Por Jônatas Ferreira
O líder do governo na Câmara Municipal, Eduardo Carneiro (PSB), recebeu a Reportagem do Click Guarulhos na manhã nublada desta terça-feira, 3, para comentar sobre o caso que envolveu seu nome nas duras críticas proferidas pelo vice-prefeito Alexandre Zeitune, na sexta-feira, 29, ocasião em que o também ex-secretário da pasta de Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secel), deixou o cargo.
Cordial e sempre muito direto, Carneiro contou a sua versão do imbróglio que se estende desde o início do mandato, junto ao então secretário da Secel, Zeitune. O caso em questão é o que envolve as 16 crianças com necessidades especiais, que deixaram de ser atendidas na escola São Judas porque a Prefeitura cortou o convênio com a instituição.
O contrato foi feito ainda na gestão anterior, quando as mães conseguiram o direito na Justiça para o atendimento. O valor do acordo era de cerca de R$ 1 milhão anual.
O caso foi levado à Câmara dos Vereadores pela oposição. Por ser tratar de uma questão de Saúde, Carneiro, que também é médico, disse na Tribuna que intermediaria a demanda. Isso ocorreu em fevereiro deste ano.
Carneiro procurou Zeitune e questionou o porquê do corte. Segundo informou o vice, o valor era alto e a ideia era fornecer um serviço próprio da Prefeitura que pudesse não só atender as 16 crianças, mas também outras em situações semelhantes. “Naquele momento fomos convencidos de que a ideia do secretário era perfeita. Não dar atendimento a apenas 16, mas 160, 260 crianças, e ter um serviço próprio, é ótimo. Passado três meses, essas mães me procuraram acompanhadas da imprensa. Nós ouvimos elas, algumas chorosas e outras revoltadas. O que foi prometido na reunião não aconteceu”.
Segundo Carneiro, as mães disseram que as escolas escolhidas pela rede municipal, EM Betinho e Tia Anástacia, não estavam em condições de atender as crianças, algumas até com síndromes raras. “São crianças que precisam de atendimento de acordo com a patologia delas”, pontuou. “Eu me comprometi com as mães e com o jornalista que em 10 dias eu visitaria a escola conveniada e as da Prefeitura, além de conversar com o vice”.
O parlamentar fez a vistoria na escola Tia Anastácia, no Jardim Pinhal, e deparou-se com uma situação complicada: sala sem piso, parede apenas no reboque e outras situações consideradas incoerentes. Era uma diferença evidente em comparação com a escola São Judas. “Eu conversei com a diretora da São Judas sobre como seria se eventualmente o contrato fosse negociado devido ao alto valor. Ela respondeu que sempre procurou conversar com a administração pública, mas o secretário disse que não queria papo”.
“Procurei Zeitune, e disse que a ideia dele era perfeita, mas o modo como estava sendo aplicado estava errado”, continuou o parlamentar. “Falei que tinha visitado a escola São Judas e depois a Tia Anastácia e a diferença era gritante. Expliquei que ter um espaço próprio para esse serviço era uma ideia perfeita, mas teria de ter uma transição. Enquanto não tivesse um local adequado para atender aquelas crianças, obviamente teríamos de continuar com aquele convênio. E o secretário chegou a dizer que ficaria muito ruim, politicamente falando, retroceder. Eu tentei sensibilizá-lo quanto à situação. Mas ele foi irredutível”, explicou.
A reportagem que procurou Carneiro na época foi a Folha do Ponto. O líder do governo respondeu que o poder público ainda não estava preparado para atender os 16 alunos com necessidades especiais. A matéria foi publicada na edição 410, do dia 14 de setembro de 2017. A partir daí, a relação entre Carneiro e Zeitune ficou estremecida.
Zeitune ligou para Carneiro. O vice disse que como líder do governo, o parlamentar não poderia ir contra uma decisão tomada pela administração. “Eu respondi que o cargo é de confiança do prefeito. No dia que ele não achar que não deve mais contar com meu trabalho, ele muda. E disse que eu não poderia me furtar de dar a minha opinião e independente de ser vereador eu sou médico e achava que ele estava errado e deveria voltar atrás. Ele estava sendo insensível, pois a situação era séria. Agora, eu me manifestei porque um jornalista me perguntou. E eu não vou defender coisa errada. Até porque acho que tenho a função, como líder do governo, de alertar o que não está indo bem e não ficar dando tapinha nas costas”, relatou Carneiro. “Obviamente isso gera um desgaste. Mas não foi como eu ouvi hoje: ‘Marketing político’. Isso é um tremendo de um desrespeito com um médico que tem 30 anos de história nessa cidade. Chame as mães. Sinta a situação dessas crianças. Eu acho um pouco de insensibilidade um gestor público não reconhecer que o caminho que ele estava tomando era incorreto. A relação ficou estremecida. Mas eu deixei claro que era meu posicionamento e se houvesse outro caso semelhante, eu não vou defender coisa errada”.
Carneiro pediu para Zeitune fazer uma transição lenta e gradual. Como casos especiais, as crianças precisam se adaptar com o local – adequado –, ambiente e professores. Duas mães, inclusive, ganharam na Justiça, novamente, o direito do serviço, trazendo ônus aos cofres públicos. “Falar que isso derrubou ele? Óbvio que não. Quando alguém cai, cai por uma sequência de fatos. O prefeito deixou claro que foi por questões políticas. Zeitune saiu atirando para todos os lados. Agora, se eu for analisar o comportamento dele de sexta e de hoje, são completamente diferentes. Antes era uma quadrilha, agora são forças ocultas. Não cita nome. E fala que eu fiz marketing político em cima das necessidades de crianças? O que eu sinto dele hoje é um tremendo de um arrependimento. É um direito dele, mas ele deveria ter pensado”, pontuou.
Carneiro relatou que a situação das 16 crianças já está sendo tratada junto com a nova secretária e com a secretaria de Justiça. O comprometimento de Guti é voltar o convênio com a escola São Judas, enquanto as obras para o serviço próprio da rede municipal estiverem sendo executadas. “Eu deixei claro para as mães que se trata de uma transição. Depois de concluída as obras, será feito uma readaptação. Elas concordaram”. Segundo Carneiro, há uma semana colocaram piso, o que ele considera um absurdo. “Uma parte o secretário já estava fazendo. Mas repito: eu concordei com o modelo, mas não com a transição”.
Segundo o que a diretora da escola São Judas disse para Carneiro, a profissional foi maltratada por Zeitune quando o procurou acompanhada de um vereador. “Não teve um jogo de cintura para tentar coordenar essa situação. Faltou diálogo”.
“Parece que a mágoa que ele carrega por mim é pelo meu posicionamento, mesmo que esteja escancarado que ele esteva errado. Faltou sensibilidade”, disse.
Sobre a tensa coletiva de sexta
Aproveitei o momento para questionar o parlamentar sobre o que ele achou das ações de Zeitune na sexta-feira. O líder do governo disse que o vice mostrou-se destemperado e, consequentemente, para um cargo público, despreparado. “Pra quem é vice prefeito sair disparando que havia uma quadrilha e que ela queria voltar, que o governo Guti está abraçando essa quadrilha (…) e hoje vir com uma conversa totalmente diferente, um posicionamento abstrato… Fala nome e prova. Até porque ele é advogado e provar faz parte da profissão”, pontuou.
Indagado sobre a imagem do governo, Carneiro disse que não, afinal, Guti sempre sinalizou que quem não fosse na cartilha do programa do prefeito, desse resultado ou qualquer outro motivo, sairia. Para Carneiro, o problema não foi só de política, como dito por Guti em sua coletiva, mas de resultado. “Por exemplo, os 26% de orçamento que nós devemos cumprir. É um problema sério resolver isso em três meses. Além disso, tem algumas situações com instituições conveniadas, problema com merenda… O impacto da decisão parece sempre desgastante. Mas a decisão do prefeito mostra que ele sabe o que quer. Ele está seguro e não tem medo de tomar decisão, mesmo que seja contra o seu vice-prefeito”, finalizou Eduardo Carneiro.
