Por Fábio Carleto
Desde criança, acompanho a política com olhos atentos e especial curiosidade. Antigamente, fazia análises muito mais apaixonadas, embora ainda hoje, confesso, o analista dê certo espaço para o eleitor. Costumo dizer que por melhor que seja um jornalista, é quase impossível que ele se dispa do que pensa e sente quando exerce sua profissão, sobretudo no que diz respeito aos três temas mais delicados: religião, futebol e política.
Aliás, o momento e toda a lambança no cenário nacional arrataram para a discussão política gente que dizia não gostar do assunto e que agora parece gostar mais do que deveria, levando ao patamar de paixão e, como andam dizendo por aí, tratando o assunto com o mesmo bom senso e razoabilidade normalmente dedicados ao futebol: qualquer coisa próxima de zero.
Mas o motivo de eu ter me atrevido a escrever este especial para o Click Guarulhos, nosso portal que não para de crescer e em poucos meses já se aproxima das 100.000 visitas únicas por mês, é fazer uma análise do tabuleiro eleitoral na corrida ao Bom Clima. Desnecessário frisar, mas é obvio que se trata apenas de minhas impressões que, diga-se, normalmente passam ao largo de muito do que se acredita no senso comum.
Seria falso eu dizer que não tenho a pretensão de acertar meus prognósticos, porque alguns deles, os mais estapafúrdios, são os mais legais de lembrar depois de se concretizarem, como por exemplo o de que o PT fica fora do segundo turno.
Em agosto do ano passado, logo após um bate-papo com amigo muito próximo, escrevi num retalho de papel alguns números apostando nessa direção e também numa acachapante abstenção, além de “colocar fichas” em candidatos de menor expressão até então e/ou menor “punch” financeiro. Para surpresa de alguns amigos que achavam que eu estava ficando maluco, as últimas pesquisas, destacadamente a que foi publicada na Folha Metropolitana na semana passada e umas não divulgadas, confirmaram alguns dos meus chutes, inclusive os improváveis. A seguir, comento um a um do tabuleiro segundo minha visão da conjuntura.
Alencar
Pietá
Caso seja ele o candidato do PT (possibilidade que me parece cada vez mais remota), a disputa poderia ser outra. Embora ele apareça na pesquisa Folha Metropolitana com menos intenções de votos do que Alencar, o ex-prefeito goza de um excepcional recall pelos bons mandatos que desempenhou, principalmente como prefeito e, para os saudosistas, presidente da Câmara Municipal, e teria mais chances de decolar nas pesquisas, pois o mau humor do eleitorado com o PT parece não “grudar” nele, que é claramente maior que seu partido. A rejeição a Pietá é significativamente menor do que a Alencar. Deve contribuir sempre ter tido um vida espartana e nunca ter sido flagrado socando ninguém. Ainda assim, eu não creio que chegasse ao segundo turno, mesmo achando que teria bem mais chances do que Alencar.
Carlos Roberto
Herda o recall de ser o oposicionista clássico ao PT, mas não creio em sua capacidade de crescer de seus 11%. Diferente disso, penso que cairá para a 3a. ou 4a. posição. Aparentemente está cada vez mais isolado e o envolvimento de quadros importantes e a citação de outros tantos de seu PSDB nos rombos investigados pela Lava Jato também não ajudam muito. Penso que seja carta fora do baralho daqui para a frente.
Eli Corrêa
Jorge Wilson
Jovino
Martello
Gileno
Wagner Freitas
Tido por muitos (eu incluso) como um cadáver político, o outrora promissor jovem líder carismático, após amealhar incríveis 54 mil votos para a Prefeitura em 2012, com o discurso do novo, aliou-se de primeira hora ao governo petista, recebeu como prêmio de consolação a Secretaria de Esportes (oi? esportes? cowboy? alguém desenha, por favor!) e com isso desempenhou sua performance mais apagada desde que surgiu para a vida pública. Ficarei imensamente surpreso se conseguir chegar aos 20 mil votos e nada espantado se tiver menos da metade disso.
Alexandre Zeitune
Guti
Guti – PSB
Muitos fatores explicam a primeira colocação do jovem vereador de oposição, a começar pela postura combativa que adota desde seu primeiro mandato e que se intensificou com o transcorrer (e piora continua) do mandato do prefeito Almeida. Além disso, Guti teve competência, junto com sua assessoria (que é bastante aguerrida), no sentido de dar publicidade dos atos do mandato, sobretudo nas redes sociais, onde aumentou continuamente o número de seguidores e engajamento. A campanha para deputado, apesar de não ter sido eleito, foi decisiva para o aumento do quilate político de Guti, que se tornou a figura mais cobiçada entre os partidos para concorrer à Prefeitura. Foram 46 mil votos, sendo 38 mil em Guarulhos. Soma-se a isso a polarização e desgaste entre PSDB e PT que naturalmente tem feito muita gente pensar numa terceira via, o que ajuda outros candidatos além de Guti.
Despontar tão cedo na liderança já começa a render dores de cabeça a Guti, como por exemplo um vídeo apócrifo em que alguém acusa o pai do parlamentar, o delegado aposentado Antonio Manuel Costa, de ter sido funcionário fantasma na Prefeitura. O golpe baixo, além de covarde, por ser anônimo, não faz o menor sentido por duas razões: há provas materiais e testemunhais de que Costa trabalhou de fato por quase um ano na Secretaria de Meio Ambiente; do ponto de vista financeiro, não tem lógica, já que o cargo tem salário de menos de R$ 3.000, o que no período total de vínculo somaria pouco mais de R$ 30 mil, quantia irrisória para ele e a família, muito rica, dona de diversas propriedades e negócios, incluindo o Colégio Maia, que pelo tamanho e quantidade de alunos deve render um bom dinheiro. Apesar da baixaria, seria de estranhar muito que Guti não esteja no segundo turno, e, eu apostaria, em primeiro lugar.
Ao microfone
Ouvindo as falas de alguns dos candidatos (um ou outro eu não vejo ou ouço dando entrevista há tempos), sobretudo no programa Radar de Notícias, construí as impressões que seguem.
Na minha opinião, Guti vai melhor que todos, pois fala simples, sem muito rodeio ou impostação. Em segundo, para mim, está Alencar, que também não abusa da impostação. As formas de expressar de Jorge Wilson e Eli Correa, indiscutivelmente hábeis ao microfone, por razões óbvias, me decepcionaram um pouquinho pois, por serem do ramo, penso que poderiam se destacar bastante dos demais. Carlos Roberto me soa sempre um tanto pedante, antipático, irônico além da conta, o que me faz crer que quanto menos campanha fizer, menos votos perderá. Wagner Freitas talvez fosse o melhor orador, indo melhor no palanque do que em entrevistas, mas a apatia de sua gestão frente ao Esporte deve esvaziar sua eloquência. Martelo bem poderia ter recorrido aos préstimos de uma fonoaudióloga para aprimorar a dicção, porque o discurso dele, apesar de um tanto vago, faz sentido. Uma melhor oratória poderia ajudar a reforçar a imagem do empresário bem-sucedido que não precisa da política. Jovino faz as mesmas falas de quase 20 anos atrás, o que não ajuda, apesar da impostação teatral e da voz imponente. Quase todos eles guardam aquele tom panfletário, mesmo em entrevistas, exceção feita a Guti e Alencar, que adotam uma fala mais com cara de conversa nas entrevistas. No palanque, o tom de todos acaba se assemelhando bastante.
