Você já parou para pensar por que a letra de cada pessoa é diferente uma da outra, assim como as digitais? Seja por uma pressão mais forte, uma escrita angular que pende mais para a direita ou uma letra arredondada, a verdade é que ninguém tem a grafia igual. Tente redigir ao mesmo tempo que conversa; impossível.
As letras passadas para o papel são um conjunto de símbolos que aprendemos ainda quando crianças e evoluem de acordo com o nosso crescimento pessoal. Assim como amadurecemos, conforme o passar do tempo a nossa escrita tende a sofrer mudanças.
A grafologia é muito utilizada em recrutamento e seleção. Para a área da psicologia, é uma técnica que auxilia na identificação. Estuda as formas e curvas das letras, pelas quais é possível fazer uma análise da personalidade: os símbolos são inseridos no papel de forma inconsciente. É importante deixar claro que analisar as letras isoladamente é considerado um erro pelos defensores da grafologia. O que vale é todo o contexto gráfico.
Funciona mesmo?
Em um bate-papo com a psicóloga psicanalista Cleise C. Porto Machado, que atua há 16 anos na área da neurociência e psicanálise, entendemos que, apesar de ter aceitação em outros países, a grafologia não é reconhecida cientificamente pelo Conselho Federal de Psicologia. A técnica é considerada uma pseudociência.
Como toda avaliação psicológica, a grafologia não pode ser tida como algo eficaz se analisada de forma isolada. É necessário ter todo um acompanhamento de testes projetivos, aplicados por um profissional da área, num processo conhecido como psicodiagnóstico. “Não só na grafologia, mas em todos os testes de personalidade, o paciente projeta os conteúdos inconscientes, para que, através de um estudo minucioso das margens, linhas, movimentos e traçados, o profissional consiga desenvolver a interpretação dos dados e trazer à luz algumas características de personalidade e pensamentos”, explica a psicóloga.
Os traços mudam de acordo com o humor e o momento. Na grafia, é possível que alguma particularidade do símbolo possa ser algo temporal – aquilo que você vive em determinada situação. Contudo, certas características sempre se manterão e é nelas que o profissional irá se atentar. “No senso comum é normal achar que uma pessoa com letra pequena seja tímida. Mas nem sempre pode indicar isso. Às vezes ela pode ser mais cautelosa, ela pode estar dizendo que não se abre com qualquer um, que é uma pessoa observadora; varia”, esclarece Cleise, que ressalta: “Por isso, é necessário considerar todos os pormenores. Os traços precisam ser avaliados individualmente e, junto a outros testes, ser dado um diagnóstico fidedigno”.
O lado profissional
Muitas empresas têm usado da grafologia para encontrar profissionais que se enquadrem na vaga. Se já passou por essa análise e não foi aprovado, não se detenha a isso. Como somente a letra não é o suficiente para trazer à luz fatos que estão encobertos em sua mente, a aplicação desse teste é para elucidar atributos referentes às vagas necessárias e não para fazer um estudo minucioso do candidato.
Para saber mais
Sigmund Freud explica que o consciente são as experiências que a pessoa percebe, como lembranças e ações intencionais. Já o inconsciente funciona quando você não está atento. Como um vídeo que nunca para de gravar, desde a formação do ser humano no útero materno.
No inconsciente estão armazenados todos os sentimentos, emoções e sensações que envolvem os sentidos (visão, audição, olfato e paladar) que você teve durante toda a vida.
Não é só a letra
Desenhos também são utilizados para trazer aspectos que estão escondidos no inconsciente da pessoa. Para quem projeta as formas e riscos no papel, pode parecer sem significado colocar um buraco em uma árvore; já para o psicólogo, diz muita coisa.
Um dos testes pelo qual é possível analisar o indivíduo através das figuras chama-se HTP (do inglês, House, Tree, Person), criado por John N. Buck, em 1948. Tem como objetivo compreender detalhes da personalidade do indivíduo, como a sua forma de interagir com as pessoas e o ambiente. Esse teste gráfico pode ser aplicado a partir de oito anos de idade.
A experiência
Você está diante de uma pessoa que pode desbravar a sua personalidade, medos e ambições somente por analisar os seus traços. Isso por si só já é bastante desconfortável. Uma conversa, chamada pelos profissionais de rapport, deixará você mais relaxado. Parece que não, mas o diagnóstico já começou.
Depois vêm as perguntas básicas, chamadas de anamnese – que é um inquérito conduzido pelo profissional, quando são feitos diversos questionamentos sobre a vida e o problema que o levaram até lá.
Com um bate-papo que o faz esquecer o porquê de estar ali, começam os testes. Nesse momento, o psicólogo crê que o paciente encontra-se bem confortável com a situação, para que todo conteúdo do inconsciente seja reproduzido na folha.
Os desenhos são aplicados (nesse caso, a reportagem solicitou para que também fosse feito um texto para comparação). As figuras são simples, quase infantis: uma casa, uma árvore e uma pessoa. Todos feitos da forma que você sabe; simplesmente pegue o lápis e rabisque.
Após os desenhos serem concluídos, novos questionamentos serão feitos. Desta vez você irá contar em detalhes o que vê e como vê o desenho. Dê asas à imaginação e conte tudo. Somente depois de todo esse processo o psicólogo dará uma avaliação.
Um adulto passa por duas sessões, a criança por quatro. O processo é bem meticuloso. Tem que deixar a pessoa mais à vontade, para que todo o conteúdo inconsciente seja projetado.
O Resultado
Todo esse processo, a princípio, pode ser estranho; mas o fruto que com ele nasce é fascinante; por que não dizer, transformador? É possível começar a se ver de forma diferente no mundo. E, a partir daí, entender o que deve ser cortado, pois lhe causa mal, o que deve ser mudado e o que deve ser valorizado. Vale a experiência; afinal, compreender aspectos da personalidade e também da vida aos quais jamais nos atentamos é valioso para o alcance dos objetivos pessoais.
Curiosidade
Na grafoscopia (ou grafotécnica), que é muitas vezes confundida com a grafologia, compara-se a grafia para verificar a autenticidade de uma assinatura, por exemplo. Essa técnica é um instrumento da área forense e do mercado financeiro. Esse método não considera somente a forma, mas o movimento e força empregada no gesto de escrever, ou seja, a espontaneidade do traço.