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Desabafo: Estou em paz com minha consciência

MARCIO MONTEIRO

Em 17 de outubro, fez 52 anos que ingressei no Banco do Brasil, aprovado que fui em concurso público. Naquele 17/10/1972, entretanto, eu já trabalhava há quase 5 anos, pois comecei aos 14 anos.

Na adolescência, editei jornaizinhos de bairro, no Sapopemba; na escola estadual Anne Frank, onde fiz os últimos anos do Fundamental (Ginasial) e cursei o Ensino Médio (Colegial); e no Banco do Brasil da Vila Maria e em Guarulhos. Em 1977, fui um dos fundadores do Conselho Comunitário do Parque Cecap. Ali, iniciei a produzir o jornal ComunicAção, em 1979. No final de 1980, resolvi parar com o jornal, no qual atuava como voluntário, por discordar da atitude dos meus amigos da Diretoria, que se filiaram coletivamente ao PDS de Paulo Maluf. Encorajado por anunciantes e populares, decidi lançar o jornal Olho Vivo, em janeiro de 1981.

Era uma aventura concorrer com a Folha Metropolitana, do poderoso empresário Paschoal Thomeu. Até então, nenhum concorrente havia conseguido sobreviver, exceto o Diário de Guarulhos, do vereador “Professor Doutor José Ribamar Matos (com um t só) da Silva” (era assim que ele se referia a sim mesmo aos alunos, na FIG). O Olho Vivo começou mensal, passou a quinzenal em 1983; a semanal na década de 90, depois a bissemanal.

Em 1994, fui candidato a deputado federal pelo PSDB e não usei o jornal para alavancar minha campanha, na qual foi aplicado apenas valor equivalente a 5 mil dólares. Seriam hoje uns 27 mil reais, ridículo para uma campanha de deputado federal. Tive apenas 5.808 votos, dos quais 3.012 em Guarulhos. Agi de forma tão íntegra, que minha concorrente na cidade, Dalila Figueiredo, que quase se elegeu e pode ser que eu a tenha atrapalhado, passou a ser minha amiga desde então, até os dias de hoje.

Em 1995, saí do BB num Programa de Demissão Voluntária, para me dedicar integralmente ao jornal, vindo a me aposentar no ano 2000, quando o Olho Vivo já era trissemanal. Sentia que havia condições de virar diário, mas eu não queria um sócio capitalista, que viesse mandar na linha editorial, que eu fazia questão de manter independente. Em 2005, acabei acolhendo como sócio o jornalista Alexandre Polesi, filho de um dos fundadores do Diário do Grande ABC, Fausto Polesi. Em 2007, o Olho Vivo passou a ser Diário de Guarulhos, pois a marca estava disponível no INPI.

Polesi era muito competente, muito experiente como editor, mas nada entendia da parte comercial e administrativa. Começamos a discordar em vários aspectos. Antes que houvesse um rompimento drástico, em 2009, acordamos que ele compraria a outra metade da sociedade e tocaria o jornal sem mim. Infelizmente, o DG sucumbiu em 2015, acumulando dezenas de ações trabalhistas.

Eu e meu filho Fábio saímos, levando conosco a RG Revista Guarulhos e fundamos em outubro de 2009 a revista semanal Weekend, que foi absoluto sucesso. Financeiramente, porém, não se tornou rentável e Fábio saiu em 2017, buscando outros rumos, nos quais vem obtendo pleno êxito. Toquei sozinho as revistas até início de 2023, quando não foi mais possível manter os custos de produção.

Em 2015, iniciei o portal de notícias Click Guarulhos, com mínima estrutura. Já havia no mercado há muito tempo o portal GuarulhosWeb, bem sedimentado e bom número de seguidores. Tempos depois, surgiu o GruDiário, fundado pelos colegas Wellington Alves e Eurico Cruz. O empresário Décio Pompêo Jr., sentindo-se traído na venda do GuarulhosWeb, do qual era sócio, criou o G7News. Assim ficaram os quatro portais: GuarulhosWeb francamente apoiando o prefeito Guti; o Click Guarulhos e o GruDiário buscando manter o máximo de equilíbrio editorial, e o G7News fazendo oposição aberta a Guti e seus aliados. Nas redes sociais, apareceram dezenas de canais, cada qual com seu estilo e preferências político-partidárias, alguns confessadamente, outros de forma oculta.

Em 2020, minha filha, Simone Carleto, foi candidata a prefeita de Guarulhos pelo Psol. Fui surpreendido com a notícia; não participei da decisão. Lógico que votei nela e pedi a amigos que o fizessem. Mas não atuei diretamente na campanha e ela não teve sequer um centímetro a mais de espaço que outros candidatos nas revistas que eu editava, nem no Click Guarulhos.

A exemplo de como administrei o Olho Vivo nos 28 anos em que o dirigi, a exemplo de como toquei as revistas enquanto duraram, tenho exercido no Click Guarulhos o Jornalismo (com J maiúsculo) que entendo como verdadeiro: dar voz à população, publicar todas as reclamações, sejam contra quem forem, sempre procurando ouvir o que o outro lado tem a dizer em defesa ou esclarecimento. Desde 1981, os veículos que dirigi nunca dependeram do Poder Público, quaisquer que fossem os prefeitos, quaisquer que fossem os partidos no poder. Sempre me apoiei na iniciativa privada, conquistando anunciantes que almejam chegar ao público que nos segue. E felizmente sempre temos encontrado respaldo. Em raros períodos, somos “contemplados” com publicidade da Prefeitura, Sabesp ou governo estadual. Nunca mudamos a forma de agir, para conquistar esse ou aquele anunciante da esfera pública.

Agastado com as dezenas de processos aos quais respondi no Olho Vivo, sendo condenado até criminalmente e em várias ações cíveis, que muito me custaram, e com o amadurecimento que a idade traz, é evidente que não ajo com o mesmo ímpeto que me movia nos tempos do jornal. Aliás, a estrutura que o Click tem, mínima, não me permite exercer o jornalismo investigativo que o G7News tem feito, por exemplo. Mas, jamais deixei de postar denúncias das quais tive elementos comprobatórios suficientes. Muitas pautas com críticas ou sugestões à gestão Guti resultaram em atendimento em benefício da população. Outras foram ignoradas. Faz parte. Aqui se pratica Jornalismo, nunca política partidária.

Convidado a participar de sabatinas promovidas pelo colega Roberto Samuel, da TBL Comunicação, com os candidatos a prefeito, participei de todas, procurando fazer perguntas incômodas, que os colocavam em xeque, sem poupar nenhum deles. Xerife e Nakashima não compareceram. Na sabatina de Lucas Sanches, em um intervalo, fui até ele e a jornalista que o acompanhava e, buscando ser gentil, comentei que a expressão “ir de encontro” que ele usou em duas falas estava errada; que o sentido que ele quis dizer seria “ir ao encontro”. No final, na hora da foto com todos juntos, fora do ar, perguntei se ele achava certo trazer um vereador de Itaquá para ser candidato a vereador em Guarulhos. Ele respondeu secamente: “Certo é o seu prefeito!”. Retruquei, perguntando o que ele quis dizer com isso. Lucas posou para a foto e não me respondeu.

No debate do segundo turno na ACE Guarulhos, não fui sorteado para fazer perguntas, mas as assessorias concordaram que fizéssemos perguntas após o debate. Assim, dirigi-me a ele e perguntei a respeito da assinatura, reconhecida em cartório, no contrato denunciado por seu ex-chefe de gabinete, no qual dividiu os cargos mediante o investimento de R$ 80 mil feito por Caíque Marcatt. Lucas não respondeu, dizendo simplesmente que irá responder na Justiça a todos os ataques que recebeu, “inclusive do senhor, que certamente está preocupado em perder a mamata”. Retruquei, afirmando que não aceito que ele me ofenda e garanti que para mim, nunca houve mamata. Ele insistiu: “Vai acabar a mamata, vai acabar a mamata”.

Relatei o ocorrido aqui no Click Guarulhos e postei matéria com vários links de postagens que mostram claramente o quanto tem sido imparcial a linha editorial do Click Guarulhos. Em 2015, já havíamos postado Lucas Sanches denunciando existência de buracos no bairro da Ponte Grande. Durante a campanha deste ano, fizemos perguntas impertinentes a todos os candidatos.

Diante do que revelei, muitos internautas manifestaram-me solidariedade. Um anunciante amigo até chegou a falar com outros comunicadores, tentando convencê-los a lançar um manifesto em meu apoio, sem êxito. Em grupos de WhatsApp, tenho visto, com alegria e justificado orgulho, menções elogiosas ao meu modo de agir no Jornalismo. Agradeço a cada um que as tem feito e peço licença para não enumerá-los, para evitar injustiças.

Várias pesquisas indicam vitória de Lucas Sanches na eleição deste domingo. Seja qual for o resultado das urnas, respeitarei, como sempre fiz. A vontade do povo é soberana até quando eleitores trocam votos por esmolas que jamais mudaram sua vida, mas prejudicam a população coletivamente. E isto tem ocorrido seguidamente, eleição após eleição. É voz corrente, mas como não tem havido provas, nada acontece. Talvez isso explique a péssima qualidade das recentes legislaturas da Câmara Municipal. A vontade do povo é soberana, mesmo quando ele se deixa enganar por discursos vazios e promessas vãs. Mesmo quando o povo se deixa enganar por uma campanha caríssima, custeada com recursos do Fundo Eleitoral, portanto paga pelo próprio povo.

Graças a Deus, tenho ótimo relacionamento com os colegas jornalistas e concorrentes, de forma geral. Respeito as preferências e decisões de cada um.

Como cidadão e munícipe, torço pela cidade. Qualquer que seja o vencedor, que faça uma gestão digna, que faça o melhor que puder pela população, principalmente a que mora nos lugares mais precários de Guarulhos.

Assim como sempre fiz, nada espero do Poder Público para o Click Guarulhos. Mantenho hábitos muito simples e sobrevivo de minha aposentadoria. Há dias nos quais somo até 16 horas de trabalho e, ainda assim, a receita líquida do portal não cobre sequer meu plano de saúde. Mas é necessário que o faturamento seja suficiente ao menos para cobrir a mínima estrutura para funcionamento.

Manterei, na íntegra, a linha editorial do Click Guarulhos que sempre nos caracterizou, enquanto houver apoio da iniciativa privada, enquanto houver anunciantes que prefiram prestigiar a verdade, enquanto houver internautas dispostos a contribuir mensalmente ou anualmente para receber os boletins diários de notícias que enviamos em listas de transmissão, aos quais somos eternamente gratos. Se chegar o momento em que não haja mais condições de manter o Click Guarulhos, poderei me dedicar à atividade de edição de livros, para continuar me sentindo útil e obtendo ganhos para que possa viajar de vez em quando e desfrutar da vida com saúde.

De qualquer forma, estou em paz com minha consciência. E é isso o que realmente importa, aos 71 anos de idade, 54 anos trabalhando. Sem mamata.

Valdir Carleto

(foto de Márcio Monteiro, de cena do monólogo “Versos Roubados”)






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