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Amigos do Patrimônio Histórico promoveram passeio por marcos de resistência em Guarulhos

No dia 18/06, domingo, a AAPAH – Associação Amigos do Patrimônio e Arquivo Histórico realizou um roteiro pela cidade com a ousada proposta de falar sobre decolonialismo e os monumentos da cidade

O roteiro “Marcos decoloniais de resistência em Guarulhos” contou com recursos obtidos do Proac (Programa de Ação Cultural) do Governo de Estado, no âmbito do projeto “Inventário das Obras de Artes Públicas da Cidade de Guarulhos”.

Thiago Cavalcante Guerra explica que a proposta foi dividida em três lugares de memórias, com um objetivo comum que os entrelaçava. “Como a cidade de Guarulhos representou através de monumentos e obras de artes públicas o legado indígena e negro da cidade? O conceito escolhido para a abordagem foi o decolonialismo. De acordo com a pensadora Catherine Walsh, o processo decolonial envolve uma mudança de paradigma do pensamento ocidental, questionando as narrativas dominantes e hegemônicas que sustentam a supremacia colonial, ou seja, branca, europeia, cristã e heteronormativa. Isso implica desafiar os sistemas de conhecimento ocidentais e valorizar os saberes e perspectivas indígenas, afrodescendentes e outras vozes marginalizadas. Logo, uma pergunta que ficou no ar era por que monumentalizar o passado? Quem faz essas escolhas? Quem não participou delas?”, cita.

O grupo visitou a estátua do índio Guaru, do artista Oswaldo Alves, localizada no portão de entrada do parque Bosque Maia pela avenida Papa João XXIII. Com cerca de 70 centímetros de altura, a obra tem referências datadas como a associação do nome Guaru aos peixinhos do rio Baquirivu, a obra representa o legado indígena.

“Seguindo pelo Bosque Maia, paramos defronte à Gruta dos Orixás e seu histórico de conquista de visibilidade, mas também de vandalismo e tentativas de apagamento, demonstrando que ainda há muito trabalho a fazer de combate à intolerância religiosa”, menciona.

Em seguida, dirigiram-se ao Centro Histórico, escolhendo começar pelo memorial da Igreja do Rosário dos Homens Pretos (foto no destaque). Guerra relembra letra de música composta por Aldir Blanc, gravada por Elis Regina, “Salve o almirante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais”, para dizer que Guarulhos tem o seu exemplar de descaso com a memória negra da cidade, “que vive à sombra, como a placa de metal no chão da Rua Dom Pedro II, que ninguém vê e que todos pisam”.

Continuando o itinerário de questionamentos, Thiago Guerra e o professor e historiado Elmi Omar abordaram a questão do Cemitério São João Batista, no qual os pretos eram sepultados na parte de baixo, onde é hoje a Biblioteca Monteiro Lobato. Os restos mortais deles foram trasladados, mas os túmulos das famílias da elite guarulhense tiveram o direito de permanecer na parte alta da necrópole, cuja entrada é pela rua Felício Marcondes.

Os membros da Aapah apontam a praça Getúlio Vargas como símbolo do descaso dessas memórias. “O verdadeiro ocaso do busto da Mãe Negra que ali não se encontra mais. Diferente de tantos outros bustos, temos ali a representação de uma mulher negra. O escultor Diógenes usou como molde o rosto de uma senhora da Vila Galvão e produziu a escultura em1990, incorporando ao patrimônio do prédio da antiga Câmara Municipal e compondo o importante conjunto urbanístico da praça Getúlio Vargas. Após intervenção realizada pela Prefeitura, de reforma do busto que não seguiu o padrão original, este foi vítima de ataques de criminosos que tentaram derreter a estátua de resina, acreditando ser bronze. Uma das suspeitas de ataque é de intolerância religiosa, hipótese investigada pela polícia. O fato é que a escultura não se encontra mais à vista dos transeuntes da abandonada praça, relatam.

O roteiro no Centro foi finalizado no Marco da Consciência Negra, na rua Anita Guastini Eiras, próximo à E.E. Conselheiro Crispiniano: mede 3,70m de altura, é feito de ferro cilíndrico com 40 centímetros de diâmetro, preto, e contém 13 figuras moldadas na vertical, com símbolos ideográficos conhecidos como Adinkra, dos povos Achanti, de Gana, e dos Gyaman, da Costa do Marfim.

Os participantes ficaram impressionados com o simbolismo do Totem, que podem ser lidos como o encontro dos contrários na consumação de algo novo. “Lembramos que ali encontra-se também uma encruzilhada, importante simbologia do orixá exu, responsável por abrir os caminhos”, relatam.

Por fim, o grupo deixou a área central da cidade e seguiu em direção ao bairro das Lavras, para conhecer o Ilê Axé Obá Omon Olooke ty Efon, primeiro terreiro de candomblé tombado no município de Guarulhos, por decisão unânime do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico, Ambiental e Cultural do Município de Guarulhos.

Segundo informa o grupo de historiadores, o Ilê Axé Omon Obá Olooke ty Efon foi fundado no ano de 1975 por Mãe Efigênia de Xangô. Sua importância ancestral, contudo, remonta a tempos imemoráveis. O Ilê associa-se, por seu vínculo identitário (nação Ketu – povo nagô), à casa de culto aos orixás mais antiga do Brasil, o Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Casa Branca do Engenho Velho), que tem sua origem em meados do século XIX. A visita no espaço foi mediada por pai André, BàBá Kékeré do Ilê, e mãe Mara, Ebomi  do Ilê, que mediaram uma roda de conversa no barracão principal, onde expuseram brevemente o histórico da casa, seus patrimônios materiais e imateriais, a importância do tombamento pelo município de Guarulhos, e houve diálogos e explicações acerca das diversas dúvidas relacionadas às religiões de matriz africana.

(Texto base inclui trechos de Suzy Santos)

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