Por Cris Marques
Fotos: Rafael Silva e arquivo pessoal
Receber o positivo no exame de gravidez, gerar um bebezinho dentro do ventre, ter um bom parto e poder segurar aquela criança nos braços, pela primeira vez, é o sonho de muitas mulheres. Porém, com a gravidez – um período de muitas mudanças, cuidados e fragilidade – também surgem as dúvidas e os medos. E se, para a maioria das mamães, o primeiro trimestre é o mais difícil por ser a fase mais importante para a formação e desenvolvimento do bebê e também a mais crítica para abortos e surgimento de malformações; para outras, a gestação inteira é de extrema atenção. É o caso das mulheres com trombofilia.
Ela explica que, durante a gestação, essa situação é ainda mais perigosa por aumentar o número de abortos espontâneos sem diagnóstico causal conhecido, abortos de repetição, pré-eclâmpsia (hipertensão arterial específica da gravidez), descolamento prematuro de placenta, partos prematuros e até doenças maternas para a mulher, como uma embolia pulmonar – pequenos êmbolos que se deslocam e entopem a circulação pulmonar, levando até ao óbito, pela rapidez de instalação do quadro e sua gravidade. “A gestante que pertence ao grupo de risco, que, além dos fatores familiares, inclui fumantes, obesas e hipertensas, deverá ser acompanhada como pré-natal de alto risco, com participação de um hematologista como consultor do ginecologista, para a realização de exames mais específicos, como a dosagem dos anticorpos antifosfolípides e fatores de coagulação”, pontua.
Gestação saudável
De acordo com Heloisa Helena, é possível, sim, ter uma gravidez saudável mesmo com a condição; basta planejar com carinho, iniciar o mais precocemente o pré-natal com um ginecologista de confiança e tecnicamente competente e, antes de tudo, iniciar uma vida de hábitos saudáveis, sem tabaco nem álcool, com atividades físicas regulares e boa alimentação. “O elemento mais importante e usual do tratamento é manter o ‘sangue mais fininho’, por meio da administração de anticoagulante injetável. Hoje, o mais comum é a heparina de baixo peso molecular, de administração diária e com menor risco de complicações e efeitos colaterais. Seu custo é realmente alto, mas, em alguns locais, é possível conseguir esse medicamento de forma gratuita. Não havendo essa gratuidade e nem condições de custear, também existe a possibilidade de uso da heparina de alto peso molecular, que tem outra forma de administração, com fracionamento de doses”, elucida ela, que admite que a aplicação pode ser desconfortável, mas é segura e aumenta consideravelmente as chances de chegar bem ao final da gravidez e poder curtir o bebezinho no colo.
Símbolo de amor
Mesmo sendo uma gestação de alto risco, que exigiu acompanhamento de perto por uma obstetra, além de hematologista e vascular, Marina teve um parto normal. “Eu queria isso e, além de querer, tinha convicção de que era a opção mais segura. Trombofilia não contraindica o procedimento, só é necessário ter alguns cuidados quanto ao momento de parar o remédio. No Brasil, já é difícil uma mulher sem problemas parir. Imagine nessa condição! Então, não foi tão simples, troquei umas cinco vezes de médico até me sentir segura e busquei muita informação”. Para ela, a trombofilia precisa ser mais divulgada para desmistificar e acalmar as futuras mamães. “Isso pode diminuir o sofrimento de quem perdeu vários filhos até descobrir o problema. Para quem passa por essa situação, eu digo: estude, frequente grupos e leia muito. Assim conseguirá ter segurança em suas decisões. Procure bons profissionais e não deixe o medo de mais uma perda se sobrepor à esperança e à felicidade de estar gerando uma vida. Curta a gestação e tenha orgulho dos roxinhos da injeção, eles são um símbolo do amor pelos nossos filhos”, finaliza.
