Por Cris Marques
Foto: Marcelo Santos
“O handebol é o que eu levei a sério como profissão, mas qualquer outro jogo que você me chamar, eu topo”, diz Millene Figueirêdo, 33 anos, assumidamente uma apaixonada por esportes. Para a entrevista, ela nos recebeu em sua boutique, a Micca Figueirêdo e, em meio a peças de marcas de luxo, mostrou e posou com a tocha olímpica, que carregou pelas ruas de Ribeirão Preto, em junho deste ano. Jogadora por 15 anos, 10 deles na seleção brasileira, ela, que já participou de uma Olimpíada, mais de cinco campeonatos mundiais e carrega diversos títulos paulistas, pan-anamericanos e sul-americanos, conta com emoção sobre sua trajetória nas quadras e o quanto cada ensinamento, tombo ou derrota a preparou para a vida.
Filha de portugueses e caçula de dois irmãos, Millene nasceu e cresceu em Guarulhos, mais precisamente na Vila Galvão. E foi lá que começou a trilhar seus primeiros passos no esporte. “Estudei a vida toda no Colégio Integrado e minha professora de educação física, que jogava handebol pela seleção, sempre me incentivou a treinar. Meus irmãos também jogavam e muito bem. Meu amor pelas atividades era tanto que, nas Olimpíadas Colegiais Guarulhenses, tudo que eu pudesse participar, eu participava. Na edição de 1993, a técnica de Guarulhos me viu jogando handebol pela escola e me chamou para entrar no time”, afirma ela, que era tão nova que nem podia competir ainda, por isso só treinava.
Em 1994, seus irmãos foram participar de um campeonato na Europa, e ela foi junto. “Eram três equipes masculinas, duas técnicas e eu. Foram 30 dias ‘respirando’ handebol e, ali, eu me apaixonei completamente”. Naquele ano, ela começou a jogar por Guarulhos. Depois, em 95, pela seleção paulista e, em 97, pela brasileira. “Levava tudo muito a sério. Se o treino era de quatro horas, eu treinava cinco. Se acabava às 16h, eu arrumava uma goleira e pedia para ficar um pouco mais. Meus resultados e tudo o que eu alcancei foi por um pouco mais de dedicação. Cada um luta com as armas que tem: eu não era a jogadora mais forte, não era a mais alta e nem a mais rápida, mas eu podia ser a mais perspicaz, a mais esforçada”, destaca, sobre sua determinação.
Para Millene, apesar de gratificante e maravilhoso, competir profissionalmente é viver constantemente sob pressão, ainda mais para uma pessoa que se cobra tanto como ela. “Pessoal fala que esporte é saúde, mas esporte de alto nível é o inverso: tenho muitas sequelas até hoje. E mesmo antes, você está sempre no seu limite. A seleção brasileira não é uma seleção fixa, todo campeonato existe uma nova peneira, então você nunca está 100% garantida”, desabafa. Tanto esforço e dedicação a levaram para a Olimpíada de Atenas, em 2004. “As seletivas começaram em janeiro, com mais ou menos 110 meninas. Aquele seria meu último ano na faculdade de administração, mas tranquei minha matrícula, abdiquei da minha família e me dediquei aos treinos. Caiu cabelo, caiu sobrancelha e era um nível de estresse enorme. Felizmente, fiquei entre as 15. Era meu primeiro ano de seleção adulta e eu era a mais nova da equipe, com 21 anos […] Ficamos em 7º lugar, um dos melhores resultados até hoje”.
Em 2007, a jogadora participou de seu último campeonato pela seleção brasileira: o Pan-Americano, do Rio de Janeiro. “Pensei em tudo o que tinha conquistado e encerrei meu ciclo. Depois, já estava formada e precisava começar a trabalhar”, explica ela, que hoje dirige seu próprio negócio na cidade. Para ela, tantos anos de esforço valeram muito a pena e o esporte foi o melhor de seus professores. “Nem se eu vivesse mais 500 anos conseguiria aprender o que aprendi como atleta. Uma atividade como essa faz bem para o corpo, para a mente, para a vida. É um complemento da educação. Meu sonho é que, ao ter um filho, ele pratique algo. Não sei se vou incentivá-lo a ser profissional, mas quero que ele tenha essa experiência, porque ninguém consegue ensinar o que o esporte ensina”, finaliza.
