Conforme postado no dia 25.2, quarta-feira, as escolas estaduais de Guarulhos tiveram resultados positivos no Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo). Para tratar do assunto, ouvimos, com exclusividade, a coordenadora geral/dirigente de Ensino Guarulhos-Sul, Maria Aparecida do Nascimento Barretos, a Cida Barretos, como é conhecida nos meios educacionais da cidade.
Como avalia os resultados relativos às escolas de sua jurisdição?
Nós estávamos ansiosos para receber esses resultados e os avaliamos de uma forma muito positiva, pois as escolas apresentaram avanços significativos em relação aos anteriores, especialmente se comparar com os de 2023, quando os efeitos da pandemia ainda eram sentidos de forma mais presente. Ficamos felizes em ver o quanto nós crescemos, o quanto foi consistente esse trabalho, demonstrando uma evolução concreta no que diz respeito à Língua Portuguesa e Matemática. No pós-pandemia, os alunos retornaram do tempo em que ficaram sem estudar. Foram voltando e em 2023 o resultado foi muito baixo. O que era preciso fazer? Trabalhar, fazer as recomposições, e chegamos a novos patamares animadores, tanto em Língua Portuguesa, quanto em Matemática, e isso referente tanto aos alunos do 5º. ano quanto do 9º. ano. Muito significativo ver essa melhora na fluência leitora, assim como no domínio das quatro operações matemáticas, compatíveis com cada nível de ensino. Mas, é evidente que há muito a melhorar e estamos trabalhando em conjunto com cada uma das escolas nesse sentido.
Ao falar de quinto ano, ainda é grande a participação das escolas estaduais no primeiro ciclo do ensino fundamental, mesmo sendo um nível maciçamente assumido pela rede municipal?
Sim, com certeza. Aqui na Sul são 22 escolas, totalizando em torno de 8.500 alunos. Somando as da Norte, chega a umas 50.
É possível destacar algum tipo de esforço específico que tenha sido posto em prática para melhorar os resultados obtidos no Saresp?
Sim! E esse esforço, na verdade, foi de toda a Secretaria da Educação e das Unidades Regionais de Ensino. Houve um investimento muito grande na formação continuada dos professores, com o programa Multiplica; o planejamento de aulas pela Efape – Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação, que compõem o ATPC (Aulas de Trabalho Pedagógico Coletivo) dos professores. Então, é uma formação sobre os conteúdos, sobre as recuperações, as recomposições de aprendizado. Na verdade, é um conjunto de esforços, incluindo a ampliação das escolas de período integral, de 2023 para 2025, tanto dos anos iniciais como dos anos finais. Destaco também a implementação das plataformas educacionais, que vieram para complementar as ferramentas que o professor possui, as que ele domina, do ensino de Língua Portuguesa e Matemática. As plataformas vieram não para substituir, mas para ser um implemento, fortalecendo o ensino de Matemática e Língua Portuguesa, como, por exemplo, a leitura e a redação. Nós temos os jogos matemáticos no Matific e isso é muito importante. Além dessas políticas estruturadas, tivemos recomposição de aprendizagens, com material muito bem feito, reforço de tutoria dos alunos… Tudo isso comprovado através de dados: nós realizávamos as provas, as avaliações dos diagnósticos, as avaliações do desenvolvimento do ano, do trimestre, as provas paulistas. E ali nós tínhamos resultados detalhados do aluno, onde ele estava, quais eram as necessidades, o que ele ainda não tinha aprendido, o que ele estava em defasagem. E aí entrou o reforço em algumas escolas, o professor-tutor, que pegava desde o que o aluno tinha deixado de aprender até o reforço, que era a recuperação. Tivemos também o professor de orientação do futuro, focado nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, em um processo de recuperação, com material específico, não o mesmo material da sala de aula. Aliás, segundo falas dos próprios professores, um material muito bem feito, que foi fundamental para o acompanhamento sistemático do pedagógico pelas Diretorias e Unidades Regionais. Isso foi fundamental porque nós pudemos fazer in loco as intervenções e procurar sermos mais assertivos, mas sempre olhando a realidade da escola, com os professores, com a equipe de escola.
Há uma relação direta entre o tal Provão Paulista com a participação maior de alunos no Saresp?
Com certeza, porque o Provão Paulista constitui uma porta de entrada do nosso aluno às universidades. E eu acredito muito que isso contribui para fortalecer aquela cultura da participação em avaliações externas. Nossos alunos, por muito tempo, não olharam para as avaliações externas com seriedade; achavam que era só mais uma avaliação. A partir do momento que essas avaliações passaram a ter um efeito prático, a forma de vê-las mudou. Nós tivemos aqui em Guarulhos dois alunos que ingressaram em Medicina. No ano passado, tivemos um, mas tivemos vários alunos em Arquitetura, Psicologia, na USP e em outras universidades. A participação com maior seriedade no Saresp teve uma inegável contribuição do Provão Paulista. O engajamento que os alunos demonstraram, pensando no compromisso de estudar, deveu-se também a um trabalho que fizemos nas escolas, conversando com os alunos, os próprios gestores, professores… Foi conversado sobre a importância dele olhar para o estudo com seriedade e com mais assiduidade, porque ele está construindo o futuro dele. Nós tivemos um aumento para 86% na frequência. Acho que em Guarulhos inteira, teve um aumento para quase 90% na frequência. Isso foi muito bom, creio que tem uma ligação direta.
Com o avanço da tecnologia, parece serem maiores os desafios para prender a atenção dos alunos. Há alguma técnica que esteja sendo empregada para fazer com que eles prestem atenção à aula?
Os professores encontraram novas técnicas para trabalhar os conteúdos. Mas nós tivemos um ponto que foi principal: a proibição, através de uma legislação específica federal e estadual, do uso de celulares em sala de aula. E trabalhar com alunos, o que é informação e o que é formação, que é o que ele está tendo ali na aula. Informação muitas vezes nem se sabe qual a origem! É uma luta difícil, mas o professor, principalmente o de tecnologia, atuou com a formação dos outros professores, utilizando metodologias inovadoras, fortalecimento dessas ações conjuntas de leitura, de jogos durante as aulas. Isso envolveu o aluno. Quando você tem um ambiente criativo, aulas criativas, existe um resultado mais eficaz de participação do aluno. As tecnologias ativas tiveram muita influência. Tem ensino baseado em problemas, tem aprendizagem cooperativa, trabalho em grupos. Acho que foi todo um processo aí. Mas, sim, ainda temos essa luta com o domínio das redes sociais, da tecnologia.
De certa forma, os professores tiveram de se reinventar também?
Reinventar, sim. A formação deles foi importante, porque olharam para isso não como inimigo, mas como uma ajuda para fortalecer o ensino, a forma dele trabalhar. O professor foi pontual e proativo.
Temos ouvido de recrutadores nas agências de empregos, nas empresas, que há alunos que chegam já no nível médio e que têm uma dificuldade imensa de leitura e para escrever. Tem-se ideia de qual é o índice de alunos que conseguem chegar ao Ensino Médio sem estar efetivamente alfabetizados?
É difícil falar essa média, sem ter os dados de cada unidade escolar. Mas, falo pelo que estou acompanhando, tendo por base o ensino profissionalizante. O que temos visto, principalmente nessa questão de procura de emprego, é que tem havido um bom desenvolvimento, ainda que não seja maravilhoso. Vemos estagiários sendo efetivados ainda durante o estágio. E nós procuramos trabalhar com isso também, tanto nas defasagens do primeiro ano do Ensino Médio, como no segundo ano, e, ainda, com professor-tutor para o Ensino Médio, para as aulas de orientação do estudo.
Está mais do que comprovado que o hábito da leitura traz inúmeros benefícios ao ser humano de uma forma geral. É o hábito que ajuda a aprimorar a escrita e quem escreve melhor sai-se bem em inúmeras atividades. Em tempos de domínio das redes sociais, como dirigente, no contato que tem com as escolas, com os alunos, ainda vê futuro no livro impresso?
Como eu poderia não ver um futuro no livro impresso? É fundamental. Nós fomos de uma fase em que nós só tínhamos o livro impresso, que nos levava a sonhar, a ir visitar outros lugares, outros países, viajar na imaginação. Não tem o que possa substituir isso. A tecnologia vem complementar; substituir, não. Há características do livro impresso, que são a leitura profunda, a concentração, menor distração, o que propicia maior retenção do conteúdo. Nós, na Secretaria da Educação, temos investido muito em abrir as salas de leitura, porque esses ambientes é que são principais. Na plataforma Leia há uma extensa opção de autores e o acesso ao mesmo autor para todos é uma boa ação pedagógica. Acredito que o professor realizando de forma dinâmica e apaixonante a leitura na sala de leitura, o pegar o livro e sentir é uma experiência que não se esquece e deve ser realizada.
Quer deixar uma mensagem aos professores da rede, que foram partícipes importantíssimos dessa conquista?
Foram fundamentais: nada acontece sem os professores. Quero dizer que eles têm toda a minha gratidão e o reconhecimento pelo seu trabalho. Os bons resultados do Saresp não acontecem por acaso. São fruto do trabalho deles, da dedicação em sala de aula, do planejamento. Educar é um ofício humano. Os professores olharam para esses alunos com humanidade. O compromisso diante dos desafios foi enorme, fortalecer a frequência dos alunos… Os professores, os coordenadores, todos entenderam a importância do esforço de cada um. Parabenizo a todos da equipe da Secretaria da Educação em Guarulhos, cada um em sua função. O papel de cada um foi importante.
E para as famílias dos alunos, qual a mensagem?
É importantíssima a participação das famílias. Fundamental para as conquistas dos alunos ir às escolas, entender o trabalho de cada profissional, acompanhando a frequência, encorajando seus filhos com palavras de otimismo, estimular a autoconfiança. Agradeço às famílias e as parabenizo pelo desempenho de seus filhos. Em 2025, tivemos muitos prêmios, conquistas, em Matemática, de Língua Portuguesa… Vimos a alegria das famílias, o quanto receberam isso com orgulho. E isso é confortante. Que continuem acompanhando-os, não apenas focando nas avaliações, mas no cotidiano, de forma integral, pois a missão de educar as crianças e os jovens é de todos.
(texto editado às 7h39 da sexta-feira, 27.2)
