A Festa de Bonsucesso e o IV Centenário

por Tiago Cavalcante Guerra

Quando se comemorou o IV Centenário de Guarulhos, em 1960, talvez poucos se atentaram a fazer simples perguntas, que ainda poderiam ser feitas hoje: como foi o III Centenário de Guarulhos? ou o seu bi-centenário?

Mais ainda interessante de refletir sobre isto, é olharmos para a Festa de Louvor a Nossa Senhora de Bonsucesso – o nome religioso ou Festa da Carpição, o nome profano. Celebração que conta 253 anos no bairro de Bonsucesso é, ainda hoje, quase ignorada pelo restante da cidade.

Aproveitando a ocasião do mês da efeméride realizada no bairro do Bonsucesso, pontuaremos aqui questões que perfazem a maneira como olhamos o nosso passado.

A Festa de Bonsucesso, realizada todo o mês de Agosto, reúne um conjunto de eventos que misturam o religioso com o profano: as novenas, as bênçãos, as missas, as congadas, as folias de reis, os moçambiques, os tropeiros e os violeiros. Além de artistas populares. Tudo isso misturado com o poder da terra, que em Bonsucesso como dizem para o milagre se realizar é necessário a terra. As graças alcançadas e os pedidos são imputados ao poder da santa, e a terra se constitui como o elemento mediador, como afirmou Maurício Pinheiro.

Uma tradição assim constituída e que sobreviveu graças às ações de devotos e romeiros que ano após ano frequentaram o bairro, a maioria vindos de cidades dos arredores (Nazaré Paulista, Suzano e Mogi das Cruzes). Como força de resistência, a festa reúne perto de 40 mil pessoas no bairro. Entretanto, mesmo com esse poder atrativo, a Festa de Bonsucesso foi quase completamente ignorada na celebração do IV Centenário de Guarulhos.

Organizada oficialmente pela Prefeitura de Guarulhos, a comissão do IV Centenário nomeada pelo prefeito da época, Fioravante Iervolino, tinha Adolfo Vasconcelos Noronha, como a figura mais proeminente do grupo.

Superando a falta de recursos, o IV Centenário tratou de fundar uma identidade para Guarulhos: bandeirante, jesuítas e colonial. Ao reconstruir de certa forma o passado e assim conformar elementos para uma identidade guarulhense, se optou por eternizar monumentos e uma memória oficial: foi feita a praça, inaugurada a escultura, realizada a grande obra e feita a grande narrativa linear evolutiva.

O evento em si também congregou uma série de rituais que afirmavam o culto ao passado, perfazendo assim momentos de encontro entre as pessoas, eventos de montar a pose para a fotografia. Ao fim do IV Centenário, Guarulhos se descobriu quatrocentona como a capital.

Ao se pretender universalizar a experiência da memória coletiva para o núcleo central, no caso o Aldeamento da Conceição de Guarulhos, perdeu-se de foco as existências e sociabilidades que conviveram ao mesmo tempo com o aldeamento central ou que até congregavam experiências sociais ainda mais significativas, como a festa no bairro de Bonsucesso.

Historiador, responsável pelo Núcleo de Patrimônio Cultural da AAPAH, coautor dos livros “Cecap Guarulhos – Histórias, Identidades e Memórias” e “Guia Histórico Cultural de Logradouros – Lugares e Memórias de Guarulhos”.