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Nutricionista que perdeu a visão por causa do diabetes dá dicas fundamentais sobre a doença

Tânia Sellis formou-se em Nutrição com o objetivo de dedicar-se a aprofundar os estudos em como enfrentar a diabetes e transmitir seus conhecimentos, como uma forma de ajudar outras pessoas, tanto as que já identificaram que têm a doença, como as que não sabem, mas reúnem fatores que colocam em situação sob suspeita. Em uma conversa longa, mas bem informal, com o Click Guarulhos, ela conta que perdeu a visão em decorrência do diabetes, transmite um pouco de sua experiência e fala sobre o método que adota.

Qual a idade tinha quando descobriu ser diabética?

Eu tinha 9 anos de idade.

Havia tido algum sintoma que pudesse indicar ser diabética?

Sim, emagreci muito, tinha sede excessiva, muita vontade de ir ao banheiro, muita fadiga, visão turva, falta de apetite, olhos fundos devido ao emagrecimento, além de infecção urinária.

Crê que se soubesse antes ou se tivesse tomado determinados cuidados, como alimentação adequada, poderia ter evitado consequências?

A diabetes tipo 1 tem causa diferente da de tipo 2; ela é uma diabetes genética; ou seja, eu poderia ou não ter desencadeado em qualquer período da vida. Ela não tem causa aparente, porém, como eu já tinha pré-disposição a desenvolvê-la, logo após perder minha mãe, em fevereiro de 1991, já desenvolvi a diabetes. Importante citar que, no meu caso, nem estilo de vida e nem alimentação poderia me impedir de desenvolver a diabetes tipo 1, isso porque ela desencadeia em crianças já recém-nascidas até a adolescência. O que pode ser feito para ajudar é a mãe ter um estilo de vida saudável e se preparar para ter uma gestação saudável.

Conte mais sobre os antecedentes da descoberta da doença.

Você teve alguma consequência da diabetes?

Logo que descoberta a diabetes, eu me internei quase em coma diabética e quando saí do hospital, a minha vida mudou totalmente; meu pai colocou uma pessoa para cuidar de mim. Nesse período de mais ou menos um ano, a glicemia era bem controlada. Porém, quando ela saiu de casa, digamos que tudo foi por água abaixo: minha glicemia nunca mais foi a mesma. Acredito muito que uma figura feminina fez toda a diferença. Passei o início da minha adolescência e da minha vida adulta muito revoltada, me internando praticamente todos os meses. Com 24 anos de idade, o vulcão que estava adormecido, resolveu acordar. Foi quando tive infecção renal oito vezes consecutivas, sendo necessário me internar diversas vezes para fazer o uso de antibióticos. Na mesma época, minha visão começou a embaçar, quase não conseguia ler, e descobri que estava com retinopatia diabética, que é quando os pequenos vasos oculares se rompem e causam sangramento; diante desse fato, fiz tratamento a laser para estancar esses sangramentos. Como eu vivia mais no hospital com infecção renal do que em casa, acabei perdendo a visão total em agosto de 2006. E no início de 2008 perdi uma gestação de alto risco e logo em seguida a função renal total, tendo de fazer sessões de hemodiálise e entrei na fila do transplante. No mesmo ano, fui chamada para transplantar três vezes e a última, no dia 19 de dezembro de 2008, onde recebi uma benção de Deus: minha segunda vida e o início da minha missão.  

O quê poderia ter evitado todas as consequências da diabetes?

Como na época não se ouvia dizer sobre essa doença como nos dias atuais, meu pai, que era meu cuidador, não aprendeu a principal educação da diabetes para que não houvesse consequências no futuro. Como a alimentação era muito restrita e como os profissionais da época tratavam uma criança como um adulto; ou seja, diziam palavras duras, como: “Se comer doce, vai ficar cega…, se comer tal coisa, vai perder os rins”, então me revoltei muito na infância e adolescência. Houve momentos em que eu chegava a comer escondido. Ou seja, restrição causa transtorno alimentar, que, por sua vez, causa compulsão! Então, se os profissionais tivessem me educado de uma forma menos pesada, acredito que eu não desenvolvesse as consequências que tive. Ressaltando que não os estou culpando por tal fato, até porque, naquela época, os tratamentos para diabéticos eram aqueles; aparelhos para medir glicemia, só tinha importado e fitas, com custo muito alto; só se media a glicose pela urina, com uma fita específica; insulina ainda não existia a humana e as que existem hoje: na época era insulina de animais; alimentação era muito conservadora; ou seja, muito restritiva até para uma criança. Hoje é totalmente diferente. Espero ter sido clara para que entendam.

O que a levou a estudar Nutrição?

Eu passei minha infância, adolescência e início da minha vida adulta sendo internada inúmeras vezes. Com isso, eu observava em alguns profissionais da saúde o brilho nos olhos e amor em cuidar dos pacientes. Um dos meus sonhos era ser médica. Terminei o ensino médio, prestei alguns vestibulares para Medicina; porém, como não estava preparada, não passei. Eu tinha a crença de que já estava velha para perder mais tempo na vida, isso porque eu já havia perdido três anos na escola por conta das minhas inúmeras internações. Meu pai me aconselhou a cursar Nutrição, já que também era uma profissão que eu acompanhei desde criança com a diabetes. Entrei na faculdade em 2002 e foi amor à primeira vista!

Então meu intuito era entrar na área da saúde para cuidar de pessoas com diabetes. Quando entrei na faculdade em 2002, tinha a visão; tranquei a matrícula após um ano e voltei em 2007, sem enxergar; fui a primeira e única aluna com deficiência visual no curso de Nutrição da Universidade Guarulhos- UNG.

Demorei exatos 6 anos para me formar, pois no meio do caminho foi quando ocorreram todas as consequências da diabetes, e tive que trancar por diversas vezes a matrícula. Tive que adaptar todas as matérias e materiais de consultório. Esse foi, inclusive, o tema do meu TCC. Posso dizer que muito além de ensinar os professores e colegas, aprendi e me desenvolvi muito nesse meio tempo. Eu me formei em 2013 e não parei até hoje. Fiz vários cursos para me aperfeiçoar, dentre eles o de educadora em diabetes pela Sociedade Brasileira de Diabetes – coaching nutricional – porque acredito que o paciente precisa muito ser ouvido e aumentar sua estima para que ele aprenda a se aceitar, se amar e ter uma ótima qualidade de vida. E fiz também duas pós-graduações, sendo uma em Nutrição Funcional (que ajuda a tratar o problema pela raiz e com isso ter mais qualidade de vida).

Por que se dedica a transmitir conhecimentos especialmente a pessoas diabéticas?

Primeiro por toda minha história de vida; segundo por coincidência: nos meus estágios na faculdade, me deparei com pacientes com diabetes e fiz meus primeiros atendimentos; eu percebi o quanto o paciente se sentiu à vontade por saber que ele estava sendo atendido por uma pessoa que foi diabética. Digo “fui” porque eu já havia transplantado pâncreas e rim, e por isso não era mais diabética. E com toda essa minha trajetória, já atendendo paciente há 10 anos, e saber o quanto vêm crescendo os números de pessoas que têm a doença, tenho muito amor em poder mostrar um caminho diferente daquele que eu fiz lá trás: mostrar para o paciente que é possível viver com qualidade de vida, mesmo tendo diabetes e que hoje não se usa mais a ditadura alimentar com pacientes diabéticos. Existem muitos recursos e também é possível incluir um doce, uma pizza, tudo dentro de uma estratégia nutricional e dentro de uma alimentação e estilo de vida saudáveis.

Quais alimentos recomenda que quem tem diabetes deve consumir?

Eu falo que todas as pessoas deveriam fazer essa alimentação para viver bem, ter vitalidade e para não desenvolver doenças crônicas e obesidade. Alimentos que Deus nos deu; incluir nutrientes onde não tem, como o café da manhã e nas principais refeições, como almoço e jantar.

Fibras: farelo de aveia, banana verde, batata iacon, frutas com bagaço e casca. Verduras e legumes crus têm maiores quantidades de fibras;

Gorduras boas como abacate, sementes de linhaça, gergelim, etc;

Proteínas: como sardinha, fonte de ômega 3, dentro outros naturais: tem um poder anti-inflamatório maior, ideal para colocar em todas as refeições.

O que estes alimentos têm em comum?

Eles fazem com que o açúcar dos carboidratos que ingerimos não vá com muita velocidade para a corrente sanguínea. Pois isso levaria o diabetes nas alturas muito rápido. Eles são como uma seringa: não deixam o açúcar dos carboidratos aumentarem rapidamente; com isso, conferem mais equilíbrio glicêmico.

Frutas e legumes nas cores vermelhas e roxas também conferem mais propriedades anti-inflamatórias e, por esse motivo, mais controle glicêmico e menos episódios de infecções e inflamações: morango, cereja, mirtilo, amora, tomate, uva, cebola e alface roxas, etc.

Temperos como: açafrão, pimenta do reino (pimenta preta), gengibre

Quais alimentos deve-se evitar? Apenas o que tradicionalmente se diz, como açúcar, ou há outros que devem ser evitados?

O que eu peço para evitar é o consumo de alimentos muito processados, por conta da quantidade de química contida neles; peço para não consumir sozinhos os carboidratos, sempre acompanhados de gorduras boas, fibras e proteínas.

Açúcares em geral e massas, não os proíbo; porém oriento a escolher os dias de ingeri-los dentro de uma alimentação nutritiva e saudável e, se possível, caso haja necessidade, fazer a contagem de carboidratos – mais indicado para quem faz uso da insulina.

A quê se atribui que seja crescente o índice de diabetes em crianças?

O diabetes tipo 1 não tem como saber, isto porque a causa não é alimentar e sim genética, sem causas conhecidas; existe sim, um tipo de exame para verificar a presença de anticorpos que destroem as células produtoras de insulina no pâncreas, por ser uma doença autoimune. Porém, os pais nunca irão imaginar que seu filho possa desenvolver a diabetes tipo 1, a não ser que algum médico endocrinologista decida pedir exame específico para detectar.

Agora já a diabetes tipo 2, antigamente só era diagnosticada em adultos; hoje há um número preocupante de adolescentes com sobrepeso e obesidade sendo diagnosticados com ela.

Que conselhos dá a quem não tem diabetes ou que não sabe se tem?

Que fiquem atentos se se enquadram em um dos fatores:

Mulheres que tiveram diabetes gestacional; mulheres que estão com sobrepeso ou obesas e querem engravidar; mulheres com síndrome dos ovários policísticos e/ou menopausa;

Homens e mulheres: gordura no fígado ou circunferência abdominal maior que 88 cm; que estão acima do peso, hipertensos, colesterol elevado – principalmente o LDL. Que tenham histórico familiar de diabetes; sedentários, e agora, principalmente: quem tem uma doença crônica como câncer, hipotiroidismo, obesidade ou alergias alimentares;

Pessoas que ingerem rotineiramente alimentos industrializados/ processados, com excesso de açúcar, doces em geral, massas, como pães, pizza, lanches; excesso de frituras, refrigerantes, sucos industrializados.

E que ingerem minimamente alimentos como frutas, verduras, legumes, fibras, gorduras boas em uma quantidade adequada para cada pessoa.

Exame de glicose maior que 100 mg e exame de insulina acima da referência.

Quem tem todos estes sintomas: sede excessiva, ida muitas vezes ao banheiro, aumento de apetite, emagrecimento rápido.

O que fazer para ajudar?

Acrescentar uma atividade física pelo menos uma hora por dia. E uma coisa muito importante, ter saúde mental. Como? Com o estresse do dia a dia, as pessoas esquecem delas e só focam nos problemas. O ideal é tirar um tempimho para se cuidar: incluir, se possível todos os dias, momentos que lhe deem prazer: caminhada em meio à natureza, ler um bom livro, assistir a um filme de comédia para rir bastante ou outro que lhe agrade, fazer massagem em si próprio, meditar, cantar, dançar, fazer uma sessão de skincare… Escolha algo para descarregar as energias acumuladas, para que a vida fique mais leve.

O que gostaria de acrescentar que não lhe foi perguntado?

Importante falar sobre pré-diabetes. É caracterizado quando há uma anormalidade na glicemia entre 100 e 125mg/dl; isso ocorre com todos os fatores que citei. O mais comum é ter uma alimentação à base de excesso de carboidratos, pois alimentos muito processados fazem o pâncreas liberar, a todo vapor, muita insulina, fazendo com que acumule gordura principalmente no abdômem (concentrando no fígado). O excesso de carboidratos o organismo transforma em gorduras e entende que tem que ser armazenada. Com um tempo, o pâncreas fica desgastado de tanto liberar insulina. Para colocar esses carboidratos para dentro das células ou o excesso de gorduras pode causar uma inflamação que, por sua vez, não deixa a insulina agir. Se a pessoa com pré-diabetes não se atentar, ela pode desencadear diabetes tipo 2.

Tem como reverter o quadro de pré-diabetes e diabetes tipo 2?

Em muitos casos, o pré-diabetes tem reversão com a alimentação, prática de exercícios e inclusão de uma vida social normal, atrelados com os prazeres que de preferência de cada um. Para o diabetes tipo 2, existem inúmeros artigos científicos que informam que o paciente com a inclusão de uma vida saudável também consegue reverter o caso. Porém, não são todos os casos que têm reversão.

Já o tipo 1, infelizmente não há estudos que comprovem sua reversão, já que, nesse caso, o pâncreas não produz mais a insulina e o transplante de pâncreas só é para pacientes na fila do transplante renal.

Sua orientação como nutricionista ajuda tanto quem tem pré-diabetes, quanto para quem tem diabetes tipo 1 e tipo 2?

Como nutricionista especializada em diabetes, tenho um método de 90 dias, criado para ajudar o paciente que tem os fatores que podem levá-lo a desencadear diabetes, quanto para quem já tem diabetes, para ele chegar no resultado buscado, que pode ser emagrecimento até 12 quilos, diminuir colesterol, insulina, glicose, hemoglobina glicada, melhorar gordura no fígado, e/ou até diabéticos que estão com descontrole total glicêmico, e querem aprender a ter autocontrole e os alimentos que não aumentem tanto sua glicose. No método Pérola, eu coloquei gamificação para motivar o paciente do início ao fim dos 90 dias.

Como é esse método?

São 4 fases. Coloquei nome das fases da pérola, associando com o paciente – 1) desinflamar/ grão de areia; 2) ativar/ nácar; 3) acelerar/madre-pérola e 4) manter/ pérola negra.

Tem feedback que eu faço junto com o paciente, mediante o que combinamos e planejamos e ele ganha pontos para trocar com materiais. Tem tira-dúvidas, materiais e missões semanais para ajudar a desmistificar suas dúvidas; e, ainda, do início ao fim, trabalho com ferramentas comportamentais (coaching), para ajudar o paciente a lidar com crenças e sabotadores, que atrapalham a seguir sua alimentação, o que intensifica a descontar suas emoções na comida e seus comportamentos consigo próprio.

Pode informar meios de contato para quem tiver interesse em saber mais?

Sim, com o maior prazer: WhatsApp (11) 98202-7488;

Instagram: @nutritaniasellis

Página no Facebook: Nutricionista Tania Sellis (contatos pelo Messenger)

Tânia conclui fazendo dois convites:

1) As primeiras dez pessoas que escreverem para ela pelo WhatsApp vão ganhar cortesia para uma sessão de aconselhamento nutricional – por vídeochamada.

“Nessa sessão, dou um plano de ação, que são 3 metas para seguir nos próximos 21 dias. Seja a mudança que você quer no mundo”, explica e incentiva.

2) O segundo convite são as pré-inscrições para caminhada de prevenção ao diabetes, que promoverá no dia 19 de novembro em comemoração ao Novembro Azul.

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