A guarulhense Francislene Assis de Almeida Corrêa, esposa do deputado federal Eli Corrêa Filho, vem tendo seu nome divulgado em diversas reportagens na grande mídia, devido aos altos valores das desapropriações de áreas de sua família para construção do Rodoanel. Muitos outros proprietários recorreram à Justiça contra o valor proposto pela Dersa e alguns já ganharam, mas, como Eli foi candidato a prefeito de Guarulhos, é natural que a imprensa tenha colocado os holofotes sobre ele e sua família.
Ela concordou em falar à Weekend para esclarecer o tamanho desses terrenos, os valores a eles atribuídos pela Dersa e como se deu o processo no qual a família questionou a avaliação, obteve ganho de causa, sacou parte da indenização e, a partir daí, travou-se um vai e vem de sentenças judiciais. Francislene tem se irritado com a exposição na mídia, porque, mesmo obtendo direito de resposta, como aconteceu na TV Bandeirantes, sempre fica a impressão, perante a opinião pública, de que houve superfaturamento ou algum tipo de corrupção, o que ela nega com veemência.
Filha do falecido advogado Francisco Assis de Almeida, ela é herdeira junto com um irmão e dois sobrinhos, filhos da irmã Francis, que morreu muito jovem. A família tem centenas de propriedades.
Indago sobre o imóvel que gerou toda essa polêmica: ela responde que é de mais de 200 mil metros quadrados e pertence a uma pessoa jurídica da família; porém, há outros terrenos também desapropriados pela Dersa para construção do Rodoanel que são das pessoas físicas.
Fran, como é conhecida, informa que a Dersa ofereceu R$ 40 pelo metro quadrado dessa área. Segundo ela, antes da desapropriação, a TAM havia proposto comprar, pagando R$ 350 o m2. E a família tinha um projeto pronto para implantar no local um loteamento com mais de 3 mil lotes, plano que teve de ser abandonado devido à obra.
Ela esclarece que, além da divergência quanto ao preço de cada metro de terreno, o que gerou maior discordância foram as áreas encravadas, ou seja, aquelas que ficaram inservíveis com a passagem da rodovia, as quais a Dersa não havia considerado na desapropriação. “Não dá para fazer mais nada no terreno que sobrou de cada lado”, argumenta.
Quanto à avaliação que deu origem ao saque de R$ 31 milhões, depois contestado, ela explica que é o juiz quem nomeia o perito, não a parte interessada: “O que nós contratamos valorizou a área em muito mais do que o judicial”, comenta. Questionada se é usual o proprietário requerer levantamento da indenização antes de encerrado o processo, respondeu que sim e que havia o entendimento de que estava concluído: “Havia o despacho favorável na ação; o erro foi que não estava publicado ainda, mas esse é um detalhe formal, não tem nada de irregular ou desonesto nisso. E agora recente um caso de outra pessoa obteve vitória em instância superior e o valor por metro foi o maior que o de nossa área”, informa. Acrescenta que o cunhado, pai de seus sobrinhos, não admite praticar nenhum ato que não seja absolutamente legal. “Nem que eu quisesse agir contra a lei, ele jamais concordaria”, garante.
Francislene diz que, quando esse saque virou notícia, o mesmo juiz que autorizou o levantamento determinou a devolução. Como já fazia tempo, os herdeiros haviam investido o valor em outros imóveis. Perguntada se a parte dela foi investida na construção do imóvel que foi alugado para a Caixa, na esquina da avenida Salgado Filho, responde categoricamente que a propriedade ali nada tem a ver com sua família. Comenta que até ofereceu à Caixa um imóvel que adquiriu na avenida Paulo Faccini, onde era o restaurante Choupana, mas que a instituição já havia escolhido o local onde foi instalada a nova agência. Explico que os rumores de que o prédio seria dela se devem ao fato de ser casada com um deputado federal e que ele pudesse ter influído para a locação. Ela responde que jamais pediria que ele intercedesse nesse sentido, porque sabe que ele se negaria, “por que ele entende que o mandato parlamentar não pode servir para interesses pessoais”.
Questiono sobre outra área também desapropriada pelo Rodoanel, cujo valor seria ainda maior. Fran diz que, de fato, há outros terrenos menores e outro maior, pelo qual a Dersa ofereceu R$ 13 milhões, e, movida a ação judicial, a avaliação do perito foi de R$ 70 milhões.
Pergunto, por fim, sobre a decisão judicial recente que determinou devolução de R$ 40 milhões, os quais ela alegou, em reportagem exibida pela TV Band, que já havia devolvido. O advogado José Gonçalves Ribeiro expõe a petição a que deu entrada há 4 meses, na qual solicita que os bens e valores de Francislene sejam tornados disponíveis. Ele explica que, para isso, a requerente oferece em garantia bens e valores que superam em muito o que foi sacado. Quase R$ 10 milhões, foram depositados em moeda corrente; outros R$ 13 milhões referem-se à própria avaliação da Dersa para a outra área, que já ficariam retidos; os demais valores seriam a parte não sacada da avaliação de R$ 37 milhões e outros percentuais dizem respeito aos honorários que foram sacados pelos advogados e, que, portanto não caberia à família devolver.
E agora, de quê depende o desfecho do caso? Francislene informa que uma nova perícia foi determinada: “Eu nem entendo por que, se vários peritos já chegaram a valores próximos, mas decisão judicial a gente cumpre, não discute. Vamos aguardar, estamos na expectativa. Espero que isso seja resolvido logo, porque nossa atividade é ligada a negócios com imóveis e estamos sendo muito prejudicados, sem falar na questão moral, porque é muito desagradável ser apontada como desonesta. Nunca fiz, nem faria nada ilegal. Buscar um direito todos podem. Dezenas de famílias fizeram o mesmo. Não é justo que só eu, por ser casada com o Eli, sofra esse desgaste. Pior é que também atinge outras pessoas da minha família que não têm nenhum envolvimento político. Estou em paz com minha consciência e por isso concordei em dar esta entrevista, fazer este desabafo”, conclui.
