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A magia da poesia

Por Val Oliveira

No dia 20 de outubro, comemora-se no Brasil o Dia do Poeta e no dia 31, o Dia Nacional da Poesia. Até o ano passado, a data era festejada, de forma não oficial, em 14 de março, data de nascimento do poeta Castro Alves. Porém, a Lei 13.131/2015, de 3/6/2015, determinou que o Dia Nacional da Poesia seja 31/10, data de nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade. No ensejo desta passagem, a Weekend rende homenagem aos grandes poetas brasileiros da história, e apresenta ou rememora versos de alguns guarulhenses que fazem da poesia a sua mais eloquente forma de expressão. Deleite-se!

Castelo Hanssen

O jornalista, escritor e poeta Aristides Castelo Hanssen, 75, foi repórter e cronista de jornais importantes da cidade, é um dos fundadores da AGL – Academia Guarulhense de Letras e do grupo literário Letraviva. Sua base cultural vem dos livros que “devorava” desde a infância. Cursou até o quarto ano primário.
É autor dos livros: Canção pro Sol voltar; A flor que Drummond viu nascer no asfalto; Um cego fita o horizonte; Fragmentos de memória; Conserta-se mundos e fundos; Epicordel de meianove; e uma peça teatral em versos, Geremias Gemebundo.
Em 11/11, no aniversário da biblioteca Monteiro Lobato, promove mais uma obra: Guarulhos – trajetória cultural, que assina em parceria com a artista Guilhermina Helfstein. “Eu tinha 12 anos e pegava aquelas folhinhas, calendários com ilustrações e no verso fazia poesia sobre aquela paisagem. Por ser doente, não podia fazer atividades como jogar bola, por exemplo. Então, lia o tempo todo. Decorei um livro inteiro com poesias de Olavo Bilac.Meus primeiros poemas falavam de amor e coisas de boiadeiros. A intenção era fazer letras para músicas caipiras. Com o golpe militar de 1964, passei a fazer poesias políticas. Daí surgiu meu primeiro livro, ‘Canção pro Sol voltar’”, relata.
Como o poeta praticamente perdeu a visão e não pode rascunhar no papel, faz seus versos mentalmente.

Inspiração: “Lembranças, acontecimentos, a vivência de outras pessoas que me passam em conversas e da minha observação do cotidiano”.
Autor preferido: “Para mim, o maior de todos é Castro Alves, que é extremamente clássico. De Carlos Drummond de Andrade, eu destaco o humanismo. Ele é moderno, mas também é lírico”.
Considerações: “No meu tempo de escola, declamávamos poesias em datas comemorativas. Acho que hoje falta um pouco disso. Eu defendo a implantação de saraus nas escolas como forma de incentivo à poesia.”

Anti-herói
De tanto ver triunfar a nulidade,
eu quis vencer na vida,
mas por desgraça ou por sorte, sou poeta
e a minha luta já nasceu vencida.

Eu sonhei com o mundo de justiça,
Eu quis fazer a minha revolução,
Eu quis voar, fiz versos condoreiros,
Mas nem sequer tirei os pés do chão.

Falei mal do governo e da plutocracia,
das ditaduras, das razões do estado,
na hora do “vamos ver”, morri de medo,
com medo de morrer crucificado.

“Pai, afasta de mim esse cálice
pois mesmo que eu morrer
esta dor não acaba.”
E a taça de sangue que me ofereceram
eu troquei por um suco de goiaba.

Se passei pela vida em brancas nuvens
se dos sonhos que tive nada fiz,
se engoli sapos, levei desaforos,
foi o jeito que arranjei de ser feliz.
Mas, por consolo trago uma certeza:
eu não feri nem fiz ninguém sofrer
eu não mato nem morro por amor
eu, por amor, só aprendi a viver.

Larissa Bottas

Aos 31 anos, formada em letras e marketing, a poetisa e escritora Larissa Bottas venceu um concurso cultural, em São Paulo, com a poesia “Romance de baixo custo em SP”, que não saiu em livros, mas em vários blogs e sites.
Usuária das redes sociais para divulgação de seus escritos, ela relata o que aconteceu com sua poesia “Ela cerveja, ele Coca-Cola”, feita para um casal de amigos e selecionada em um concurso para novos poetas. “Essa poesia, antes de ser publicada, foi compartilhada em uma página em homenagem ao Pedro Bial, sem autoria. Ele não tem nada a ver com isso, mas, infelizmente ou felizmente, ela foi muito compartilhada no Facebook em outras páginas, como se fosse dele. Sempre busquei esclarecer isso com os veículos, mas é um esforço pequeno dentro da complexidade e poder de disseminação da internet. Muita gente acha que a poesia é dele e, até hoje, dois anos depois, ainda há muitas páginas que publicam a poesia com a autoria errada. Mas, enfim, como diz uma amiga, também escritora, para cada poesia plagiada, outras duas novas brotarão de mim”, desabafa.

Ela Cerveja, ele Coca-Cola
Ela disco, ele tinta.
Ela toca, ele pinta.
Ela dança, ele tenta.
Ela sorri, ele não aguenta.
Ela escandalosa, ele calado.
Ela festeira, ele sossegado.
Ela quer ir, ele tá de boa.
Ela desiste, ele ‘me perdoa?’.
Ela pontual, ele demora.
Ela tem pressa, ele sem hora.
Ela espera, ele vai embora.
Ela pergunta, ele enrola.
Ela desencana, ele peleja.
Ela explica, ele boceja.
Ela respira, ele fraqueja.
Ela entende, ele a beija.
Ela ponto, ele porém.
Ela forte, ele do bem.
Ela do momento, ele do além.
Ela ama, ele também.

Laerte Vicente

Aos 60 anos, Laerte Vicente é poeta e divulgador cultural. Ele destaca que chegou a cursar o primeiro semestre de jornalismo na PUC/SP, mas teve que abandonar os estudos para trabalhar. É autor de três livros: Ecos de Amor e Sol; Babel – a confusão humana; e Andarilho Cultural.
Laerte diz que seu amor pela poesia surgiu ainda na infância. “Eu fazia poesia para paquerar as meninas na sala de aula. Por conta disso, tive um desentendimento com uma professora de português, pois no dia da prova eu passei uma poesia para uma menina e a professora achou que era cola. Ela ficou muito brava e nem olhou o que estava escrito. Tomou minha prova e deu bronca em mim e na menina. Acabou com minha paquera. (risos).
No outro dia, ela veio me pedir desculpa e dizer que tinha gostado muito da minha poesia. Tirou da gaveta um livro de Vinícius de Moraes, e me deu de presente, dizendo que era para eu ter referência no desenvolvimento da minha poética. Devo dizer que esse foi o meu primeiro contato com grandes escritores. O Vinícius se tornou meu grande mestre e exemplo”, relata.
Inspiração: Perguntado em que se inspira para escrever, o poeta respondeu com um poema que está publicado no livro “Andarilho Cultural”: “Minhas crônicas e poesias nascem no meu dia a dia, da paixão, das crianças abandonadas, das famílias que não têm onde morar. Vêm dos campos onde homens e mulheres querem terra para plantar. Vêm do amor pela mulher que me ama e do grande amor que sinto por tudo o que me rodeia.”

Rosa Negra
Minha alma
Encontrou a essência
Uma luz para vida
O caminho para o Amor

A mais bela das flores
Para meu jardim
Que traz vida
E luz para meus poemas
Minha vida
Um encontro com a minha
Alegria de viver

Meu jardim já não é mais o mesmo
Agora há magia
Da minha rosa negra
Negra Luz
Que me trouxe paz
E força para seguir
Por esse mundo
Levando minha experiência
De vida
Saciando minha
Sede de amar

Ibrahim khouri

Alfredo Ibrahim Khouri, 74, é formado em direito. Ele conta que escreve, desde jovem, romances, peças de teatro e monólogos, mas foi a poesia o que mais o afetou. “Eu fazia poesia para uma jovenzinha chamada Nega, que hoje tem 70 anos. Era um amor platônico e eu traduzia todo esse amor em poesia”, conta.
Ibrahim tem uma boa quantidade de rascunhos que dá para editar dois ou três novos livros. São sete as suas obras publicadas: Eu só, você só; Vontade do que não houve; Solidão de vida a dois; Vontade de você; Clarice; Felicidade – um lugar que ficamos; Sob o vaso.
Inspiração: Amores, sentimentos, acontecimentos, um baque que a vida me deu, a folha que cai da árvore lá fora. Não há nada que eu escreva que não tenha vivido. Meus poemas têm vida.
Autores preferidos: Menotti Del Picchia, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meirelles. Considerações:“Lamentavelmente, estamos esquecendo que o hábito da escrita e da leitura deve começar quando se é ainda criança. Entendo que a Secretaria de Cultura deve trabalhar mais em parceria com a Secretaria de Educação no intuito de resgatar e levar a poesia aos pequenos das escolas públicas, com mais intensidade”.
O poeta conta que ao assistir a um quadro do programa “Domingão do Faustão”, TV Globo, no qual um casal encontrou pessoas que receberam órgãos da filha que morreu prematuramente, emocionou-se e escreveu a poesia “Meu póstumo desabafo”, que reproduzimos a seguir.

Meu póstumo desabafo
Partes de mim poderiam não estar neste velório,
dentro deste sarcófago apodrecendo,
as partes nobres desta infeliz matéria,
já beirando o fedor da carne morta,
que ora se esvaem nos últimos momentos.

Poderiam, quem sabe, ouvir o falatório,
e meus olhos poderiam estar vendo as borboletas,
após sugar a flor, ficar aérea.
Meus rins poderiam enriquecer uma outra aorta,
não serem espólios destes vermes peçonhentos
e meu fígado, agora, já funesto,
que por descuido, não é mais que resto,
como os outros, se perdem neste momento.

Meu coração poderia estar batendo
em outro peito,
poderia estar distante da cena de agora
e bem longe deste solo frio que me encerra,
onde parto, bem triste, nesta hora,
quando poderia estar vivo
em outro corpo sobre a terra.

Jane Rossi

Jane Rossi, pernambucana que vive em Guarulhos desde 1979, é graduada em letras – português/inglês, e pós-graduada em educação especial, inclusive com conhecimento em libras. Além de professora, ela é poetisa, antologista, ativista cultural e membro da Academia Guarulhense de Letras.
Jane é criadora dos projetos Mãos que Falam, Poetas da Escola, Lembrança de Criança e o Semente da Paz, que já fez cinco anos, e que incentiva alunos da rede pública a escrever poemas a respeito da Paz e os publica em livros de coletâneas. “Meu caminho na poesia teve início com 14 ou 15 anos; enquanto as garotas da minha idade faziam diários, escrevendo segredos, eu fazia cadernos e mais cadernos com poemas, mas guardava-os para mim e não os mostrava pra ninguém, pois tinha vergonha e insegurança dos meus rabiscos. Em 2004, participei de um concurso de poesia na UNG e entre 900 inscritos eu fiquei no terceiro lugar; esse foi um grande incentivo, mas o maior incentivo era quando meu esposo e minha mãe liam meus poemas e diziam: pode divulgar que está lindo”, relata.
Obras: “Sou autora de dois livros solos: “Amargura tem Cura?”(Editora Shooba) e “Azul Infinito”, pela Futurama. Como antologista, idealizei e organizei a Antologia Alimento da Alma: foram sete volumes com a participação de poetas do Brasil e Portugal. Também participei de várias antologias poéticas”, diz.

Coração de poeta
No coração de poeta, tem alegria e dor
Tem o sonho de criança, esperança e amor
Tem ilusão e magia bailando no mar dos versos
E o som das calmas ondas,
cantando para o Universo
É belo esse coração,
que transforma os sentimentos
Faz a dor virar paixão e acalenta o sofrimento
Abre o elo da corrente e liberta o prisioneiro
Solta as amarras da vida, liberdade em cativeiro
Ele é transformador, é sofrido e é carente
Sonha com o perfeito amor, coração onipotente
Vive de sonho e magia, chora de desilusão
É coração sofredor, que almeja a perfeição
O coração de poeta é como um livro real
Cada página um sonho, com orquestra divinal
É coração colorido, cada hora de uma cor
É coração destemido, cravado de amor e dor.

Imortais

Seria impossível listar neste pequeno espaço todos os nomes dos “imortais” para a poesia brasileira. Contudo, selecionamos e homenageamos alguns nomes que, seguramente, transformaram ou ratificaram poesias e contos como um dos gêneros literários mais ricos e apaixonantes. Além disso, são “artistas da pena” que podem servir de inspiração e guia para quem deseja se aprofundar no mundo da escrita e da literatura.

Memória
(Carlos Drummond de Andrade)
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

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