Por Talita Ramos
Fotos divulgação MSP, divulgação Parque da Mônica e Rafael Almeida
Em meados dos meus oito ou nove anos de idade, lendo tirinhas, revistas e almanaques da Turma da Mônica, eu jamais poderia imaginar que um belo dia estaria frente a frente com o criador da turminha mais famosa do País e que incentivou centenas de pessoas a se tornarem ávidos leitores. Pois bem, no dia 28 de agosto deste ano, lá estava eu, pronta para entrevistar ninguém mais, ninguém menos que o premiado cartunista e escritor Mauricio de Sousa, com seu aspecto sereno, que emana paz, bom humor e criatividade, em sua sala na MSP – Mauricio de Sousa Produções.
Nascido em 27 de outubro na cidade de Santa Isabel – SP e criado em Mogi das Cruzes, pai de dez filhos e de muitos personagens, Mauricio, mesmo com o intuito de desenhar, começou a carreira como repórter do caderno policial no jornal Folha de S. Paulo, na época Folha da Manhã. “Quando eu fui pra Folha, pedi emprego de desenhista, mas não consegui. Provavelmente, pela avaliação do chefe de arte, meu desenho não estava maduro o suficiente e aí eles sugeriram que eu desenvolvesse melhor meu desenho, praticasse mais, mas eu não podia esperar. Eu precisava viver. Tinha 17 anos. Tinha vindo para São Paulo havia pouco tempo e estava precisando de dinheiro. Aí surgiu uma vaga na reportagem policial e eu achei legal. Pra mim, a reportagem policial era uma aventura. Eu me transformaria num herói de história em quadrinhos e fiquei lá quase seis anos”, conta Mauricio. Segundo o cartunista, a experiência de iniciar a carreira como jornalista foi fundamental para o que viria a seguir. “Foi ótimo passar pelo jornalismo, porque eu aprendi a escrever o texto na linguagem adequada para jornal, que é ao mesmo tempo boa para a história em quadrinhos, na qual você não pode ficar escrevendo muito. Precisa ter um texto conciso, direto e objetivo, que é o que você treina no jornal; então eu perdi os excessos da língua, os preciosismos e assim fiquei preparado para fazer um texto que coubesse no balão das histórias”, afirma.
Transição
Mauricio conta que, quando ainda era repórter, às vezes o fotógrafo não conseguia capturar uma imagem importante para a matéria; então, ele mesmo ilustrava – o que foi conduzindo seu trabalho para o desenho. “Eu ilustrava a matéria e então os chefes de redação começaram a perceber que eu desenhava também. Isso abriu caminho para o dia em que eu mostrei uma história e falei: ‘olha eu quero ser desenhista’”.
Com uma incrível visão empreendedora para a época, o jovem Mauricio tomou decisões que fizeram toda a diferença para que chegasse ao posto em que hoje se encontra na MSP. “Ainda no jornal, eu comecei a estudar como é que os americanos mandavam o material de quadrinhos, como publicavam, cobravam, faziam o marketing disso. Daí o pessoal da diretoria do jornal me passava esse material americano para estudar. Então eu decidi: ‘é isso que eu quero fazer, historinhas, redistribuir, mandar para outros jornais, fazer circular por aí, porque um jornal normalmente paga pouco por uma tira, mas se eu publicar em dez jornais é outra coisa, né?!’ E esse foi meu projeto de vida. Treinei, estudei bastante, vi como é que eles faziam e quando eu resolvi fazer minha primeira história, que era do Bidu, mostrei para o pessoal do jornal, eles toparam publicar; daí eu falei: ‘então me demito da reportagem e quero ser desenhista’”, explica o cartunista.
Primeiros personagens
Enfrentando a concorrência
Em 1970, quando surgiu a revista da Turma da Mônica, o mercado editorial era basicamente dominado pelo trabalho de Walt Disney, mas aos poucos Mauricio conseguiu estabelecer seu território. “No começo, eu fazia tudo sozinho. Escrevia, desenhava, cobrava, tentava vender, recebia quando dava, essas coisas. Precisei usar o sistema americano de pegar uma tira, vender para um jornal e redistribuir para outros jornais. Com isso consegui condição financeira pra poder contratar mais gente, criar mais histórias, abrir um estúdio e foi assim que começou tudo. Cheguei com uma revista que, pra época, até que estava bom, saiu com 200 mil exemplares. Então comecei devagarinho. Após dois anos, saiu o Cebolinha com mais cento e poucos mil e assim foi indo. O público foi gostando dos personagens e nossa revista começou a substituir meus concorrentes”, conta o cartunista.
O processo
Para construir uma revistinha, o processo passa por diversas fases minuciosas. Há roteiristas espalhados por todo o País, que enviam a ideia de roteiro, em esboços, para aprovação de Mauricio, que, por sua vez, faz as indicações de acertos a serem feitos e então o tema passa para os desenhistas, que aperfeiçoam o traço no padrão do estúdio, para os letristas que usam uma fonte específica da casa e também para os coloristas, que pintam digitalmente cada quadrinho; além dos continuístas, que verificam se não falta alguma parte do desenho nas sequências e para os arte-finalistas, que dão o acabamento final a cada projeto. Mas quando Mauricio percebe um tema na moda, ele mesmo sugere a construção da história, além de continuar fazendo os trabalhos referentes ao personagem Horácio, que é seu alterego.
Inspiração
Além de se inspirar em amigos, familiares e conhecidos, Mauricio sempre acompanhou o cenário de quadrinhos estrangeiros, inspirando-se na arte de seus desenhistas favoritos. “Eu via o que estava acontecendo, não só com os personagens, mas o que acontecia com os autores. Eu queria ser autor. Queria conhecer a história deles pra ver o que eu devia ou não devia fazer. Se eu imitava ou não imitava a forma deles tratarem o negócio. Isso me ajudou bastante, porque eu me livrei de alguns perigos”, afirma. Na época e até hoje, suas principais referências foram os cartunistas Alex Raymond, Al Capp, Will Eisner e Osamu Tezuka, sendo que dos dois últimos até tornou-se amigo.
Formando leitores
As histórias criadas por Mauricio de Sousa tiveram e ainda têm papel fundamental na formação de grande parte dos leitores brasileiros. “Sobre isso, me sinto muito bem, acho que porque me sinto meio responsável por essa criançada, centenas ou milhares que falam que aprenderam a ler com minhas histórias. Isso me dá uma responsabilidade de, até no trato do texto, ser muito cuidadoso. Eu não posso errar. Não posso escrever coisa errada. Eu preciso mandar uma mensagem positiva pra garotada. Então eu tenho que ter esse cuidado porque eu estou de alguma maneira influenciando o leitor”, explica. Veja alguns depoimentos:
Acho que o trabalho dele deveria ser usado como estudo na sala de aula. A leitura infantil é fundamental em vários aspectos, inclusive na hora de formar a personalidade dos pequenos. Ler incentiva a capacidade criativa das crianças e as ajuda a ter mais rapidez de raciocínio; ou seja, a Turma da Mônica é uma ferramenta poderosa para criar adultos mais inteligentes e humanos”.
Além da turminha
Parque temático
Quem foi criança na década de 90 ou tem filhos dessa época muito provavelmente já fez uma visita ao parque temático da turminha, que infelizmente fechou em 2010, mas reabriu neste ano em um novo espaço. “Criar um parque temático acho que é natural para qualquer desenhista que cria histórias em quadrinhos, porque é uma maneira de você chegar perto do seu leitor fisicamente. Foi por isso que eu fiz o primeiro parque, depois ele parou porque terminou o contrato. No shopping onde estava não se interessaram em prosseguir. Então saí de lá e esperei um tempo para me preparar pra criar um novo parque. Em termos financeiros, é muito pesado, mas eu não queria mais ser dono de parque. Eu não sou. Não é a minha. Agora recentemente eu conheci um pessoal que topou ser dono do parque e investir também. Então me tirou o grande peso de separar o dinheiro das histórias em quadrinhos e investir no parque, que é um negócio que não é o meu. Peguei uns bons parceiros e o parque está estourando aí. No primeiro mês levou 60 mil pessoas”, conta.
Sucesso
Mauricio ainda relata que nunca imaginou que o sonho de tornar-se cartunista chegaria tão longe. “Ninguém planeja sucesso. A gente planeja quando vai fazer um serviço, que tomara que dê certo, que não dê prejuízo, mas sucesso como nós temos eu não imaginava e ainda não entendo. Fazemos um trabalho que é normal, natural, cuidadoso, tem uma mensagem gostosa e tudo mais, mas o sucesso que existe é contra a corrente. Nós não temos uma porção de coisas que os outros têm e a gente continua na crista da onda. Então, o conteúdo das nossas histórias deve ser muito especial. Acidentalmente eu que faço. Eu que criei, mas eu não saberia explicar exatamente o porquê”, afirma.
Dicas
Assim como Mauricio foi um jovem sonhador, ainda existem muitos que almejam seguir uma carreira como desenhistas, roteiristas ou simplesmente contadores de histórias. Para isso ele dá algumas dicas. “O desenhista de quadrinhos do futuro tem que ler bastante quadrinhos, mas não só isso. Primeiro ler muito. Ter uma cultura geral muito boa, vasta e ao mesmo tempo tem que conhecer o meio. Conhecer o que está acontecendo no mercado e tem que ver também que tipo de quadrinho ele quer fazer, para que tipo de leitor, que mercado, qual é o nicho que está esperando por ele. Se ele ver que está na moda história de terror, tem bons desenhistas? Tem! Não tem? Então treina aquilo e vai fazer história de terror, uma boa. Faça um bom material e sempre haverá leitor para você”, aponta.
Aposentadoria
Segundo ele, quem é fã da Turma da Mônica pode sempre esperar por alguma novidade, como o restaurante Chácara Turma da Mônica, recém-inaugurado no bairro de Pinheiros, em São Paulo; a coleção especial de itens da Tok&Stok, entre outras coisas. “Agora temos a necessidade de perpetuar os personagens. Jogar para adiante, com bastante preparo, as próximas histórias, as mensagens e tudo que nós podemos fazer pra prender o leitor à leitura, para que a gente possa mesmo fazer a diferença nessa parte que é pequena, porém importante: o hábito da leitura. A pessoa que começa a ler por gibi, e continua, nunca mais vai parar de ler. Depois do gibi entra para o livrinho, livrão, romance, romance russo, continua lendo. Quem não tiver um gibi na mão vai ler bula de remédio”, afirma Mauricio.
Prestes a completar 80 anos no próximo dia 27, quando perguntado sobre a possibilidade de aposentadoria, a resposta é direta: “Tá doida?! (risos). Acho que desenhista é uma das poucas profissões que não se preocupa com isso, porque enquanto ele estiver lúcido e com as mãos obedecendo aos impulsos do cérebro, ele pode continuar trabalhando com 100 anos, 200 anos. Só precisa estar bem e de preferência bem humorado. Daí ele vai embora”, finaliza.
