Entre as várias preocupações de quem tem filhos pequenos ou adolescentes, uma das maiores talvez seja a escolha da instituição de ensino. Em tempos de dificuldades econômicas essa busca pode ser ainda mais desafiadora, já que também é preciso considerar questões financeiras. Dá até para arriscar dizer que ainda deve ter pai e mãe percorrendo escolas cidade afora para encontrar a melhor opção. E entendemos essa apreensão. Afinal, educação é coisa séria e escolher um colégio adequado não é tarefa tão simples, já que envolve muita pesquisa e análise. Sempre pensando em facilitar a vida do nosso leitor, a primeira Weekend de 2017 traz dicas para ajudar os pais nessa importante missão.
O que levar em conta na hora da escolha? Pesquise bastante
Melhor pecar pelo excesso do que pela falta de opção. Não existe número mínimo ou máximo de instituições para visitar, mas vale gastar um pouco de sola de sapato para conhecer o espaço das escolas e os valores oferecidos. Também é recomendado visitar o colégio durante as aulas, pois dessa forma é possível observar de forma mais generalizada como é o funcionamento do lugar. Outra dica é aproveitar a hora da saída ou entrada para conversar com pais de alunos. Por fim, é mais coerente optar por um local que tenha a ver com as crenças e culturas da família. Não faz sentido, por exemplo, matricular o filho em um colégio religioso se ninguém seguir a mesma doutrina.
Informe-se a respeito dos mínimos detalhes
Questione a proposta pedagógica e procure saber se a escola incentiva a solidariedade, o respeito e a ética, entre outros conceitos que ajudam na formação social. Verifique a limpeza do pátio e corredores, principalmente após os intervalos. Aproveite para visitar os banheiros e observar quais são as condições apresentadas. Outro ponto é atentar-se para a qualificação dos profissionais que ali trabalham e pesquisar se a empresa respeita os direitos trabalhistas dos colaboradores.
Horários e comunidade escolar
Também é importante saber quais são os períodos oferecidos e se há horário estendido. Quando pai e a mãe trabalham fora, é essencial questionar sobre o que acontece no caso de atraso para buscar a criança. Isso porque cada escola tem seu método: há desde as que não aceitam atrasos até as que cobram taxas extras pelo tempo a mais que a criança permanece ali. Outro ponto importante é conhecer as características da comunidade escolar (alunos) e as atividades extracurriculares que oferecem, pois isso pode impactar no bolso. Ainda que a mensalidade esteja dentro do orçamento, talvez não seja possível para a criança acompanhar os hábitos dos demais coleguinhas. Se o jovem sentir-se inserido no grupo, terá assuntos semelhantes e poderá frequentar os mesmos lugares que os amigos.
Enfim, a escolha
Os pais precisam ter em mente que a escola será como a segunda casa para a criança, na qual ela passará muitas horas e a maior parte de sua socialização acontecerá lá. Apesar do peso dessa decisão, a psicopedagoga Anita Lilian Zuppo Abed afirma que errar faz parte do processo. “Escola a gente troca; o filho, não. O ser humano é muito complexo, então os pais não precisam se sentir culpados se a escolha não foi boa. Não dá para ter certeza, não é uma equação matemática. Então, fique atento e sensível e tente fazer o seu melhor”. Além disso, ainda existe a opção de uma consulta com um psicopedagogo que pode avaliar melhor a criança e indicar algumas instituições. “Para uma escolha inicial não vejo tanta necessidade, mas se a criança começa a não gostar da aula, ir mal ou tirar nota baixa, é recomendado. O profissional pode ajudar a família a entender o que está acontecendo e, se for o caso, indicar uma troca de colégio”, finaliza.
Sabe como funcionam as metodologias de ensino?
Um critério fundamental e que pode facilitar na hora da escolha é conhecer a linha pedagógica oferecida pela instituição. Por meio dela é possível entender o que o colégio usa como base para seu ensino e como lida com a individualidade da criança.
Construtivista
A proposta foi criada a partir das ideias de Jean Piaget, Lev Vygotsky e Henri Wallon e procura instigar a curiosidade, pois o aluno é levado a encontrar as respostas a partir de seus próprios conhecimentos e de sua interação com a realidade e com os colegas. Emilia Ferrero, aluna de Piaget, ampliou a teoria para o campo da leitura e da escrita e concluiu que a criança pode se alfabetizar sozinha, desde que esteja em ambiente que estimule o contato com letras e textos. O construtivismo não considera o erro um tropeço, mas uma oportunidade. A teoria condena a rigidez nos procedimentos de ensino, as avaliações padronizadas e a utilização de material didático demasiadamente estranho ao universo pessoal do aluno.
Tradicional
O objetivo principal deste método era universalizar o acesso do indivíduo ao conhecimento. Com seu modelo firmado e certa resistência em aceitar inovações, nas décadas de 1960 e 1970 foi considerado ultrapassado. As escolas que adotam a linha tradicional acreditam que a formação de um aluno crítico e criativo depende justamente da bagagem de informação adquirida e do domínio dos conhecimentos consolidados. As avaliações são periódicas, por meio de provas, e medem a quantidade de informação que o aluno conseguiu absorver. São escolas que preparam seus alunos para o vestibular desde o início do currículo escolar e enfatizam que não há como formar um aluno questionador sem uma base sólida, rígida e normativa de informação.
Montessoriana
Criada pela pedagoga italiana Maria Montessori, a linha montessoriana valoriza a educação pelos sentidos e pelo movimento, para estimular a concentração e as percepções sensório-motoras da criança. O método parte da ideia de que a criança é dotada de infinitas potencialidades. Individualidade, atividade e liberdade do aluno são as bases da teoria, com ênfase para o conceito de indivíduo como sujeito e objeto do ensino, simultaneamente. Maria Montessori acreditava que nem a educação nem a vida deveriam se limitar às conquistas materiais. Os objetivos individuais mais importantes seriam: encontrar um lugar no mundo, desenvolver um trabalho gratificante e nutrir paz e densidade interiores para ter a capacidade de amar. As escolas montessorianas incentivam seus alunos a desenvolver um senso de responsabilidade pelo próprio aprendizado e a adquirir autoconfiança.
Waldorf
Presente no mundo inteiro, essa norma foi criada em 1919, na Alemanha. Seu ensino teórico é sempre acompanhado pelo prático, com grande enfoque nas atividades corporais, artísticas e artesanais, de acordo com a idade dos estudantes. O foco principal da pedagogia Waldorf é o de desenvolver seres humanos capazes de darem sentido e direção às suas vidas. Tanto o aprimoramento cognitivo como o amadurecimento emocional e a capacidade volitiva recebem igual atenção no dia a dia da escola. Nessa concepção, a ideia é que a turma seja acompanhada por um mesmo professor durante vários anos e que cada um aprenda de uma forma mais lúdica e de acordo com seu ritmo intelectual, cultivando a ciência, a arte e os valores morais e espirituais necessários ao ser humano.
Quatro grandes desafios da educação em 2017
Muito tem se falado sobre as mudanças na educação e, de fato, as constantes transformações no mundo têm impacto na área do ensino. Basta olhar ao redor e observar novas tecnologias, serviços, produtos e os meios de comunicação. Muita coisa mudou e, obviamente, as pessoas e a sociedade como um todo não só são agentes desse processo de mudanças, como também são mudadas por essas ferramentas. Para Sandra Garcia, diretora pedagógica da Mind Lab, a educação, no Brasil e em outros países, tem como dever acompanhar esse ritmo de desenvolvimento, quebrando padrões e enfrentando novos desafios para que cada vez mais as escolas consigam proporcionar um ensino adequado e de qualidade. Veja alguns dos principais desafios listados por Sandra:
Trabalhar a educação colaborativa nas escolas
O termo “colaborativo” se tornou tendência mundial. Muitos produtos e serviços são lançados no mercado com a necessidade de receberem contribuições de usuários para um aprimoramento constante. Foi assim que ocorreu, por exemplo, com o Waze, aplicativo de gps que requer a interação dos usuários para proporcionar uma ótima experiência a eles. A área da educação também necessita do “colaborativo”; afinal, educação se faz em parceria e a escola e a família têm que andar juntas. O desafio é conscientizar os pais e responsáveis de que eles devem atuar junto à escola e aos professores no processo de formação dos filhos.
Desenvolver o senso crítico dos alunos
O jovem de hoje, mais do que nunca, está atento às questões de educação, política e cultura, entre outros tantos temas que fazem parte da sociedade. Com isso, é necessário que ele esteja preparado para ser envolvido no processo decisório e ter voz ativa em situações de interesse. Essa preparação está diretamente ligada ao desenvolvimento do senso crítico dos alunos desde cedo, na sala de aula. Se realizada de maneira efetiva, a educação terá uma força maior do que qualquer outra coisa para gerar cidadãos empoderados, reflexivos, engajados e hábeis, capazes de traçar o caminho para um planeta mais seguro, ecológico e justo para todos.
Utilizar evidências a favor do desenvolvimento
Um dos maiores desafios das escolas é saber utilizar dados a favor do desenvolvimento de seus alunos. Ter uma gestão baseada em evidências é fundamental para compor o processo de ensino como algo que integra, e não que pune. As evidências fazem com que os professores consigam entender o que está funcionando em termos de formato de ensino-aprendizagem e quais são os principais pontos de atenção na formação dos alunos. Quando a escola trabalha analisando resultados frequentemente, consegue fazer revisões rápidas no currículo e desenvolver uma capacitação focada em habilidades essenciais para o aprendizado dos alunos. Contudo, muitas escolas ainda não adotam esse tipo de gestão devido à falta de recursos humanos para acompanhar os diagnósticos.
Trabalhar habilidades socioemocionais
O tema “desenvolvimento das habilidades socioemocionais” vem sendo bastante discutido no mundo da educação e, inclusive, está entre os tópicos abordados no Relatório de monitoramento global da educação da UNESCO de 2016. As habilidades e competências promovidas por uma educação geral e abrangente, tais como pensamento crítico, resolução de problemas, trabalho em equipe, alfabetização efetiva e habilidades de comunicação e apresentação, provavelmente serão mais do que nunca valorizadas no mercado de trabalho.
É extremamente importante, portanto, o desenvolvimento de um conjunto de habilidades básicas e transferíveis para a empregabilidade no futuro. O desafio dos sistemas educacionais é como transmiti-las aos alunos da melhor forma possível. Mesmo que o trabalho com as habilidades socioemocionais ainda não esteja formalmente na grade curricular, as escolas precisam se adaptar a esta demanda do mercado e capacitar seus alunos para o futuro que lhes aguarda e garantir que eles adquiram capacidades necessárias para viver, conviver e trabalhar.
