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Uma cidade que não acredita em seu futebol?

Por Jônatas Ferreira
Fotos: Rafael Almeida, divulgação e arquivo pessoal

Guarulhos não é muito diferente do resto do Brasil quando se trata de futebol. Apaixonados, os moradores desta cidade têm nas peladas de ruas, nos times dos bairros, no jogo da firma, na brincadeira da escola, um meio de expor o amor por esse esporte que tanto envolve a nós, brasileiros, seja com a bola no pé ou na vibração da torcida.

A cidade, no entanto, sofre com a falta de representatividade nacional de seus times. Não por incapacidade, pois aqui surgem grandes craques, mas por falta de políticas públicas que incentivem e deem mais valor a esse esporte consagrado no País e que, em meio a conquistas e tristezas, arranca sorrisos – e também lágrimas – de quem o acompanha.
Longe dos holofotes da grande mídia, os pequenos times da cidade lutam pela sua sobrevivência com o pouco apoio do poder público e com a pequena verba que conseguem após muito esforço empregado, quando conseguem.

Em conversa com representantes dos principais clubes da cidade, nota-se que falta o apoio em conjunto da população – que passa de 1,3 milhão de habitantes –, empresários e governo. Diferente do que ocorre em cidades menores de São Paulo, como Barueri, Campinas, Itu, São Caetano e outros, é notório que, por mais que os clubes daqui tenham tradição, não recebem os olhares fraternos de uma torcida do tamanho que deveria, digna da segunda maior cidade do Estado.

Flamengo, 64 anos de história

É assim com Edson Alves David Filho, presidente da Associação Atlética Flamengo, o Flamenguinho, que tem 64 anos de fundação. A história de seu pai, o ex-vereador Edson David, é bastante ligada ao clube. Time tradicional na cidade e que já conseguiu alcançar grandes feitos mesmo com os poucos recursos de que dispõe, hoje amarga uma fase difícil, que levou o time a disputar, neste ano, a quarta divisão do Paulistão, competição na qual foi rebaixado em 2017, sendo essa uma das piores campanhas do clube.

Segundo explicou Edson Filho, a grande dificuldade do time é a falta de apoio do poder público. Mesmo com a liberação para uso do estádio Antônio Soares de Oliveira, o ninho do Corvo, é necessário haver maior aproximação da administração municipal com o time. “Nesse novo governo, tivemos apoio no ano passado, maior até da que tivemos nos últimos 16 anos”, conta. “Mas ainda assim não é o bastante”.

Para manter o clube na série A3 do Paulistão foi necessário um investimento de cerca de R$ 65 mil por mês, que envolve salário de jogadores e demais gastos durante a competição. Fora os R$ 20 mil para manter a estrutura do estádio. Esses custos incluem corte de grama, água, luz e demais necessidades do complexo.

Se não for por meio dos patrocínios, a única maneira de conseguir arrecadar os valores citados acima é com a venda de jogadores. O que, automaticamente, desfalca o time para as próximas temporadas, pois, os que podem oferecer uma maior oportunidade financeira para o clube são aqueles que têm maior destaque durante a competição.

Outro problema também é que o time não consegue manter seus atletas por um ano, apenas durante a temporada. “Isso faz com que a gente entre nas competições sempre com um time novo, que não se conhece. Não conseguimos formar uma equipe e trabalhar em cima dela. Se ela alcançou ótimos resultados durante a competição, será desfeita. No fim do ano, monta outra. É uma verdadeira loteria, onde a gente faz apostas todos os anos”, desabafa.

Edson David Filho conta que se forem manter os jogadores durante todo o período de preparação para a próxima temporada, a cifra do clube não fecha. “Já coloquei dinheiro do meu bolso, mas não posso fazer loucura”.

Além do mais, no fim de cada ano, o Flamengo desembolsa cerca de R$ 30 mil com papelada exigida pelo Corpo de Bombeiros para renovar o Auto de Vistoria. No entanto, em 2017 foi um pouco diferente: Edson revela que obteve ajuda de parceiros que vieram por meio do apoio do prefeito Guti ao time; caso contrário, enfrentaria maiores dificuldades no início da competição. “Quem vê o futebol acha que é fácil tocar”, pontua.

A.D. Guarulhos tem 54 anos

Semelhante situação relata Ricardo Agea, presidente da AD Guarulhos, time que tem 54 anos de existência e que também disputa a quarta divisão do Paulistão. Para ele, o clube só não está melhor porque lhe falta estrutura necessária, como um estádio próprio. Além do mais, relata as mesmas dificuldades em conseguir verba necessária para o ano. Tal e qual o Flamengo, o clube que leva o nome da cidade não consegue manter os jogadores por mais de uma temporada. “Termina, eles vão embora. Sem patrocínio, não tem como segurá-los aqui”, explica Agea, que segundo afirma, por diversas vezes, chega a tirar dinheiro do próprio bolso. Parte da história do clube, que teve origem no Vila das Palmeiras, foi contada na produção “Vai, Guarulhos – O Filme”.

A aposta do Flamengo e do Guarulhos é formar uma categoria de base estruturada, a fim de revelar novos nomes que venham a se tornar craques no Brasil, como o atacante Henrique Dourado, que nasceu na base do Guarulhos e profissionalizou-se no Flamengo. Isso pode, em algum momento, trazer um retorno financeiro ao time, que fará com que eles fiquem autossustentáveis, e possam, enfim, garantir um time por todo o ano. Sonhos distantes ou não tão distantes assim.

Ricardo Agea enfrenta oposição da Força Jovem A.D., que critica sua forma de administrar: seus membros chamam-no de ditador e contestam algumas das conquistas que ele apregoa.

Os rapazes preferiam manifestar-se coletivamente, mas a RG exigiu que alguém se identificasse. Um dos porta-vozes, Raphael Balco, afirma que o grupo acompanha o time há mais de dez anos, junto com amigos criou a fanpage da A.D. no Facebook e acusa Agea de tê-los bloqueado da página. “Ele diz que fez muito pelo clube, que equilibrou as finanças, reclama que não tem apoio, mas o fato é que o AD continua sem estádio, sem centro de treinamento, sem sede, sem site. E não nos aceita como sócios, mesmo sendo um clube privado; não nos dá o direito de opinar, de participar das decisões. O clube é uma caixa-preta. Quem vai querer patrocinar, se não há transparência?”.
Consultado, Ricardo Agea diz que no início deu toda abertura à participação da Força Jovem. “Eles sempre foram voluntários na página, são membros da torcida; nunca fizeram parte do clube! Eu os convidei, mas eles preferiram ficar como torcida. Apoiei quando resolveram criar a fanpage, investi recursos para isso e desde o começo fui o administrador. Mas, como era uma página do clube, preferi excluí-los como administradores por se posicionarem contra a direção. Minha diretoria e meu conselho me apoiam. Não tem caixa preta! Tem, sim, muita seriedade em minha gestão, gostem eles ou não! E temos patrocínio, sim! Como tivemos no ano passado e na Copa São Paulo. Todos os clubes estão em dificuldades, mas estamos caminhando bem, pois hoje não temos dívidas; isso já é algo positivo!”, disse.

A várzea da cidade também tem tradição

Na várzea de Guarulhos, não são poucos os que esticam os meiões no fim de semana. Muitos times amadores da cidade carregam o futebol-raiz nos gramados com afinco, fidelizando a torcida e garantindo a diversão de todos. Enfrentam as mesmas dificuldades da falta de incentivo ao esporte amador do município, mas não largam a paixão religiosamente cumprida, seja em campo ou na torcida. Afinal, independente de tudo, o objetivo é um só: ver a bola rolar em campo.

Fundado em 1949 por quatro amigos da região da Vila Galvão e redondezas, o Vasco da Gama da Vila Galvão é um desses times que reúnem os apaixonados pelo futebol de várzea. Começou na brincadeira, com espaço cedido por empréstimo para instalação do campo de futebol, localizado na avenida Pedro de Souza Lopes, 1520. A coisa ficou tão séria, que posteriormente, o mesmo lugar foi doado em definitivo para o clube.

De lá pra cá, o Vasco da Vila Galvão conquistou diversos títulos amadores: Divisão Especial de Guarulhos, Campeão Copa São Paulo – Dente Leite, Copa Mazola e por aí vai. O time principal é o segundo maior vencedor de Guarulhos, com 8 títulos, ficando atrás somente do Flamengo – quando disputava na várzea – que tem 9 títulos. “São 69 anos. Manter o nome do Vasco no cenário do futebol amador, manter as categorias de base em pleno vapor, com intuito de tirar as crianças da rua, revelar talentos e transformá-los em homens dignos são os maiores desafios do clube”, conta Genival Elias de Araújo, de 55 anos. “Temos representado Guarulhos nas copas mais importantes de São Paulo”, completa.
E não é porque é amador, que o time não tem planos. Muito pelo contrário, segundo seu dirigente, a ideia é gramar o campo, reconstruir uma nova guarda, e dar sequência à obra da sede social. “Nosso patrimônio é uma área de 14 mil metros quadrados”. No momento, disputa a Copa do Busão de Osasco, a qual tem como premiação um ônibus.

Com orgulho, Genival diz que Paulinho, que jogou pelo Flamengo do Rio, Santos, Vitória e Guarani, começou nos campos do Vasco guarulhense. “Paulinho nasceu praticamente no campo do Vasco, morava na frente do portão principal do nosso time. Desde criança frequentava nossa praça de esporte. Iniciou na base, não demorou para passar para a equipe oficial, tendo muito destaque nos principais campeonatos de Guarulhos. Em 2007, foi convidado a jogar a Copa São Paulo pelo Flamengo da cidade. Foi muito bem e já ingressou no time profissional. Foi campeão, alcançando a seria A2 do Paulista. Daqui foi para o Corinthians e na sequência emprestado ao XV de Piracicaba, onde foi muito bem, também obtendo títulos. Depois, foi para o Flamengo e fez história”, conta, saudoso.
Por jogo, o Vasco desembolsa em torno de R$ 2.500. Atualmente, o time disputa quatro partidas por mês. A arrecadação para esses custos vem da praça de esportes do time, com locação do campo, estacionamento e lava-rápido. Com relação ao apoio da Prefeitura: zero. “Tudo que construímos foi com esforço próprio”.

A respeito dos times profissionais da cidade, Genival é direto: “Torço por eles, mas pecam em não usar um monte de revelações que temos em Guarulhos. Mas parte da culpa também é a falta de apoio do poder público e do empresariado da cidade”, finaliza.

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