O mês de março acabou e faltam poucos dias para que vereadores decidam por qual partido pretendem disputar as eleições de outubro. A mesma decisão precisa ser tomada por candidatos à vereança, que analisam em qual legenda terão mais chance de obter uma vaga. Por outro lado, os partidos avaliam quais pretendentes devem ou não acolher.
Enquanto isso, os pré-candidatos à Prefeitura procuram mostrar musculatura para tentar atrair partidos que os apoiem. As redes sociais são utilizadas para uma verdadeira guerra de informações, com cada grupo procurando puxar a brasa para sua sardinha.
Embora o resultado da eleição de 2022 não tenha de se repetir em 2024, é bom recuperar dados daquele ano para mostrar como alguns dos pré-candidatos de agora foram votados naquele ano. O deputado estadual Jorge Wilson Xerife do Consumidor, pré-candidato com apoio do grupo do prefeito Guti e de praticamente metade da atual Câmara Municipal contou com 41.696 votos de Guarulhos para sua reeleição à Assembleia Legislativa. O deputado federal Alencar Santana, pré-candidato do PT e contando com apoio do PSOL, PV e Avante, teve em Guarulhos 42.858 votos, enquanto Janete Pietá, esposa do pré-candidato a prefeito pelo Solidariedade, Elói Pietá, teve 42.306 votos para deputada federal, sem se eleger. O vereador Lucas Sanches, pré-candidato pelo PL, teve em Guarulhos 38.352 votos; Thiago Surfista, pré-candidato pelo Partido Novo, obteve na cidade 35.675 votos e o deputado Márcio Nakashima, pré-candidato pelo PDT, teve 33.300 votos em Guarulhos.
A julgar por esses números, ninguém pode se arvorar o direito de sair cantando de galo, pois foi relativamente pequena a distância entre o menos votado e o mais votado entre eles em 2022.
A favor de Jorge Wilson há o fato de que a máquina administrativa poderá lhe render bons frutos. Guti já o está levando a tiracolo nas inaugurações e nas vistorias de obras, como forma de demonstrar seu apoio a ele e de torná-lo mais conhecido pessoalmente, já que a imensa maioria de quem votou no Xerife só o conhece pela TV. Em 2020, candidato à reeleição, Guti conseguiu nada menos de 45,66% dos votos no primeiro turno (260.086). Nada mal para quem teve poucas chances de mostrar serviço no primeiro mandato. Isto mostra o quanto ter a máquina na mão pode ser uma poderosa arma. Elói Pietá, que aparece em pesquisas diversas como o mais cotado para a Prefeitura neste ano, ficou em segundo em 2020, com 183.637 (32,24% dos votos).
Há um fator que pode prejudicar a votação de Pietá neste ano: em todas as eleições que disputou, desde 1982, sempre foi candidato pelo PT, com o número 13. Desta vez, está no Solidariedade, o 77. Muitos eleitores simpáticos a ele podem confundir-se e votar 13, descarregando o voto em Alencar, mesmo a urna mostrando a foto do candidato na hora da votação. Pode pesar também o número de candidatos a vereador que estarão com Alencar. Há quem argumente que Pietá deve ser mais votado do que Alencar, pelo fato de Janete, que não tem a mesma popularidade do marido, ter sido mais votada em Guarulhos do que o deputado em 2022. Assim, é muito arriscado apostar quem da chamada esquerda tem mais chances de ir para o segundo turno.
No lado da direita, o vereador Lucas Sanches, que trocou o PP pelo PL, buscava atrair o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro. Porém, o capitão já posou em foto com Jorge Wilson, junto com o governador Tarcísio de Freitas, que goza de boa avaliação perante os guarulhenses. Na quinta-feira, a assessoria de Sanches divulgou release apontando que obteve apoio do youtuber bolsonarista Fernando Lisboa, que tem residência em Guarulhos; do presidente do PL, Valdemar Costa Neto e do vereador de Itaquaquecetuba Carlos Alberto Santiago, que deve disputar a Câmara de Guarulhos. De imediato, começaram a circular postagens do mesmo Lisboa, de tempos atrás, afirmando que jamais Lucas Sanches teria apoio de Bolsonaro e que o jovem “podia tirar seu cavalinho da chuva”. O que o terá feito mudar tanto de ideia? E, por falar em Santiago, parece piada que alguém venha de Itaquá para concorrer à Câmara de Guarulhos. É como o PL dizer que nossa cidade não tem ninguém com capacidade para ser vereador.
O mesmo release afirma que a tendência neste ano em Guarulhos é haver polarização no segundo turno entre Lucas Sanches pela direita contra um dos candidatos da esquerda. Fingem esquecer que há na direita um nome de peso, que é o Jorge Wilson, com apoio de Guti, Tarcísio e Bolsonaro. Há razão, sim, em cogitar que a tendência é ter no segundo turno um nome da direita e outro da esquerda. Quais, entretanto, só as urnas dirão. É verdade que o PT e Pietá, dividindo os votos, correm o risco de ficar fora do segundo turno, mas também os nomes da direita podem dividir as preferências e verem dois outros candidatos na disputa final.
A favor de Lucas Sanches há o fato de que ele, nesse primeiro mandato de vereador, agiu de forma muito parecida com a que Guti usou para conquistar o Bom Clima: investiu nas redes sociais, centrou fogo em críticas à administração municipal e saiu candidato a deputado federal dois anos antes para manter o nome na memória do povo. Jovem, pode correr por fora e superar adversários. Há quem considere, entretanto, que ele pode vir a ser vice de alguém.
Mesmo sem demonstrar a mesma preocupação em se apresentar como “o candidato da direita”, o vereador Thiago Surfista está no Partido Novo, cujos apoiadores têm perfil conservador. Também não pode ser considerado carta fora do baralho. E há também quem cogite que ele acabe sendo candidato a vice.
O deputado Márcio Nakashima afirma que não quer ser rotulado como esquerda nem direita, nem está preocupado em ter apoio de Bolsonaro ou Lula. Assim, procura colocar-se como um nome alternativo para quem não queira estar em um ponto extremo, nem no outro.
O deputado Alencar Santana obteve agora o apoio do Avante, partido até então da base de apoio do prefeito Guti. Tem como principais nomes os ex-vereador Ramos da Padaria e Toninho Magalhães. Este foi, inclusive, secretário do Trabalho do governo Guti até recentemente. Ramos da Padaria era muito próximo da empresária Fran Corrêa, pré-candidata à Prefeitura, mas também cotada para ser vice de Pietá. Nas fotos ao lado de Alencar, Ramos e Toninho não parecem muito à vontade. Resta saber até que ponto estarão empenhados em defender o nome do deputado para a Prefeitura.
O mesmo raciocínio vale para os candidatos à vereança que estarão nos partidos que declararão apoio a Jorge Wilson. Como o voto não é vinculado, os candidatos podem se preocupar mais com a própria pele, deixando o eleitor à vontade para escolher o prefeiturável que quiser.
Candidato a vice não decide eleição, mas pode ter influência. Ninguém há negar que ter contado com Geraldo Alckmin na chapa foi de extrema valia para Lula voltar à Presidência, assim como foi muito útil ter o empresário José de Alencar como vice nas eleições de 2002 e 2006. Dessa forma, se Fran Corrêa vier a ser vice de Pietá, pode ser um reforço nas pretensões do ex-petista: ela teve 59.773 votos em 2020, ficando em terceiro lugar.
O nome para ser vice de Jorge Wilson só deve ser definido em meados do ano, quando das convenções partidárias homologatórias e após análise do resultado das pesquisas eleitorais que surgirão até lá.
Como o quadro eleitoral ainda é bastante nebuloso, eu não arrisco apostar sequer R$ 10 em nenhum nome por enquanto.
Valdir Carleto
