Na primeira infância a criança começa a desenvolver seu sistema motor e cognitivo. Muitos pais acreditam que algumas atitudes podem ser inofensivas nessa fase e utilizam recursos para entreter, acalmar e distrair a criança, como o uso de telas. Embora ofereçam inúmeras programações para ajudá-los nesse processo, podem ser extremamente prejudiciais para a criança nesse período, inclusive no processo de desenvolvimento da fala e da linguagem.
Quem alerta é a fonoaudióloga Camilla Guarnieri (CRFa 2 – 18977): graduada pela USP, mestre pelo Programa de Pós-graduação em Fonoaudiologia pela USP, doutora pelo Programa de Pós-graduação em Fonoaudiologia pela USP. Durante o doutorado, realizou estágio pesquisa na University of South Florida (USF – EUA). É responsável pelas áreas de fala e linguagem na Clínica Care Materno Infantil.
Segundo ela, boa parte dos conhecimentos adquiridos acontece até os dois anos, quando a criança está tomando consciência de suas habilidades. “Por essa razão, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças até dois anos não tenham contato com telas e televisores, uma vez que elas podem influenciar no atraso do desenvolvimento de diversas habilidades, incluindo a linguagem e até mesmo as sociais da criança”, afirma.
De acordo com a fonoaudióloga, o uso de telas afeta diretamente a criança na interação com outros membros da família e pode orientar equivocadamente a forma de comunicação, uso das palavras e desenvolvimento da linguagem. “Muitos pais chegam ao consultório com queixas sobre atraso na fala, dificuldades de comunicação, mau uso da linguagem, entre outros desafios, associando a transtornos ou patologias. Porém, quando vamos investigar o estilo de vida da criança, vemos que os hábitos familiares estão associados ao mau uso das telas, influenciando diretamente nos costumes desenvolvidos”, explica.
Segundo a especialista, os meios mais utilizados e que permitem que a criança exceda os limites, influenciando no seu desenvolvimento cognitivo, são celulares, tabletes, televisão, jogos e, para os mais crescidinhos, as redes sociais, que, além de influenciar em todo o desenvolvimento, aumentam o risco de problemas emocionais como ansiedade e depressão, que também podem desencadear reações severas no desenvolvimento de alguns dos sentidos.
Menos concentração e interação social
A exposição precoce às telas altera o processo natural de aprendizagem e desenvolvimento da criança, barrando processos neurais que influenciam em diversas capacidades, principalmente concentração e interação social, fatores essenciais para a evolução apropriada da fala e linguagem. “Alguns dos problemas mais comuns apresentados pelo uso são: vocabulário restrito, brincar restrito, principalmente o simbiótico (brincadeiras de faz de conta), evitar manter-se na mesma atividade quando há dificuldade, interferindo na aquisição de novas habilidades e dificuldades dialógicas.
Nem sempre é possível dedicar toda atenção à criança e essas novas tecnologias tornaram-se essenciais para suprir a participação dos pais. Nem tudo é nocivo, pode haver alguns ganhos, mas não se comparam com as perdas. “Se não é possível controlar 100% o acesso, há formas de driblar o conteúdo consumido, o que requer nparticipação ativa dos pais e profissionais para eleger conteúdos que contribuam no processo de aprendizagem”, finaliza a especialista.
Para orientar os pais e responsáveis, a OMS (Organização Mundial da Saúde) disponibiliza uma tabela com recomendações por idade: crianças de 0 a 2 anos de idade não devem ser expostas a telas devido ao período de desenvolvimento neural e cognitivo; crianças de 2 a 5 anos devem ser limitadas a aproximadamente uma hora por dia. A partir dos 5 anos, o acesso dever ser de até duas horas e com monitoramento de conteúdo, devido à influência emocional que alguns conteúdos podem oferecer.
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