A epifania de Belém

Adoração do Magos – de Domenikos Theotocopaulus – 1568

A chamada Adoração dos Magos, ou reconhecimento da divindade de Jesus de Nazaré por três enigmáticas personagens vindas do Oriente, é citada somente em um dos evangelhos do Cristianismo e, portanto, nada se pode materialmente provar sobre o seu fato. Mas, simbolicamente, o nascimento do filho de José e Maria, em Belém, pode representar o surgimento da grande e última Tradição que se alicerça ou confirma os preceitos da mais elevada ética ou princípios sagrados que reconhecem a natureza divina do homem.

Para alguns pensadores, a Tradição Cristã, – que têm início com a criação de uma religião oficial pelo Império Romano, na época, e deu origem a muitas outras com os mesmos princípios que se espalharam para o Mundo e se mantem até os dias de hoje, – tem seu berço no judaísmo, já que a própria família de Jesus possui profundas raízes históricas com os descentes do próprio Adão, bem como Noé, Abraão e Moisés, os grandes patriarcas judeus.

Assim, a presença de três enigmáticas personagens diante do berço da profética criança pode representar, também, a vinculação ou reconhecimento das três grandes e anteriores tradições do oriente, qual seja o Hinduísmo, o Budismo e o Zoroastrismo, àquela que – pelo ato da natividade – completaria, assim, as cinco grandes Tradições do Mundo Moderno e que deu origem a inúmeras outras religiões ou crenças espalhadas entre os povos atuais.

De qualquer forma, o simbolismo da união, ou comunhão festiva de reconhecimento, entre o casal judaico  – José, o descendente da Casa Real de David, e sua esposa israelita Maria – com três reis, ou sacerdotes, vindos do Oriente, é uma belíssima alegoria ou metáfora para o pensamento humano, já que os presentes trazem em seus significados, também, a essência das virtudes reconhecidas teologais que são a Fé, a Esperança e a Caridade. Portanto, o que se pode desenhar ao pensamento humano, ainda, na figura de adoração dos cinco personagens que se encontram na epifania e se curvam diante d’Aquele que nasceu, por interferência divina, é a construção de um novo tempo, ou mesmo do templo profetizado que perdura por mais de dois mil anos e nos ensina a necessidade de amarmos nossos semelhantes como a  nós mesmos.

(José Paulo Ferrari – Dia de Reis, 2019)