No Dia do Professor, a história de Marilena Gonçalves, de 73 anos, serve como um retrato inspirador, e raro, em meio à crise silenciosa que ameaça o futuro da educação no Brasil. Há meio século, ela leciona na mesma unidade da Escola Suíço-Brasileira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde já ensinou três gerações de uma mesma família. Sua trajetória, marcada por amor, constância e dedicação, contrasta com a realidade de um país que pode enfrentar um déficit de 235 mil docentes até 2040, segundo estudo do Semesp.
Em um cenário em que a profissão de professor se tornou sinônimo de desvalorização, salários baixos e contratos precários, Marilena representa a resistência. “Já chamei pais de alunos para reuniões que foram meus próprios ex-alunos. É uma sensação muito especial”, conta. No pátio da escola, os abraços e sorrisos de ex-alunos e colegas revelam o elo afetivo construído ao longo das décadas, um elo que desafia o tempo e a própria lógica de rotatividade que hoje domina a educação básica brasileira.
Quando começou a lecionar, em 1975, o som do mimeógrafo e o cheiro do álcool impregnado nas folhas faziam parte do cotidiano. O professor era a figura central, o saber vinha do livro e da lousa. Meio século depois, Marilena vê os alunos digitando em tablets, as aulas híbridas, e a inteligência artificial invadindo as rotinas escolares. “Pensei que não conseguiria me adaptar, especialmente na pandemia, quando tive que dar aula pelo computador. Mas aprendi e descobri que a tecnologia pode ser uma aliada, desde que não substitua o olhar, o cuidado e o afeto que definem o ensino”, reflete.
Sua história também é atravessada por transformações sociais e políticas: começou a ensinar durante a ditadura militar, testemunhou a redemocratização, a chegada dos computadores, da internet e, mais recentemente, a revolução digital. No entanto, o que mais a marcou não foram as mudanças tecnológicas, mas as humanas. “Ver ex-alunas se tornarem professoras é uma das maiores recompensas. Saber que de alguma forma influenciei essa escolha me enche de orgulho”, diz.
Entre essas ex-alunas está Daniella Peine Birkeland, que hoje também é educadora. “A professora Marilena foi inspiração. Carrego comigo o respeito, a ética e o amor pela profissão que aprendi com ela”, afirma. Já Karin Sodré, que seguiu carreira na advocacia, lembra com carinho das aulas de redação. “Ela despertou em mim o gosto pela leitura e pela escrita. Mais do que uma professora, era alguém que acreditava no potencial de cada aluno.”
O exemplo de Marilena é ainda mais potente diante dos dados alarmantes sobre o futuro da docência no país. A projeção de falta de professores até 2040 se soma a um quadro preocupante de envelhecimento do corpo docente e de abandono da carreira. Segundo o Censo Escolar 2024, pelo terceiro ano consecutivo, a maioria dos professores da educação básica está contratada em regime temporário, sem estabilidade ou plano de carreira. Além disso, cerca de 80% da categoria é composta por mulheres, mas essa predominância não se traduz em valorização.
Enquanto o país convive com a evasão crescente dos jovens da licenciatura e a precarização do trabalho docente, histórias como a de Marilena mostram que ainda é possível acreditar na educação como um projeto de vida. Mas, como ela própria ressalta, “é preciso mais do que vocação: é necessário ter condições dignas de trabalho e respeito pela profissão”.
Ao completar 50 anos de sala de aula, Marilena reflete sobre o futuro. “Podemos usar todas as inovações tecnológicas, mas é a presença humana, o olhar que acolhe, a palavra que encoraja, o gesto que reconhece, que realmente marcam a vida de um estudante. Nenhuma máquina pode substituir isso.”
Hoje, mesmo aposentada, ela segue lecionando três vezes por semana, por escolha e por amor. “Posso parar a qualquer momento, mas enquanto estiver me fazendo bem, vou continuar. Ainda sinto o mesmo prazer de abrir a porta da sala de aula.”
Sua permanência simboliza o que falta à educação brasileira: continuidade, reconhecimento e propósito. Em um país onde o ensino é constantemente ameaçado pela desvalorização e pela falta de políticas efetivas, a história de Marilena Gonçalves é uma lição viva sobre o poder transformador do professor e a urgência de valorizar quem dedica a vida a formar gerações inteiras.
No fim, sua trajetória ensina que a educação não é apenas um ofício, mas um compromisso coletivo. E enquanto houver professoras como Marilena, o futuro da sala de aula continuará sendo escrito, com giz, com teclado, e, acima de tudo, com humanidade.
