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Sexto artigo da série “Invisíveis”: A falta que eu não faria

Se eu deixasse este mundo agora, alguém de fato sentiria minha falta?

Talvez o garçom do boteco no fim da noite, pois não teria dificuldades em fechar o bar, me pondo pra fora.

Talvez o jornaleiro da esquina soltasse um palavrão ao notar que aquela revista de literatura (que ninguém mais lê) encalhou e então se lembrasse que eu desapareci.

O cão sarnento da praça que divide comigo as primeiras nesgas de Sol da manhã junto com as últimas angústias da noite e de vez em quando come metade do pastel da feira de domingo.

Talvez este até seja um bom momento para sair de cena, encontrar uma desculpa qualquer e não passar o vexame de não ter quórum para as seis alças, dando serviço extra aos funcionários do campo santo que receberá um corpo que de santo nada viu nesta terra.

Durante muito tempo, me perguntei como algumas pessoas podiam desistir. Não me furto em dizer que também emiti julgamentos sobre seus atos, classificando-os até como covardes. Hoje sei: estava errado. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é. Cada um sabe qual é o limite que pode e quer suportar. Cada um tem o direito de acreditar no que quiser. Aceitar o que quiser. E não há covardia nenhuma em tomar uma decisão, insistir, desistir, persistir. Verbos. Sofrer também é verbo.

Todos os dedos estão apontados o tempo todo para cada passo que damos. As pessoas de bem são ótimas em cuidar da vida alheia. Em vigiar qual o uso que o filho da vizinha faz do seu esfíncter, se o feto não desejado no útero da menina que até ontem era criança não vai ser arrancado antes do tempo. Todos julgam o tempo todo. Opinam sobre tudo. Se eu deixar este mundo agora, muitos vão me julgar também.

Esse EU da frase sou eu e outros tantos, que passamos por você e você não nos vê, sou invisível, somos invisíveis. Minha dor não é sua. Meu desemprego, minha fome, minhas angústias, minhas lágrimas, minha desesperança, nada disso lhe diz respeito.                                      

Sua fé, seu Deus, sua moral, nada disso é capaz de criar uma ponte que amenize o que sentimos.

Sua mão está sempre pronta para apontar os erros, sua voz para emitir julgamentos, e mesmo quando se cala, seu olhar condena.

Se eu deixasse este mundo agora, talvez fosse bom para todos. Sua consciência ficaria mais leve.

Se eu deixasse este mundo agora, será que eu faria falta?

Alek Honse é jornalista, filósofo e escritor; autor de “Alek no país dos invisíveis” entre outros. Viveu até recentemente, na própria pele, a saga de morar nas ruas da região central da cidade de São Paulo e conta nesta série de artigos um pouco dessa realidade. Da quarta-feira, 27, até o domingo de Páscoa serão postados os últimos artigos da série.

Ele criou o Projeto Invisíveis (apoia-se/projetoinvisiveis), com o qual procura ajudar outras pessoas em situação de rua a conseguir um lugar para morar. Quem puder contribuir pode enviar qualquer quantia deve enviar pix para a chave 11981518718.

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