– Coisa chata essa que lhe aconteceu. Sinto muito.
– Obrigado.
– Não sei como pode estar tão calmo, no seu lugar eu estaria muito puto.
– Por quê?
– Oras, não levaram seu celular, dinheiro, e ainda te deram uma pancada?
– Sim, fizeram isso tudo.
– Então. Você é escritor, deve ter muita coisa anotada lá. Dinheiro que foi difícil ganhar, a dor que sentiu.
– Sim, tudo isso é verdade, mas prefiro pensar que eles precisam mais do que eu.
– Como assim?
– Veja, levaram dinheiro que certamente me fará falta; mas, e se foi para alimentar a família? Então fui instrumento para que algumas pessoas a menos passassem fome esta noite.
– E se foi para drogas, o que acho mais provável?
– Então eles também precisam mais que eu. A fissura e a crise de abstinência cegam a pessoa. Comigo foi tranquilo, mas e se fosse outro e reagisse? Poderia ter sido morto um pai de família e agora viúva e órfãos estariam chorando. Também prefiro pensar que fui um instrumento para que o mal maior não acontecesse.
– E o celular?
– Levaram meus contatos, mas não meus amigos; levaram meus escritos, mas não minhas ideias.
– Desse jeito até parece que eles são bonzinhos, as vítimas…
– Não foi isso que disse. Em algum momento eles terão de responder pelos seus atos. Eu não quero odiar, me ligar nessa vibração ruim. Jesus disse que se lhe tomarem a túnica, dê lhe também a capa. Deus há de prover o que me foi tirado. Meu caminho é do perdão e do amor.
– Um dia vou querer ser assim, mas não hoje.
– Cada um em seu momento. Os ladrões ainda não despertaram para o bem, você ainda não acordou para o perdão e eu ainda estou dormindo em muitas coisas. Viver é despertar.
Alek Honse é jornalista, filósofo, palestrante e escritor. Autor de “Alek no País dos Invisíveis”, “Goles de solidão e poesia”, entre outros. https://agbook.com.br/book/358991–Goles_de_Solidao_e_Poesia
Viveu até recentemente, na própria pele, a saga de morar nas ruas da região central da cidade de São Paulo e conta nesta série de artigos um pouco dessa realidade. Desta quarta-feira, 27, até o domingo de Páscoa serão postados os últimos artigos da série.
Alek criou o Projeto Invisíveis (apoia-se/projetoinvisiveis), com o qual procura ajudar outras pessoas em situação de rua a conseguir um lugar para morar. Quem puder contribuir pode enviar qualquer quantia por pix para a chave 11981518718 (a conta é de Alexandre Rodrigues).
