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E depois do dilúvio?

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Por Sérgio Scatolin

Desde o final de abril temos visto, diariamente, tantas cenas emocionantes, de algumas das cerca de 80 mil pessoas resgatadas ou salvas, seja por bombeiros, militares ou voluntários.

É um alento e também emociona ver o quanto de solidariedade nosso povo (e também de outras nações) consegue realizar concretamente.

No entanto, angustia saber que ainda há por volta de cem pessoas desaparecidas, e que esse número ainda pode crescer. Desses, quantos corpos serão encontrados, ainda, quando as águas finalmente baixarem?

Também nos emocionamos quando vemos vários dos 12 mil animais a salvo e amparados pelo trabalho valoroso de tanta gente que ama a natureza e se condói com essas criaturas. Mas, quantos animais de estimação, de rebanhos ou silvestres estão já afogados sob as águas barrentas?

É mais uma aflição: pensar em tudo que pode vir pela frente, agora que as águas estão baixando, como se pode antever com base em outras tragédias, como quando do furacão Katrina, que devastou Nova Orleans e outras cidades americanas em 2005, ou o terremoto de 2010, que destruiu o Haiti, dentre as catástrofes naturais que mais afligiram a humanidade neste milênio.

Não. A referência não tem como paradigma os números de vitimas fatais naquelas duas catástrofes naturais (foram 1.800 mortos apenas em Nova Orleans; mais de 230 mil no Haiti). Pela proporção (458 municípios afetados, 92,3% do total do estado) o que se busca naquelas duas grandes tragédias de referência para o Rio Grande do Sul relaciona-se ao que pode vir logo depois do longo e doloroso período de maior amplitude dos efeitos diretos das chuvas, cheias e inundações.

Além das tantas mortes, das centenas de feridos, dos milhares de desabrigados, dos mais de 500 mil desalojados, dentre mais de 2 milhões de pessoas afetadas, da falta de água potável e de alimentos, da destruição de casas, empresas e empregos, enfim das grandes perdas humanas e materiais, e dos crimes que, infelizmente, temos visto, lido e ouvido (estupros, saques e roubos, mentiras disseminadas, negacionismo, desinformações e outras barbáries), temos que nos preocupar desde já com o que há de vir adiante. A começar do risco de doenças, já latente, mas, infelizmente, tendente a crescer e agravar-se. Tanto após o Katrina, quanto depois do terremoto no Haiti, várias e sérias doencas assolaram fortemente as respectivas populações.

Imediatamente, há de se preocupar com as doenças, síndromes e transtornos decorrentes das águas sujas e infestadas ou da falta de água potável, além da precariedade de abrigos improvisados. Doenças graves devem surgir e assolar grande parte da população gaúcha, com maior impacto e gravidade nas localidades onde problemas sanitários e, principalmente, a desigualdade social, já existiam.

Disenteria, diarreias, desidratação, hepatites, gastroenterites, tifo, toxoplasmose, tétano, cólera, transtornos transmitidos por vetores, são algumas das moléstias que podem surgir quando as águas baixarem. Ou, mesmo, enquanto as águas permanecerem altas (a lepitospirose, por exemplo, é causada por contato com água contaminada por urina de ratos e a dengue é potencializada pelo grande volume de águas estacionadas, que propiciam a reprodução da fêmea do Aedes aegypti).

Além do mais, infecções graves podem surgir e até agravar outras doenças quando forem descobertos cadáveres e/ou carcaças em decomposição, hoje submersos. Sem contar a proliferação de animais peçonhentos, de insetos e pragas.

Outro fator relaciona-se ao agravamento de doenças importantes pré-existentes, nos casos em que os pacientes ficarem sem os medicamentos devidos, como nas diabetes, hipertensão ou doenças coronárias, por exemplo.

A situação tende a ficar mais grave com o início do frio intenso nesta segunda metade de maio e nos próximos meses, sem contar a fome, a desnutrição, a escassez de alimentos ou a insuficiência nutricional, também fatores de doenças. Doenças pulmonares e doenças respiratórias agudas são possibilidades possíveis para esse quadro.

Há mais: também precisa entrar no radar desde já a saúde mental, não apenas da população local tão flagelada e vitimizada, que sofre diretamente o trauma da luta pela sobrevivência e pelas perdas humanas e materiais. Profissionais e/ou voluntários também podem desenvolver síndromes e/ou transtornos mentais ou doenças psíquicas, devido ao estresse e à fadiga emocional.

Nos Estados Unidos, quando do Katrina, o cenário relativo à saúde mental foi evidenciado com o aumento de suicídios tanto entre habitantes vitimados, quanto entre socorristas (bombeiros, policiais, militares, médicos e outros profissionais, além dos voluntários, diretamente ligados aos trabalhos de busca, resgate, socorro e salvamento).

Os fortes impactos emocionais, os traumas ou os estresses pós-traumáticos também podem favorecer problemas cardíacos ou acidentes vasculares cerebrais (AVC), sem contar as possíveis sequelas emocionais, que podem perdurar.

Além das questões de saúde, há as preocupações econômicas (custo da reconstrução das infraestruturas, produções agrícola e industrial seriamente prejudicadas, redução ou redirecionamento de investimentos produtivos, possíveis desabastecimentos, aumento da inflação, falências de empresas…) e sociais (pessoas desabrigadas ou que perderam seus bens mais essenciais, carestia, fome, aumento da pobreza e das desigualdades sociais, aumento do desemprego, comprometimento do ano letivo em todos os níveis…).

Este texto não é alarmista, mas realista, calcado no aprendizado internacional e nacional com as trágicas experiências humanas de tristes memórias, sejam aquelas decorrentes de fenômenos naturais ou da ação humana.

É necessário e importante que todos os responsáveis (governantes, politicos, autoridades em geral e instâncias da sociedade civil), já comecem a pensar nas probabilidades e/ou possibilidades que estejam por vir, para que, desde agora, planejem ações, destinem recursos e disponham de meios para, se não evitar, ao menos mitigar as situações decorrentes, direta ou indiretamente, desta tragédia que aflige e angustia o povo gaúcho e o Brasil e que repercute mundo afora. Isto é o que se espera dos responsáveis.

Aos irresponsáveis, que cometem crimes, que roubam, saqueiam, estupram ou matam ou aos que criam ou propagam fake news, mentiras, desinformações ou teorias da conspiração; a esses todos, o que se espera é que sejam identificados e responsabilizados após os devidos processos legais. Se políticos, que sejam, além do mais, defenestrados pelos eleitores.

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