A arte rompendo barreiras: entrevista com Simone Carleto

Atriz e diretora de teatro, Simone Carleto atua em diferentes frentes como arte-educadora. Critica o educar que visa apenas à competição e ao mercado de trabalho e crê no poder da arte para mudar hábitos e transformar o mundo.

Qual sua formação?

Considero como formação tudo que pude vivenciar desde a infância, reconhecendo nesse período as bases do que viria a fazer posteriormente, e que continua até hoje. Entendo que formação é um processo permanente, sempre inacabado. Minha mãe, com formação em direito e psicologia, mas atuante na área de comunicação e líder comunitária nas décadas de 1970-1980, me influenciou fortemente com a criação do Clube de Mães do Parque Cecap e da então chamada Nossa Escola. Lá tive contato com um projeto de escola comunitária e popular, além de ter iniciado, ainda criança no grupo de teatro de jovens organizado por Luíza Cordeiro, professora e militante comunista. Meu pai, formado em contabilidade e jornalismo, comunicador nato, liderança comunitária, fundou com outras pessoas, o Conselho Comunitário no bairro, onde, assim como no Clube de Mães, tive aulas de dança. Neste, fiz curso de balé e no Centro Comunitário dancei durante alguns anos com coordenação de Márcia Baptista. No mesmo local e bairro, atuei como carnavalesca com Alessandra e Lu Carvalho, meu irmão Fábio e minha cunhada Mônica. De minha mãe e pai, recebi a inclinação para a comunicação e o ativismo social. Eles criaram e mantiveram por muitos anos o Jornal Olho Vivo, bastante reconhecido na cidade. No ensino formal, cursei magistério, licenciatura em artes, mestrado em artes (ambos na Unesp), pesquisando a presença das manifestações da cultura popular tradicional nas obras do Teatro Popular União e Olho Vivo, de César Vieira, (quando eu era criança, meu pai sempre comentava ao passarmos em frente à sede do grupo: – Olha lá, Olho Vivo! – referindo-se ao homônimo do jornal que editava). Agora estou cursando doutorado, na mesma instituição, pesquisando formação de atores e atrizes em escolas livres. Minha grande escola práxica (abordagem que imbrica teoria e prática) nas artes cênicas, porém, foi o trabalho no grupo Canhoto Laboratório de Artes da Representação, dirigido por meu atual orientador, o professor, pesquisador e diretor de teatro Alexandre Mate. Também cursei pedagogia, além de especialização em Ética, Valores e Cidadania, na USP.

simone carletoPor que decidiu cursar artes cênicas e especializar-se na área?

As artes cênicas foram uma oportunidade. Selecionada para ganhar o manual de inscrição para o Programa de Formação de Professores da Unesp, enquanto cursava magistério na Escola Estadual Francisco Antunes Filho, no Parque Cecap, procurei os cursos disponíveis em São Paulo. Foi quando deparei-me com a licenciatura em artes e a possibilidade de estudar em nível superior algo com o que sempre me identifiquei. Mas não imaginava encontrar as vertentes que encontrei do teatro de grupo e do teatro épico, que transformaram minha vida e meu modo de estar no mundo. Daí a necessidade de conhecer mais e me especializar. É uma forma de exercer com rigor e critérios a profissão na área escolhida.

Qual o tema de sua pesquisa para o doutorado?

Pesquiso formação de atores e atrizes a partir da tese de que a formação que se experiencia e se vivencia exerce influência no modo de produção, o que expressa sua visão de mundo e da função do teatro – como das artes – do ponto de vista histórico-social.

Qual sua atuação nas artes cênicas?

Iniciei no teatro amador, comunitário e, portanto, popular. Prossegui valorizando essas raízes, atuando como atriz em diversos espetáculos com direção de Alexandre Mate. Na cidade, participei como atriz em montagens com a Cia. Naíka, com a Trupe Guarulhense de Comédia, e dirigi o grupo Fuso_ê com duas montagens: “O Caso dessa tal Mafalda”, de Carlos Alberto Sofredini; “Mulher(ex) de ca(c)os”, de Felipe Aizawa. Também dirigi o espetáculo “A Sombra”, de Felipe Aizawa, com o Teatro Provisório. Fui dirigida por Calixto de Inhamúns em “A Terceira Pista” e “Auto de Natal Brasileiro”. E fiz assistência de direção para Alexandre Mate (“Baile Brasil”) e Vinícius Piedade (“Identidade e Quatro Estações”, com Gabriela Veiga). Pela Escola Viva, durante o projeto-piloto, dirigi o primeiro espetáculo, “Salve o Prazer”, de Zeno Wilde, com direção musical de Paulo Moraes. Com crianças e jovens em escolas, pois leciono desde 1999, montei diversos espetáculos, somando mais de trinta.

Onde foram encenadas peças nas quais atuou?

Centro Cultural São Paulo, Funarte, Teatro de Arena de São Paulo, Sesc São Paulo, Teatros Adamastor, Padre Bento e Nelson Rodrigues, ente outros.

simone carleto palhaçoNa atual gestão da Secretaria de Cultura, qual sua função?

Sempre atuei na Secretaria de Cultura com projetos de formação cultural. Sou atual responsável pelo Teatro Padre Bento, que é sede da Escola Viva de Artes Cênicas. É um projeto grande, robusto, de ação cultural, entendida como algo sistêmico para a área na cidade. Inovador e ousado, é uma construção coletiva, que tem o processo colaborativo como um ideal de modo de produção em artes cênicas.

Quantos grupos participam da Escola Viva de Artes Cênicas?

Um dos pressupostos é ter pessoas dos grupos da cidade como mestres e aprendizes. Além disso, que possam ser formados grupos a partir do estudo instaurado na Escola. Assim, diversos grupos estão representados nos cursos de dança e teatro. Atualmente temos as turmas de Circo, Dança IV, Teatro VI e Teatro VII. De 2005 a 2007, tivemos a Dança I e Teatro I, Teatro II e Teatro III, além de cursos de Direção, Cenografia, Iluminação, Produção e Dramaturgia. A Escola foi interrompida de 2008 a 2012, o que esperamos fortemente que não volte a ocorrer. O projeto, que é amparado por lei (tornando a Escola oficial na gestão de Elói Pietá) retornou em 2013, quando o responsável por sua criação, Edmilson Souza, voltou como secretário de Cultura. De 2013 até 2016, foram realizados os cursos da Dança III, Teatro IV e Teatro V. O valor de nosso atendimento é qualitativo e não quantitativo, com ênfase em um processo que possa ser reconhecido na cidade. Mesmo assim, as ações realizadas que compõem uma significativa programação artística e cultural, tornam a escola efetivamente de interesse público para mais de 10 mil pessoas atendidas indiretamente. Em breve, a Secretaria de Administração e Modernização, através da equipe de Modernização, divulgará o Manual de Procedimentos da Escola, que, construído coletivamente, sistematiza todo o projeto, desde a inscrição até a certificação, passando pela fundamentação artístico-político-pedagógica.

Quais os requisitos para fazer parte de um desses grupos?

Ter 18 anos, disponibilidade nas noites de segunda a sexta e interesse pelo aprofundamento de estudos na área de artes cênicas. O contato anterior com a dança ou teatro, conforme o caso, é desejável, mas não é um prerrequisito obrigatório.

Quais grupos chegaram a produzir espetáculos?

Todos os cursos são práxicos, ou seja, têm embasamento teórico e aprendizagem no fazer artístico. Assim, têm-se aberturas de processo a cada módulo e espetáculos a cada curso. Ao todo, a Escola Viva já produziu mais de 10 espetáculos e mais de 100 ações artísticas em Guarulhos, além de participar de atividades e eventos artísticos dentro e fora da cidade.

Relate sua experiência na educação.

simone carleto artistaIniciei como professora de educação infantil, no Colégio Clip, minha principal referência na aprendizagem do Construtivismo. Depois, fui professora no Sesi em São Paulo, sempre aliando a ação educacional com a pesquisa acadêmica, pois desenvolvi estudos a respeito das manifestações culturais aplicadas à educação. Formada em artes, passei a lecionar em escolas particulares e do governo estadual. Ingressei como professora na Prefeitura de Guarulhos, atuando com EJA – Educação de Jovens e Adultos e depois também com educação infantil. Nas escolas particulares, atuei com todas as faixas etárias, do infantil ao ensino médio, além de ter sido professora de teatro em algumas escolas na cidade e em São Paulo. Por uma completa inadequação ao que estava posto, como diz o cantor e compositor Cri olo -, me vi com a necessidade de trilhar um caminho autoral na educação, uni todos os sonhos e experiência e a necessidade de retribuir à sociedade o que apre(e)ndo na universidade pública, à qual poucos têm acesso. Juntei a Escola, da “Nossa Escola” de minha mãe; e o “Vivo”, do “Olho Vivo” de meu pai e mãe e temos aí a Escola Viva de Artes Cênicas. Atuei nos projetos Parceiros do Futuro, do governo estadual; Teatro Vocacional e Emias, nos CEUs de São Paulo, mantidos pela prefeitura da Capital. Também atuei como diretora de escola, que é meu cargo efetivo na Prefeitura e como tutora no curso de especialização Educação Infantil, Infâncias e Arte, da Unifesp.

simone cEntende que a arte pode contribuir para a melhoria do nível de ensino nas escolas públicas?

Em primeiro lugar, preciso dizer que faço parte de um grupo de educadoras e educadores chamado Românticos Conspiradores. Atuamos na transformação da educação, tendo como pilares fundamentos que postulam uma educação na cidadania, democrática e que considera o processo pedagógico como relacional. Assim, escolas são espaços de convivência social que fazem parte do contexto social mais amplo. As artes, desse modo, não são acessórios, como vemos na necessidade de disciplinarização dos conteúdos no currículo escolar. Elas são áreas com conteúdos e procedimentos próprios e não devem servir como adereços e adornos. Num projeto efetivo, as artes podem transformar caminhos, oferecer novas formas de olhar uma mesma perspectiva. Quando estive na Escola da Ponte, em Portugal, criada pelo educador José Pacheco, também integrante do grupo citado, assim como no projeto Âncora, em Cotia, vivenciei o que é uma proposta de Comunidade de Aprendizagem. “É necessária toda uma aldeia para educar uma criança”. Mas estamos muito preocupados em educar para a competição, para o mercado. Isso tem outro nome, doutrinação, alienação e inculcação de uma ideia equivocada de meritocracia. A arte, a filosofia, a história, estão aí juntas para abrir a possibilidade de olharmos para isso de modo crítico, e de expressar nossa intencionalidade criativa e revolucionária: de seres que entendem o mundo como passível de transformação, tornando-se imprescindíveis a esse processo, como desejou um importante teatrólogo alemão, Bertolt Brecht, com que sigo de mãos dadas a outros e outras que acreditam que um outro mundo é possível.