Por Tamiris Monteiro
Frustação não é um sentimento exclusivo dos adultos: as crianças também se decepcionam e os desapontamentos, por pior que pareçam ser, têm importante papel no desenvolvimento dos pequenos. Embora nenhum pai ou mãe goste de presenciar um filho triste, é essencial que os pais saibam lidar com essas frustrações, tenham em mente que os descontentamentos acontecerão em diversos momentos da vida e que isso acontece muito mais cedo do que se imagina.
De acordo com a psicóloga especialista em terapia sistêmica familiar e de casal e especialista em tratamento de traumas e fobias Maysa Fagundes Rangel, nos primeiros meses de vida, o bebê tende simplesmente a reagir através do choro à percepção de fome, sede, cansaço, afeto e dor. Por volta dos três meses, conseguem demonstrar alegria e tristeza e, à medida que crescem, vão entrando em contato com novas emoções. Mas, a partir dos dois anos, já passam a observar o que estão sentindo e conseguem nomear sua raiva, alegria, medo e também a frustração.
Mas como fazer para que as crianças se virem e não carreguem traumas? Segundo Maysa, faz parte do papel dos pais, ao educar seus filhos, ensiná-los a perceber e reagir, de maneira apropriada, a todos os tipos de emoções que sintam, até que sejam capazes por si sós de avaliar as circunstâncias, pensar com independência e tomar decisões ponderadas.
“Podemos estimular a autoconfiança das crianças, confortando-as e prestando o apoio necessário quando precisarem, mas sem assumir o problema por elas. Confiar em sua capacidade de resolver as adversidades e dar espaço para que enfrentem as dificuldades e encontrem as próprias saídas é importantíssimo. Ao cuidar mais e intervir menos, eles adquirem independência emocional e conseguem aproveitar as oportunidades que se apresentam de administrar pequenos descontentamentos e considerar-se prontos para tolerá-los”, pontua.
Muitas vezes, na tentativa de resguardar os filhos de possíveis decepções ou fracassos, os pais buscam atender todos os seus pedidos ou fazer coisas por eles. Porém, essas intervenções quando acontecem excessivamente, podem fazer com que a criança não vivencie a frustração natural e não aprenda a tolerar os diversos desapontamentos que encontrará ao longo da vida.
“Essa atitude não reflete a realidade do mundo que nossos filhos irão encontrar e eles não saberão reagir adequadamente quando, por exemplo, não forem convidados para o aniversário de um amigo, não fizerem um gol no jogo de futebol ou não tirarem a nota que esperavam”, ressalta. Permitir que a criança vivencie gradativamente circunstâncias desagradáveis, típicas para a idade, ajuda a prepará-la para suportar dificuldades no futuro. “É importante ter contato com pequenas impossibilidades para tornar-se apto a enfrentar as maiores depois, como o término de um relacionamento na adolescência, a disputa por uma vaga na faculdade e até a busca do primeiro emprego”.
Outra questão levantada por Maysa, é que quando se diz que as crianças precisam aprender a tolerar a frustração, muitas vezes, os pais podem entender que a orientação é deixá-las chorar ou sem consolo, mas não é bem assim. Permitir que os pequenos enfrentem frustrações trata-se de acompanhá-los enquanto passam por momentos em que se sintam frustrados. “Nosso apoio e afeto serve para que aprendam a gerenciar e compreender que as decepções fazem parte da vida e podem ser superadas. Devemos ajudá-los e ficar por perto, mas sem manipular as experiências desagradáveis, pois tentar poupá-los só vai atrapalhar”, salienta.
Algumas vezes, os pais também associam felicidade a satisfação de desejos e protegem demasiadamente, impedindo que os filhos tenham as experiências necessárias para tornar-se adultos emocionalmente equilibrados. “Nesses casos, a criança não aprende a entender o que está sentindo, nem o que fazer para voltar a se sentir bem depois desse incômodo, e estas são habilidades essenciais do autocontrole. Sem essas pequenas doses de frustração, eles terão dificuldade em transpor os obstáculos e os problemas, sem se deixar abater. Se não mostrarmos, com incentivo e amparo, que estes acontecimentos são apenas um dos muitos desafios que eles irão enfrentar, podem não se sentir seguros para traçar metas e alcançar seus objetivos sem desistir no caminho”, finaliza a psicóloga.
