjos da guarda

Universidade Futura do Pintor: www.unipintor.com.br
GAPC (Facebook): GAPC. Avenida Mãe dos Homens, 1.107, Gopoúva
Link de Anjos: www.linkdeanjos.org
ONG Olhar de Bia (Facebook): Olhar de Bia
CVV Guarulhos: cvvguarulhos.wix.com/cvv
Centro de Voluntariado de São Paulo: www.voluntariado.org.br

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