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Desabafo: milhares de brasileiros ainda irão morrer de covid, pois estão matando uns aos outros

Escrevo na primeira pessoa porque este é um desabafo pessoal. Estou emitindo uma opinião, o que me permite não precisar ser imparcial nesta análise, diferente do que sempre procuro ser no exercício do Jornalismo.

Com quase 700 mil infectados e mais de 36 mil mortos, faço uma previsão preocupante de que esse número pode triplicar em curto espaço de tempo e antes que a pandemia se dissipe no Brasil.

Lamento dizer isto, mas o faço com base na realidade que se vê nas ruas. Reconheço que é difícil continuar preso em casa e sei que muitos que estão saindo o fazem porque precisam trabalhar, buscar o sustento para suas famílias.

Mas, não é dessas pessoas que estou falando. Hoje, precisei sair e dirigi por alguns poucos quilômetros. Não contei, mas observei que cerca de metade das pessoas não está obedecendo a obrigatoriedade de usar máscaras. Na avenida Francisco Conde, conhecida como 20 Metros, entre Vila Rosália e Vila Galvão, muita gente fazendo caminhada e correndo na faixa pintada ao longo do canteiro central. E a maioria delas sem usar máscaras, espargindo gotículas pelo ar.

Se fossem moradores da periferia distante, gente que não teve chance de estudar, alguém poderia dizer que fosse quem não tem acesso a informação. Duvido que alguém dos mais afastados bairros desconheça os cuidados básicos a tomar durante a pandemia, pois todos os meios de comunicação pregam isso, dia e noite. Na internet, também. Mas o povo que pratica exercícios na 20 Metros é, em geral, classe média alta, gente com curso superior, pós-graduação, até com doutorado e outros títulos que parecem nada acrescentar a muitos que se dizem humanos. Podem ter tudo: dinheiro, cargos, carros, poder, conhecimento, mas lhes falta empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Falta-lhes bom caráter, pois quem o tem não coloca em risco a vida dos outros.

Entre os que têm sido obrigados a ir para o trabalho, muitos serão contaminados nos transportes coletivos, como se viu hoje nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, muito provavelmente também em Guarulhos e outros grandes municípios, pois viajam espremidos; tomara que a determinação de só viajarem passageiros sentados na Capital seja obedecida e adotada também em outras cidades. Afinal, mesmo com máscaras, podem ser infectados de alguma forma, infelizmente, pois às vezes é impossível evitar o contato. Outros tantos irão contaminar-se no atendimento do público, na linha de frente dos hospitais e unidades de saúde, nos supermercados, nas farmácias. Ou ao receber uma encomenda em domicílio. Ou ao não desinfetar uma mercadoria que comprou no supermercado e que havia sido tocada pouco antes por alguém assintomático; ou ao não desinfetar o cartão de crédito depois de passar na maquininha e levar a mão à boca, ao nariz ou aos olhos…

Países que afrouxaram a quarentena viram os resultados ruins dessa atitude; dirigentes vieram a público pedir perdão, admitindo que erraram, que mais vidas poderiam ter sido salvas. Algumas análises mostram que o isolamento no estado de São Paulo, criticado por muitos, pode ter salvado mais de 70 mil vidas, pois se houvesse uma avalanche de casos simultâneos, o sistema de saúde teria colapsado rapidamente e muitos mais morreriam, como se viu em países europeus que têm população próxima da de SP.

Com 112 mil mortes, os Estados Unidos registram 341 óbitos a cada milhão de habitantes. Nesta segunda-feira, o Brasil registra basicamente a metade: 172 mortes por covid para cada milhão de habitantes. Lá existem mais de 1,1 milhão de pacientes ativos da doença, o triplo do que temos confirmados no Brasil; contando com a subnotificação, é provável que tenhamos metade dos EUA. Como lá ainda vai levar um tempo para a pandemia se dissipar, pode ser que cheguem a mais de 500 mortes por milhão, marca que, infelizmente, devemos atingir também no Brasil, o que representará mais de 100 mil mortos pela doença. Tomara que eu esteja errado.

Poderia ser muito menos, se as pessoas se respeitassem. Que, ainda que não acreditem nos números da pandemia, que seguissem as normas em respeito ao próximo. Se não têm amor à própria vida, deveriam ter ao menos à vida dos filhos e netos. Mas, uma imensa multidão não está nem aí com o vírus, não está nem aí com o próximo, gente que se acha acima de tudo e de todos. Estão matando uns aos outros. Não se mata apenas com tiros ou facadas. Há outras formas de se assassinar inocentes: com gotículas invisíveis, com a impressão digital na portaria do condomínio, com o dedilhar da senha na maquininha do cartão de crédito, com o simples toque na maçaneta do carro.

Desculpe o desabafo. Mas, se com isto conseguir mudar o comportamento de uma só pessoa que seja, terá valido a pena. Com a covid-19, cada um de nós é um assassino em potencial. Esclarecer, chamar a atenção para os problemas é obrigação dos profissionais da comunicação. Todos nós temos o dever de salvar vidas. Palavras duras bem-intencionadas podem salvar vidas. É o que estou buscando fazer.

Valdir Carleto



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