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Biólogo pisa em cobras para fazer pesquisa

A carreira científica do biólogo João Miguel Alves Nunes começou ainda na adolescência, quando fez o Ensino Médio e também o curso técnico em Meio Ambiente na Escola Técnica Estadual (Etec) Júlio de Mesquita, em Santo André.

O contato com professores e laboratórios apontou o caminho a seguir.

“A Etec formou minha base, foi ali que aprendi a estudar e desenvolver um pensamento científico que julgo importante para todas as áreas da vida”, diz o ex-aluno, formado em 2015.

Já no trabalho de conclusão de curso (TCC) mostrava talento para ciências, ao desenvolver um antibiótico à base de grama, digno de diversos prêmios. Até hoje, o orientador Genoilson de Brito Alves é responsável pelas disciplinas de Biologia e Química na unidade, além de uma grande inspiração para João Miguel.

“Ele fazia mestrado na Universidade de São Paulo (USP) e me despertou o interesse pela carreira acadêmica também”, diz o professor.

João formou-se em Biologia pela Universidade de Mogi das Cruzes, fez mestrado na Unesp e se prepara para o doutorado na USP. Ainda pensa em fazer pós-doutorado na área de comportamento de animais peçonhentos.

“No mestrado estudei especialmente o comportamento das cobras venenosas, agora estou expandindo para escorpiões”, revela João Miguel.

Pisando em cobras

Desenvolvido no Instituto Butantan, o estudo de mestrado utilizou 116 jararacas, nas quais João Miguel ‘pisou’ 40.480 vezes. A intenção nunca foi ferir os animais, mas entender os fatores que levam as cobras peçonhentas a atacar. “Eu pisei perto e levemente em cima das cobras, conta. Não coloquei todo o meu peso sobre o pé; portanto, não machuquei as cobras”, afirma.

A intenção do pesquisador também não era se machucar, mas alguns acidentes aconteceram. João foi ferido quatro vezes: em duas ocasiões precisou tomar soro antiofídico e perdeu um pedaço do dedo da mão. “O veneno da cobra é proteolítico, ele digere a carne”, comenta.

Atualmente, o Brasil registra uma média de 30 mil acidentes com cobras por ano, levando a 130 óbitos e muitas sequelas, inclusive com amputação de membros.

”No mundo, o número de ataques de cobras chega a 124 mil por ano, o que levou a revista científica Nature a publicar o estudo em 16 países, com réplicas em outras publicações nacionais e internacionais. Com nossas novas descobertas, podemos prever onde as picadas tendem a ocorrer e planejar melhor a distribuição do soro antivenenoso”, explica o pesquisador.

De volta à Etec

Aos 26 anos, João Miguel é pesquisador da Unesp, em vias de migrar para o departamento de Biologia da USP Leste, onde pretende fazer doutorado. É professor de Biologia para Ensino Fundamental e Médio em uma escola particular, mas não perde o vínculo com a Etec.

“Sempre que me chamam, faço questão de ir lá oferecer palestras e reencontrar os antigos professores. E jamais cobrarei por isso: é uma forma de retribuição”.

O próximo encontro ocorrerá após as férias escolares, em agosto, com espaço para dicas sobre a pesquisa científica e temas específicos de sua área de atuação. Mesmo que o retorno financeiro não seja o ideal, João Miguel considera o ofício apaixonante.

“Os cientistas brasileiros são muito bons, têm espaço de trabalho em diversos lugares do mundo. Sempre incentivo os alunos interessados a seguir carreira na ciência”, conclui.

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