Por: Valdir Carleto
Fotos: Rafael Almeida

Três jovens guarulhenses não imaginavam que uma iniciativa despretensiosa pudesse crescer a ponto de chegar a outros estados e a gerar filhotes. Os gêmeos Erick e Tacio Watanabe (30 anos) e Thiago Salles, o Tico (29) contam um pouco da trajetória da Hamburgada do Bem. Na atual gestão municipal, Erick é subsecretário da Juventude.

Como tudo começou?
Erick – Nosso pai sempre nos acostumou a participar de ações sociais, na vila Tijuco e na Igreja Batista. Mas chegou a época de faculdade e outros compromissos e aí nos afastamos. Oito anos depois, em 2015, uma amiga da época, Adriana, esteve em um bairro numa atividade e um rapaz pediu que ela entrasse em contato com “os gêmeos japoneses”, porque o que fizemos tinha servido de inspiração para ele. E que no bairro os jovens não estavam recebendo bons exemplos. Falamos a respeito com o Thiago, com vontade fazer algo, mas de pronto não sabíamos o que fazer.

Thiago também tinha engajamento social?
Thiago – Sim, mas como voluntário do projeto Teto, que constrói moradias em mutirão.

Como se decidiram pelo hambúrguer?
Erick – A gente se reuniu na casa do amigo Guilherme para fazer hambúrguer artesanal. Brincando ali, surgiu a ideia de distribuir hambúrgueres a crianças carentes, pois muitas talvez nunca tivessem experimentado. Em setembro de 2015, fizemos uma reunião e decidimos postar no Facebook, procurando 15 voluntários. Porém, foram inscritos 140 voluntários; acabaram indo 70, mas mudamos o foco para a instituição Peregrinos, no Cabuçu, que atende crianças no contraturno da escola. Ampliamos para a comunidade e foram atendidas 86 crianças.

Peregrinos é a ONG do músico Roberto Diamanso?
Tácio – Isso mesmo.

E dinheiro para isso tudo?
Erick – Nessa primeira, fizemos uma vaquinha, mas tinha a opção “zero” e acabamos bancando boa parte do bolso, por inexperiência. Dali em diante, decidimos fazer um evento por mês e criamos uma taxa para o voluntário se inscrever, de 32 reais, que dá direito a um café da manhã reforçado e almoço. Precisa estar bem alimentado, porque, se bobear, a gente nem tem tempo pra comer durante o evento.
Tácio – Se não tiver a taxa, a pessoa se inscreve, mas não assume a obrigação de ir…
Thiago – Assim, o voluntário fica fazendo parte do projeto, se envolvendo mais, ajuda com o tempo, com ideias e o número de faltas é muito menor. É um café da manhã animal, de hotel!

A organização continua apenas nas mãos de vocês ou ampliou?
Thiago – Ampliou bastante. Temos umas vinte pessoas só de organização, participam de reuniões semanais.
Erick – E tem os coordenadores, que distribuem tarefas no dia.
Thiago – Essas pessoas chegam lá sabendo que cuidarão de atividades específicas. Cada uma delas será líder de voluntários que podem estar chegando pela primeira vez. Muitos desses coordenadores estão conosco desde a primeira edição.

Vocês oficializaram a ONG?
Erick – Sim. É a Associação Hamburgada do Bem.
Além do que os voluntários pagam, vocês recebem doações, patrocínios?
Thiago – A taxa dos voluntários paga uns 70% de cada programa. Temos patrocinadores como a Heinz do catchup e maionese, a Suns Faróis, Flash Global Logística e Supermercados Nagumo e há outros em negociação.

Importante terem conseguido a Heinz, hein!?
Erick – Até fizemos uma edição para filhos de funcionários do grupo deles lá no interior de Goiás.
Tácio – Pessoal que trabalha na roça lá.

Em quais locais vocês fazem os eventos?
Erick – Geralmente, em escolas municipais, porque já tem a estrutura, as mães já confiam de levar os filhos na escola.

Quantas edições do evento já foram feitas?
Thiago – Foram 34 (até 21 de novembro, quando foi feita a entrevista).

Todas em Guarulhos?
Erick – Muitas em Guarulhos, mas em vários outros lugares também. Até em outros estados. Estivemos na Rocinha, no Rio, em Goiânia (GO), na arena do Grêmio, em Porto Alegre (RS). Fomos em 200 pessoas daqui para o Rio para essa ação na Rocinha. Cada um pagando a locomoção, de ônibus, de van; teve gente que foi de avião para ajudar.
Thiago – Em Ribeirão Preto, já fizemos três edições. Para o Rio Grande, fomos em 80 pessoas, cada um pagando a própria passagem de avião para ir lá trabalhar de graça.

Qual é a atividade profissional de vocês?
Thiago – Até há alguns meses, eu trabalhei por quatro anos na Truck Van. Mas a Hamburgada precisava contratar alguém e estava difícil achar uma pessoa com o perfil adequado, porque teria de ficar à disposição praticamente fulltime. Como eu gosto disso e vejo como uma missão, resolvi aceitar o desafio, mesmo ganhando muito menos.
Tácio – Nós temos restaurante japonês delivery, o Sushi Lovers.

Da família ou de vocês dois?
Erick – De nós dois.

E dá pra conciliar todas as tarefas?
Erick – Organizando, dá. O restaurante tem uma boa equipe. E na Hamburgada, temos uma galera que abraça mesmo o projeto.

Surgiram ações semelhantes, uns filhotes da Hamburgada?
Erick – A gente até ajudou duas: a Hamburgada Feliz, da Fecap Social (faculdade), e a Sorriso de Batata, que já esteve na Globo e citaram a gente como inspiração. Nós também estivemos no programa “Estrelas”, da Angélica.

Além dos alimentos, vocês agregaram outros serviços. Será sempre assim agora ou foi só uma vez?
Erick – Essa foi a Hamburgada na Rua, que é uma variação que nós fizemos, incluindo corte de cabelo e banho para moradores de rua, em parceria com as ONGs Banho de Amor e o Barber Bus, um ônibus com quatro cadeiras de barbeiro, cabeleireiro. Foi embaixo do viaduto Cidade de Guarulhos.
Thiago – Nosso sonho é ver todas as áreas carentes atendidas, não só crianças.
Erick – O próximo braço será a Hamburgada no Hospital. Para começar, estamos fazendo um evento para arrecadar fundos para melhorar o Hospital da Criança de Guarulhos, que está com berços e cadeiras de acompanhantes muito ruins. A meta é faturar R$ 300 mil. O Madero doou todos os hambúrgueres para esse evento.
Tácio – É bom deixar claro que, além do alimento, cada Hamburgada reúne outras atividades. Chega a ter quarenta: brincadeiras com personagens, formas lúdicas de ensinar. Vamos fazer no CEU Pimentas no dia 9 de dezembro, com quase cem atrações, como o Sorriso do Bem, que ensina a escovar os dentes de forma divertida, com dentistas voluntários; conseguimos doação de escovas, cremes dentais. Quando a revista sair, já terá acontecido. Prevemos 5 mil crianças e 3 mil voluntários.
Erick – O pessoal da Globo achou engraçado o nosso Farol da Alimentação. Porque estamos entregando hambúrguer, mas ensinando que não é todo dia que se deve comer hambúrguer. Na brincadeira, tem um hambúrguer de borracha, que a criança tem de jogar no vermelho; no amarelo, deve jogar o que pode comer sempre, mas com atenção; e no verde, o que pode ser consumido todo dia, como os vegetais. A criança que acerta vai ganhando pontos, que ela troca numa lojinha, onde ela pode escolher o que prefere, diferente da maioria dos eventos, quando a pessoa carente ganha uma sacolinha sem direito de escolha.
Thiago – Muitas crianças nem sabem o que são alguns alimentos, porque as famílias nunca tiveram a orientação de uma nutricionista. Lá ela fica sabendo que é preciso ter uma alimentação balanceada.

Para participar, as crianças precisam fazer uma inscrição?
Thiago – Sim. E no dia, tem de trazer, com a autorização do pai ou responsável, até para nosso controle. A criança recebe uma pulseirinha e quem a trouxe leva um canhoto para vir buscá-la depois.

Só crianças participam das atividades?
Erick – Geralmente, sim. A não ser em alguns casos, como na aldeia indígena do Jaraguá, onde todos participaram. Já fizemos duas vezes lá. Teve brincadeiras de criança que os índios adultos também quiseram fazer.

Quais planos podem ser divulgados?
Erick – Nosso sonho é implantar um local, onde as crianças fiquem no contraturno da escola, com atividades educacionais, culturais, esportivas e de lazer.
Thiago – Seria como uma adoção das crianças. Seriam 25 por turno, 50 ao todo. Que elas iniciassem com 4 ou 5 anos de idade e fôssemos acompanhando até o fim da adolescência, para que quando saírem de lá estejam com a vida totalmente transformada, tendo aprendido inglês, informática… Que essas crianças saiam dali preparadas para transformar o mundo.
Tácio – Temos milhares de voluntários cadastrados: 200 dentistas, médicos, professores de idiomas, de judô, de futebol, gente que quer fazer alguma coisa pelo próximo.

Como fazer para ajudar a manter todo esse trabalho?
Thiago – Criamos os Amigos da Hamburgada, uma forma de as pessoas contribuírem mensalmente, a partir de 5 reais. Ainda são muito poucos inscritos, mas achamos que vai ampliar, porque é um jeito de ajudar sem ser com o trabalho. Cada um doa o quanto puder. Quem preferir pode doar esporadicamente, por transferência bancária, boleto ou cartão de crédito. No site www.hamburgadadobem.com.br tem toda orientação.

Vocês têm uma sede?
Erick – Ainda não. Só um escritório para fazer reuniões que está sendo montado. Muita coisa fica na minha casa, mas não comporta mais.

Se alguém quiser ceder um imóvel, será bem-vindo, então…
Thiago – Sem dúvida.

Até agora, fim de novembro, quantas pessoas foram beneficiadas?
Thiago – Tivemos já 6 mil voluntários e 18 mil pessoas atendidas.

Algo que não perguntamos e seja importante dizer…
Thiago – É preciso frisar a relação voluntário-criança. Ninguém sai dali como chegou. A criança se transforma e o voluntário também. Queremos que cada um seja um transformador da sociedade. A Hamburgada não é uma distribuição de hambúrguer, nem só brincadeiras. Receber carinho e atenção de uma pessoa que ela nem conhece gera nessa criança uma esperança. O voluntário sai dali com vontade de mudar o mundo, a começar pela própria casa. Nós achamos que isso tudo cria uma grande onda de transformação. Um voluntário nos disse em Ribeirão que, tendo estudado a vida toda, fazendo mestrado, nunca tinha se sentido tão útil, virando criança de novo por um dia.
Erick – Quem sabe, muitos outros projetos nasçam a partir desse trabalho. O grande feito não é o dia, mas a mudança que isso faz em cada indivíduo. Recebemos mensagens de voluntários que estavam deprimidos e afirmam que ganharam um nova vida.