Por Val Oliveira
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A sabedoria popular difunde que um sorriso é capaz de “ganhar” os corações mais duros e ajudar a melhorar situações adversas. O segmento de autoajuda ratifica a percepção de que o bom humor é fundamental para que boas energias fluam e tornem a vida mais leve. Assim como nas cenas de teatro, cinema e TV, a vida precisa de um respiro cômico para não esfacelar corpo e mente. Além disso, as piadas e sátiras podem proporcionar reflexões sobre determinados problemas. Mas, como tudo na vida, será que o excesso não prejudica? De onde vem essa mania que muitos brasileiros têm de ver e fazer graça até nos momentos mais improváveis? Bom humor em excesso pode ser patológico? Existe algum fator histórico que justifique esse comportamento? Quais as explicações da psicologia e da sociologia para esse fenômeno?
Segundo Tania Maria Justo de Almeida, psicóloga e supervisora do curso de psicologia da UNG – Universidade Guarulhos, existem variáveis que explicam tal característica e uma delas está relacionada à diversidade racial e cultural que compõe o perfil da população brasileira, que acabam sendo interiorizada à personalidade do indivíduo. “É sempre importante entender o contexto no qual o fenômeno está ocorrendo. Pode-se interpretar pelo aspecto da defesa psíquica, que é um recurso utilizado para minimizar e lidar com as dificuldades e contrariedades do ambiente, no âmbito coletivo e individual. […] Bom humor, ironia e brincadeiras são meios que o indivíduo utiliza para lidar defensivamente com conflitos, com o objetivo de chamar a atenção para a situação”, explica.
Perguntada se nascemos com a predisposição para humor ácido e em demasia, ou se é o ambiente que modula essa maneira de agir, respondeu: “Entendo que vivências anteriores, pessoais ou grupais, influenciam a repetição de tais fenômenos. Na realidade, as características de personalidade e os estímulos ambientais interferem no comportamento do indivíduo, refletindo em suas representações e papéis sociais”, comenta.
Para a psicóloga, em toda relação interpessoal espera-se que haja equilíbrio e respeito entre as partes, e relacionar-se usando o bom humor é uma forma saudável de interação. Contudo, entende que há de se ter limites e que alguns tipos de brincadeiras e piadas se configuram como bullying. “A ação do bullying acarreta prejuízo emocional significativo, que por vezes torna-se irreversível. O bom humor dos brasileiros é reconhecido internacionalmente, porém a sua aceitação ou não estará sempre associada às culturas, vivências e interações entre os povos”, diz.
José Rodrigues Dias, sociólogo e professor dos cursos de Comunicação Social, Direito, Recursos Humanos e logística da UNG – Universidade Guarulhos, comunga da mesma opinião que a psicóloga quando diz que se trata de uma questão cultural e que essa conduta funciona como “válvula de escape” quando as pessoas se sentem impotentes diante de um problema. Outro ponto que ele destaca que pode justificar esse comportamento é a falta de conhecimento. “A maioria dos cidadãos vive um conformismo e adequação a cada momento difícil da vida em sociedade. Então, em cada crise, seja ela econômica ou social, acaba fazendo piada até com o sofrimento dos outros. Pode ser uma maneira de fugir da realidade em que vive, ou também por não se ter a dimensão do episódio satirizado. Estudos sociológicos apontam que esse comportamento é mais frequente nas classes sociais mais baixas, economicamente falando, e que são, na maioria das vezes, grupos que têm menor grau de instrução e conhecimento”, explica.
O profissional entende que outro fator que contribui para a proliferação de piadas até mesmo em momentos inoportunos é a falta de altruísmo e coletividade. “Reafirmo que a questão é cultural e enquanto o brasileiro não pensar na sociedade como um todo, isso não vai mudar”, declara.
Para o sociólogo, o hábito que brasileiros têm de ironizar em piadas os colonizadores e patrícios portugueses, surgiu desde a época da colonização e pode-se dizer que essa mania foi herdada dos próprios portugueses. Além disso, ele diz que o “chumbo” é trocado. “Tenho amigos portugueses que dizem que em Portugal adoram fazer piadas de brasileiros. Mas, historicamente, os próprios portugueses contavam piadas sobre outros portugueses, com algumas adaptações, visando aproximar-se do povo brasileiro na época da colonização, e isso se propagou pelo Brasil inteiro e perdura até os dias de hoje”, conta.
Para ele, o povo brasileiro é percebido internacionalmente como anfitrião hospitaleiro, alegre e de fácil convívio. Entretanto, o bom humor exagerado deixa uma “aura” negativa. “Muitos acreditam que somos um povo acomodado com as situações adversas que vivemos, como por exemplo, a violência, prostituição, fome e a criminalidade. Acreditam que ao invés de cobrarmos mudanças das instituições competentes, aceitamos tudo com tranquilidade. O brasileiro precisa amadurecer e entender que não é só de bom humor que vive uma sociedade”, conclui.