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Receio o que está por vir no Brasil

Como ultimamente os ânimos estão acirrados e um lado não aceita opiniões contrárias, e vice-versa, tenho evitado entrar em temas políticos e polêmicos, já que, por mais equilibrado e lúcido que possa ser meu comentário, sempre haverá os que irão tachar-me disso e daquilo… E não mais em idade de ler e ouvir desaforos.
Porém, o País está tomando um rumo que está me deixando preocupado. Talvez eu nunca tenha torcido tanto para estar errado em uma previsão. Tomara mesmo que eu esteja totalmente errado.
Eu era uma criança quando os militares tomaram o poder em 1964. Vivi minha adolescência sabendo de relatos de pessoas desaparecidas, torturadas, exiladas. Cheguei à idade adulta sabendo de obras artísticas censuradas, vendo jornais publicando receitas em lugar de notícias. Emocionei-me participando de todas as manifestações pelas Diretas-Já. Fui delegado sindical, ajudei a promover greves, fiz piquetes, tive amizades com colegas do Banco do Brasil abaladas em decorrência dessa militância.
Em 1994, fui candidato a deputado federal, concorrendo com o presidente do Sindicato dos Bancários e pude sentir o quanto era safado o time que comandava a entidade, usada sem nenhum escrúpulo em favor da candidatura de Gilmar Carneiro, que felizmente não se elegeu e encerrou ali sua malfadada carreira política. Com uma campanha paupérrima, disputando com gente muito forte financeiramente, tive parcos 5.820 votos e, criando juízo, nunca mais quis saber de política eleitoral. Mas, pelo exercício da profissão de jornalista, nunca deixei de acompanhar o que acontece na política local e nacional.
Sem entrar no mérito das acusações que pesam sobre governos tucanos e petistas, da derrubada de Dilma, da ascensão de Temer (que jamais teve meu voto), fico apreensivo ao ver ônibus sendo incendiados, imóveis públicos e privados depredados, bem como as trocas de ofensas entre os que pensam de um jeito e os que se opõem a essas opiniões.
Defendo com todas as letras o direito de manifestação, mas abomino a violência, qualquer que seja a causa que esteja sendo defendida. Não admito, sob nenhum pretexto, que manifestantes tomem as chaves de veículos que estivessem trafegando em avenidas ou estradas, como vimos acontecer no dia 28 de abril. Reprovo, com veemência, que seja impedido o acesso a aeroportos, portos, rodovias. Meu direito não pode sobrepujar o seu direito.
Se as reformas pretendidas pelo governo federal são mais danosas aos trabalhadores do que eles se deram conta, não é obrigando-os a não comparecer a seus empregos que eles irão conscientizar-se de alguma coisa. Toda violência é crime!
Por outro lado, as decisões que vêm sendo tomadas por tribunais estão passando para a opinião pública a sensação de que o crime compensa, de que não dá para confiar na Justiça, de que as instituições estão apodrecidas.
Enquanto isso, o crime organizado ganha musculatura e impõe sua vontade, contando, inclusive, com apoio popular.
Meu temor é que isso tudo ganhe corpo de tal forma que, quando menos se esperar, o Brasil esteja vivendo uma guerra civil, se é que já não se possa dar esse título ao que vem ocorrendo.
Se as manifestações continuarem a incluir atos criminosos, se manifestantes que defendem posições opostas permitirem que aumentem as tensões e agressões mútuas, se o crime organizado ampliar ainda mais seus tentáculos, e o poder civil não tiver capacidade para impor o império da lei, os militares não ficarão inertes. Engana-se quem pensa que eles estão quietos nos quartéis. Pode ser minoria, ínfima até, mas não duvido que, em nome da governabilidade, cresça entre eles a disposição de voltar a dirigir o País. Ouço cada vez mais pessoas defendendo que isso aconteça, e, com significado parecido com isso, pesquisas começam a apontar que um celerado como Bolsonaro pode ter chance de chegar à Presidência.
Eu não desejo isso, torço para estar errado, porque as consequências de um retrocesso no regime democrático são imprevisíveis. Que a Lei prevaleça, que os ânimos serenem, e que os brasileiros tenham capacidade de defender seus posicionamentos e direitos de forma ordeira. Não estou defendendo nem atacando nenhum partido, pois creio que em todos eles há pessoas de bem e também inescrupulosos. Apesar da imensa crise que o país vem atravessando, enxergo uma mínima reação nos negócios, supermercados cheios, shoppings lotados no feriado. Ou seja, a economia pode voltar aos trilhos. Torço por um Brasil democrático, no qual haja oportunidades para todos, onde a economia seja pujante, onde a educação seja prioridade, onde o emprego seja pleno.
Porém, vendo como os fatos têm se desenrolado, esse sonho me parece cada vez mais distante. Tem gente brincando com fogo. E quem brinca com fogo pode levar o Brasil a um caminho muito doloroso.

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