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Crítica do espetáculo: HOSPITAL DA GENTE

Fechamento da Mostra de Teatro Heliópolis: a periferia em cena, e abertura de uma série de possibilidades de ação cultural: grupos que se assumem nessa condição periférica (considerando o conceito proposto por Alexandre Mate, segundo o qual somos todos periféricos) promoverem encontros regulares para trocas e interlocuções, foi uma das propostas de encaminhamento do professor e curador da atividade, após as reflexões proporcionadas pelas rodas de bate-papo mediadas por Mate. E o coroamento de todas as trocas deu-se, certamente, com a apresentação de Hospital da Gente, do Grupo Clariô de Teatro. Com cenário-instalação do incrível artista-marceneiro-artesão Alexandre Souza, dramaturgia e músicas elaboradas coletivamente a partir de textos de Marcelino Freire. O espetáculo esteve em cartaz na sede do grupo, buscando a interlocução que foi conquistada local, regional e amplamente, configurando-se como potentíssima ação transformadora e afirmativa, para além da efervescente produção teatral paulistana, no seu território, a região do Taboão da Serra.

A apresentação do dia 9 de agosto de 2015 ocupou toda a sede da Companhia de Teatro Heliópolis, organizadora da Mostra, desde a rua até o galpão, espaço cênico propriamente dito, além de toda a parte externa que ambientava a comunidade e, de certo modo, transportava Taboão da Serra para o bairro do Ipiranga, e o aproximava a tantas periferias desse Brasil. Tal como se transforma artesanalmente barro em argila e esta em cerâmica pela queima do material em alta temperatura, a companhia, em sua maior parte formada por mulheres, transforma os temas recorrentes da realidade da periferia em puro lirismo encantatório, em verdadeira obra-prima. As mulheres, que dominam o elenco, são quase todas negras, lindas, fortes cenicamente, e narram, interpretam, cantam, dançam e, reverenciando o ofício teatral e natureza, elas parecem contracenar também com suas manifestações: o vento, a brisa, a árvore com a qual a atriz compunha um dueto ao apresentar-se sobre uma das lajes, tranformadas cenograficamente. Numa das cenas mais tocantes, a atriz Naruna Costa apresenta delicada e visceralmente uma mãe que perde seu filho e questiona a famigerada paz. Ao lavar a roupa ensanguentada diante de todos, ela expõe a violência à qual jovens estão submetidos, e revela, a partir de expediente épico, o filho morto, representado na camisa estropiada e marcada no peito pelo tiro desferido. Outro momento ímpar, interpretado pela mesma magnífica atriz, mostra uma mulher, para quem o lixão (resultado dos restos do sistema capitalista, uma das poucas alternativas de sobrevivência para muitas pessoas nas periferias das periferias) é seu paraíso, seu não-lugar.

Assim, esse importante coletivo discute temas de fundamental importância pela sua pertinência social e desmistifica muito do que ainda se referencia às mulheres de modo preconceituoso e arbitrário. Nesse espetáculo, a marginalidade, violência, condições de vida, relações de afeto, familiares, amorosas, a mulher como objeto, a mulher com sua possibilidade de escolha, são vividas “à queima roupa”, possibilitando que se vejam as mazelas que, por mais que estejam evidentes como fraturas expostas, continuam a ser mascaradas e ainda aguardam por denúncias. Nesse caso, ela vem em forma de registro poético e atitude que mostra claramente (Clariô!) a que vieram essas bravas!

Por: Laura Melamed * e Simone Carleto **

Fonoaudióloga, especialista em Voz, docente de Expressão Vocal do curso Técnico em Arte Dramática do Senac Santana. Mestranda da linha de pesquisa Estética e Poéticas Cênicas do Programa de Pós Graduação do Instituto de Artes da Unesp.

** Artista pedagoga, pesquisadora teatral e coordenadora da Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos; doutoranda no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho.

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