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Assassinos sem querer querendo

São cidadãos barbados, muitos já são pais, outros são avós. Uns tantos já aposentados, outros exercendo as mais variadas profissões. Têm como lazer empinar pipas. Brincadeira inocente que inúmeros idosos atuais praticaram quando crianças.

A diferença de uns tempos para cá é que são utilizadas linhas com cerol, ou seja, uma mistura de cola e vidro moído que é aplicada à linha para que ela se torne cortante. Assim, quem a utiliza obtém mais vantagem para cortar a linha de outro empinador de pipas. Esta é a brincadeira atual. Não se trata de conseguir fazer com que sua pipa suba até o ponto mais alto, tão alto que quase desapareça no horizonte, como era antigamente. O grande prazer atual é destruir a brincadeira dos outros, é arrastar para si a pipa que outro empina ou, na pior das hipóteses, fazer com que ela fique solta no ar e vá caindo em caracol em qualquer lugar.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, inventaram uma tal de linha chilena, que já é vendida com material cortante. Os “crianções” que gostam de empinar pipas adoraram e exibem orgulhosos carretéis imensos com linhas roxas, verdes, azuis e de outras cores. Nada parecido com os carreteizinhos que eu usava na minha infância, empinando minhas “capuchetas” feitas com uma folha de jornal, que nem varetas de bambu tinham.

Diante desse hábito nocivo que muita gente pratica, começaram a ser relatados casos de motociclistas e outros que se feriram com as linhas contendo cortantes, incluindo casos fatais. Têm sido tantas mortes causadas por esse tipo de “acidente”, que quase nem têm mais sido noticiadas, pois viraram lugar comum. Como diria o confrade José Roberto Jerônimo, casos que notoriamente poderiam ser evitados não são acidentes, mas sinistros.

Passando de carro por uma rua pacata perto da minha casa, deparo-me com um marmanjo de uns 40 anos, empinando pipa com linha chilena. Não me contenho e paro para conversar:

— Amigo, sabia que usando esse tipo de linha você põe em risco a vida de muitas pessoas? Têm havido mortes de gente que se fere com essas linhas. Se pega no pescoço, pode romper uma veia importante e não haver tempo para socorro.

— É nosso lazer. Fazer o quê, né? Cada um que se cuide! Motoqueiro que use antena pra se defender da linha. Este é o único lazer que temos! – responde o “adolescente”.

— Assassino em potencial é o que você é — retruco.

— Vá cuidar da sua vida! – esbravejou ele, encerrando a conversa.

— Estou cuidando. – disse eu e fui embora, agradecendo a Deus por nunca ter sequer pretendido andar armado.

Assim como ele, há milhares de assassinos sem querer querendo, como diria o personagem Chaves.

De vez em quando, para não dizerem que nada fazem para combater, autoridades vêm a público apregoar que apreenderam material com alguém que estava empinando pipas com linhas cortantes.

Mas todo mundo sabe que há locais que concentram esses assassinos em potencial. Só as autoridades não sabem. Todo mundo sabe que há lojinhas em praticamente todos os bairros, que vendem pipas e materiais cortantes. Só as autoridades não sabem.

De onde se conclui que, sem querer querendo, autoridades também são, por conivência e inércia, assassinos em potencial.

Valdir Carleto

(artigo publicado na edição no. 27 da Revista da Academia Guarulhense de Letras)

P.S.: Ao procurar foto de linha chilena na internet, verifiquei que há inúmeros canais de venda desse produto nocivo, agindo livremente. A foto que ilustrar este artigo refere-se ao sinistro provocado em um menino de cinco anos, que teve o pescoço cortado e preciso levar vários pontos. Os assassinos em potencial estão à solta e os comerciantes de armas em forma de linhas continuam acobertados por autoridades coniventes.

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