Por Val Oliveira
Fotos: Marcelo Santos, Marcelo Ferreira, banco de imagens e arquivo pessoal

Qual é o estilo de dança que tem como característica produzir sons com os pés, a partir de um sapato de couro, com chapinhas de metal na ponta e no salto, marcando e harmonizando os ritmos, alternando os tempos e trazendo musicalidade, como se fosse um instrumento de percussão? Qual a origem dessa arte? O que a torna mais atraente, se comparada com outros tipos de danças? Praticá-la colabora para a manutenção da boa forma física? Como a dança pode ajudar no desenvolvimento cognitivo das crianças, proporcionar momentos felizes e servir como terapia após um dia estressante? De que forma o estilo “abraçou” crianças da periferia de Campinas, interior de São Paulo, e as livrou da criminalidade, acenando com um futuro digno por meio da dança? A seguir, vamos “viajar” no ritmo e balanço do sapateado.

sapatosOrigens

De acordo com Bruna Nascimento, bailarina clássica formada pela Royal Academy of Dance e professora de sapateado americano e balé clássico na Escola de Dança Rita Camilo, apesar de não se ter registros que apontem a origem exata do sapateado, as primeiras manifestações aconteceram em meados do século V. “Depois, já no período da Revolução Industrial, há relatos de que os operários usavam tamancos e organizavam competições para ver quem conseguia fazer o maior número de sons com os pés. Ao longo do tempo, os sapatos foram adaptados para melhorar o som. Foram fixadas moedas nas solas, placas finas de pedra, solado de madeira e de couro, até chegar à versão atual, com chapinhas de metal”, explica.

A arte de sapatear segue duas vertentes, por assim dizer: o estilo americano e o irlandês. “O americano surgiu a partir da junção de ritmos e danças dos escravos, que já tinham um estilo próprio de dança, com o sapateado dançado pelos imigrantes irlandeses e colonizadores ingleses. A diferença é que na forma irlandesa os movimentos se concentram nos pés e o tronco permanece rígido, ao passo que o americano inclui ritmos e movimentos com o corpo todo. Assim, permite que o sapateador execute o movimento com os pés, para produzir o som, e ao mesmo tempo, que se expresse com o corpo de maneira livre e espontânea. A partir da década de 1930, grandes musicais começaram a propagar a dança, que cresceu e hoje tem muitos adeptos pelo mundo”, detalha Bruna, dizendo também que o grande atrativo do sapateado é justamente a liberdade; um paradoxo, considerando que o estilo nasceu pelos pés dos escravos.

Para corroborar com que diz a bailarina, os cinéfilos, em especial os apreciadores de filmes antigos, provavelmente se lembram de nomes como Fred Astaire, Gene Kelly, Ginger Rogers, Vera-Ellen e Eleanor Powell, dançarinos que ajudaram a popularizar os musicais, recheados com passos de sapateado. Entre os clássicos das telonas que retratam bem o sapateado estão os inesquecíveis “Dançando na Chuva” e o não tão antigo assim “Happy Feet”.

AlessConexãoIO Sapateado e o Flamenco

O sapateado e o flamenco podem ser chamados de parentes próximos? De acordo com Aless Gutiérrez, professora de espanhol, flamenco e pasodoble, esse parentesco existe, mas convém explicar que são primos em grau distante:
“O flamenco sem o sapateado não é flamenco. Mas, a palavra sapateado não é usada no vocabulário e sim, taconeo. Inclusive, os sapatos de flamenco também são uma parte muito importante no baile. Mas, deve-se ressaltar que o taconeo na dança flamenca se difere do sapateado americano e do sapateado irlandês, pois é uma arte única e própria. Na dança indiana, por exemplo, podemos citar o khatak, no qual a (o) bailarina (o) bate fortemente os pés no chão e nos seus tornozelos estão presos os chocalhos”, explica Aless, garantindo que a dança tem o poder de, além de trabalhar os músculos, restaurar a autoestima e melhorar o estado emocional, de modo geral.

sapateado-(2)Sem fronteiras ou barreiras

A professora Bruna revela que tudo depende do desenvolvimento e da coordenação motora de cada um, mas, com poucos meses de aula, já é possível executar uma coreografia, com movimentos mais simples e que, a partir de dois anos de treino, o sapateador já consegue executar uma sequência mais elaborada e mais difícil tecnicamente e que não é necessário ter um biotipo ou qualidades específicas para praticar. “O sapateado acolhe a todos e não há limite de idade ou diferença entre homens e mulheres, embora a maioria dos grandes nomes deste meio seja de homens como Fred Astaire, Bill Bojangles, Gene Kelly, Gregory Hines, dos primórdios. Atualmente temos grandes exemplos como Charles Renato, Luyz Baldijão, Jason Samuels Smith, Steven Harper entre outros”, destaca.

Benefícios

O sapateado envolve muitas habilidades e pode colaborar para a recuperação da autoestima, bem como ajudar na inserção de atividade física na rotina e, dessa forma, conseguir uma vida mais saudável e feliz; com o bem-estar, a autoestima aparece. Além da força e da coordenação motora, há o ritmo, a musicalidade, o equilíbrio, a percepção espacial, entre outras. Mas, a profissional garante que tudo isso é trabalhado de maneira lúdica, envolvente, progressiva e que o “equipamento” imprescindível é apenas um par de sapatos.
“Com as sequências e coreografias, a memória e raciocínio são trabalhados, mantendo a mente saudável. Isso sem contar a interação social e descontração que há nas aulas. Para crianças hiperativas, ele funciona como uma válvula de escape, estimulando a criatividade. Como toda atividade física, o sapateado ajuda a manter o corpo saudável e os músculos ativos. Quanto ao sapato, o ideal é que tenha o solado firme e seja pelo menos um número maior do que o de costume, o que possibilita o uso de meia. O modelo ‘boneca’, que tem o fecho de fivela, é mais indicado para crianças e iniciantes. Já o modelo de cadarço pode ser usado por todas as idades, pois tem opções para o iniciante até o profissional”, indica Bruna.

Minha dança, minha vida!

O sapateado não é somente movimento e som. Para muitas pessoas, é um estilo de vida muito prazeroso. Colhemos alguns depoimentos de alunas da Escola de Dança Rita Camillo.

Escola-de-Danca-Rita-Camilo-MS-48A pequena Julia Andrade, 6, está no sapateado há cerca de seis meses, e escolheu pessoalmente o estilo. Ela diz que ao ver a amiga Mel dançando, desejou seguir os mesmos passos. Josenilton da Costa, 47, pai de Julia, a leva às aulas e confessa que a dança o encanta. Quando ela chegou com essa novidade de querer praticar o sapateado, eu e minha esposa ficamos surpresos e apoiamos, pois achamos interessante ter partido dela. Nestes meses de sapateado, a Julia já está diferente. Percebi um desenvolvimento maior na musculatura e agilidade. O raciocínio parece estar mais rápido”, fala Josenilton.

Patricia Rubira, 42, é formada em sapateado e pratica a dança há 20 anos. Depois de uma pequena pausa, retornou há três anos e frequenta as aulas com a filha Bruna Rubira, 9.  “É muito alegre e funciona como uma terapia, pois consigo mandar o estresse para longe e saio daqui renovada. Entendo que o sapateado contribui para que a criança fique mais disciplinada, pois há regra para tudo. É um aprendizado que, com o passar do tempo, vai fazer parte da personalidade dela. A Bruninha é muito agitada, tentou fazer balé e não conseguia se concentrar. Já no sapateado, por ser uma dança que exige mais energia, deu certo”, conta.

dança-sapateadoMaria Emiliana Belmonte Lopes, 70, e a netinha Ana Flávia Belmonte Takahashi, 8, vão juntas para a escola.

“O sapateado tem uma beleza singular que me fascina. Estar aqui me permite conviver com pessoas de diferentes idades. Estou mais feliz e disposta. A Ana Flávia está gostando e vem para a aula comigo. Acho que as crianças ficam mais desinibidas, gastam energia, e é uma coisa que, se levada a sério, pode ser a profissão na vida adulta. Não importa a idade, sempre há espaço e tempo para sonhar e realizar. Eu recomecei agora, aos 70 anos, estou adorando e vou continuar até o fim” fala, com a emoção de quem sempre quis e esperou muito por este momento.

Escola-de-Danca-Rita-Camilo-MS-22Maria Vitória Felix dos Santos, 19, faz sapateado há dois anos e diz que a prática lhe trouxe benefícios. “Eu olhava, achava lindo, mas pensava que não era para mim. Acabei percebendo que o estilo não tem restrições e hoje acho que ele despertou em mim um amor maior pela dança. Sempre gostei de dança, mas com o sapateado essa ligação com a arte aumentou e tornou-se um dos estilos favoritos. Também melhorou a minha percepção de ritmo, que no sapateado é essencial”, expõe.

Catarina Soares, 13, praticou sapateado por três anos. Após uma pausa, retornou às atividades. “Entendo o sapateado como uma terapia que acalma. É algo agitado, mas que te deixa segura e relaxada. É gostoso e acaba sendo algo exótico, pois não é todo mundo que faz. Entretanto, é preciso ter paciência de ir até o final”, diz.

Sapateado, dignidade e altruísmo “Meninos Sapateadores de Campinas”

O sapateador Luyz Baldijão, 53, que também é engenheiro agrônomo, realiza trabalho social reconhecido mundialmente. Ele ensina sobre a arte de sapatear e abre portas para o futuro para meninos da periferia de Campinas, interior de São Paulo. O “Meninos Sapateadores de Campinas” é um projeto que atualmente alcança 90 crianças, entre seis e 14 anos, e tem o amparo da Igreja Metodista Central, que é a mantenedora da Associação Beneficente Campineira.

Mas, nem sempre foi assim. No início do projeto, em 1990, que tinha como objetivo principal arrebanhar apenas meninos negros, no Jardim São Marcos, região em que o tráfico de drogas e a violência ainda são marcantes, o “sonhador” Luyz, em companhia da amiga Valquíria, uma professora de inglês que também busca um mundo melhor para todos, iniciou um trabalho de formiguinha. Com recursos próprios e muita vontade de fazer a diferença, colocou a mão na massa e partiu para a batalha.

meninos sapateadores de campinas“Eu tinha uma escola de sapateado e decidi custear o transporte e o lanche para que 20 meninos pudessem frequentar as minhas aulas. Ao final do período, em 1993, apenas um permanecia. Ele é Reginaldo, que tinha entre 13 e 14 anos, e passou a ser meu colaborador na escola. Trabalhando com o sapateado, hoje ele é casado e formado em enfermagem. Um orgulho para mim”, relata.

A vida seguiu seu curso e muita sola de sapato foi gasta, literalmente, em prol de melhores condições de vida para as crianças menos favorecidas de Campinas. Em 2006, ao organizar um grupo de alunos para se apresentarem em Nova York, Luyz decidiu levar para os Estados Unidos uma das crianças do projeto. O escolhido foi Thiago, que lá se apresentou e foi premiado pelo evento, que condecora pessoas que trabalham pela disseminação do sapateado pelo mundo. Isso se repetiu em 2011, com a aluna Jéssica indo para Washington. Em 2012, foi a vez de Henrique e Jéssica brilharem em Los Angeles e, em 2013, Luís Guilherme foi o sapateador escolhido.

Em 2011, ao produzir um novo espetáculo, Luyz convocou cinco meninos do projeto para o elenco, que era composto por onze sapateadores profissionais, o que chamou a atenção e o levou para a grande mídia. Seus feitos sociais foram pautas no “Programa do Jô” e “Fantástico”, ambos da TV Globo. Produtores e diretores de Hollywood, Dean Hargrove, Chloe Arnold e Maud Arnold tomaram conhecimento de sua luta e, ao produzirem o longa-metragem Tap World, sobre sapateado, incluíram o trabalho do professor de Campinas.

Este “paizão” das crianças campineiras se diz feliz em poder repartir o que sabe com quem tem tão pouco. “O meu trabalho alcança as crianças e a comunidade como um todo. O que percebo de muito rico e interessante é que além de aumentar as possibilidades neurais da criança, melhora os laços familiares. O sapateado envolve o trabalho em grupo, saber ouvir; enfim, há normas e regras para serem seguidas e isso reflete no comportamento da criança dentro da escola e da família, que pode passar a enxergar o mundo por intermédio do olhar da criança”, informa.

Para ingresso no projeto, que agora também acolhe meninas, é exigido apenas que a criança esteja matriculada em uma escola e seja moradora da região do Jardim São Marcos, em Campinas.

sapateador-Luyz-Baldijão“Decidimos levá-los para mostrar para as outras crianças, que vivem em uma região em que a marginalidade é a opção mais próxima, que existe outro caminho. Que elas vislumbrem, por meio do sapateado e dessa viagem internacional, novas possibilidades, horizonte infinito e vida longa”, declara Luyz.

Fica a dica

Para finalizar, o professor, coreógrafo, bailarino, engenheiro, voluntário e, acima de tudo, cidadão engajado, deixa seu recado, dizendo que se colocar a serviço do próximo com amor é a mais valiosa ferramenta de transformação social do mundo. “Se acreditarmos e fizermos com amor, de uma forma ou de outra a transformação virá. Acredite!”

Escola de Dança Rita Camilo
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Estúdio Aliento
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