Por Val Oliveira

A proliferação desenfreada do mosquito Aedes aegypti em diferentes pontos do globo, em especial na América Latina, coloca o mundo em alerta. A apreensão se justifica, pois, já se sabe que além de transmitir a dengue, o mosquito é responsável também pela febre Chikungunya e o Zika vírus, que pode causar a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré.
Segundo relatório da OMS – Organização Mundial de Saúde, no dia 13 de fevereiro, por exemplo, o Zika vírus já está disseminado em 34 países, sendo 26 no continente americano. No Brasil, dados do Ministério da Saúde confirmam o temor: entre janeiro e novembro de 2015, foram registrados 1,5 milhão de casos de dengue no País, que resultaram em 828 mortes por dengue; cerca de 18 mil casos de Chikungunya, 2,4 mil ocorrências de microcefalia; e cerca de 400 atendimentos hospitalares em decorrência da síndrome de Guillain-Barré, que causou a morte de duas pessoas.

As faces do inimigo

Além de serem transmitidas pelo Aedes, a dengue, a febre Chikungunya e o Zika vírus têm outros pontos em comum. De acordo com Elza Zilioti Falkenburg, médica da Divisão Técnica de Epidemiologia e Controle de Doenças (DTECD) do Departamento dve Vigilância em Saúde da Secretaria de Saúde de Guarulhos, os sintomas das doenças são muito parecidos e podem ser confundidos. Veja algumas particularidades apontadas pela médica.

Dengue

Período de incubação do vírus: de 5 a 15 dias. Sintomas: dor de cabeça, febre, dor no fundo dos olhos, pintinhas vermelhas pelo corpo, desânimo e cansaço acentuado. O quadro pode agravar-se nos casos de dengue hemorrágica, que é caracterizada por vômito persistente, dor abdominal forte, sangramento no nariz, ouvidos, boca e intestino.
Febre Chikungunya
Incubação: de dois a dez dias. Só é detectada em exames de laboratório. Causa febre, dores intensas nas articulações de pés e mãos, tornozelos e pulsos, assim como dor de cabeça e muscular e manchas vermelhas na pele.

Zika vírus

Os sinais de infecção surgem entre três e 12 dias após a picada do mosquito. Provoca febre, dores nas articulações, nos músculos, na cabeça, na garganta e atrás dos olhos, erupções cutâneas e coceira, tosse e vômitos. Cerca de 80% das pessoas infectadas não desenvolvem qualquer sintoma. O vírus também pode ser transmitido pela saliva e pelo contato sexual.

Microcefalia

A microcefalia faz com que os bebês nasçam com a cabeça em tamanho menor que o natural, que é 33 cm, e pode causar retardo mental. A microcefalia não é algo novo. O que é novo é a relação da infecção materna durante a gestação pelo Zika vírus e o achado de microcefalia no bebê. Durante a gravidez, exames como a ressonância magnética e a tomografia computadorizada auxiliam no diagnóstico. Especialistas alertam para que, especialmente as grávidas, não dispensem o uso de camisinha nas relações sexuais, para evitar a contaminação.

Síndrome de Guillain-Barré

É uma complicação decorrente do Zica vírus, que depois de instalado no organismo evolui rapidamente e apresenta complicações a partir do terceiro dia. O distúrbio provoca fraqueza e formigamento nas pernas, braços e tronco, músculos da face e da boca, além de dores nas costas, palpitações, alterações da pressão, dificuldade para respirar; engolir e controlar fezes e urina. Pode levar à paralisia total ou até mesmo ao óbito.

Palavra do Especialista

Segundo Rafael Alves da Silva, biólogo e pesquisador científico, mestre em ciências e doutorando pela Unifesp, especialista em virologia, ainda há muito que se discutir, pesquisar e confirmar. “O Aedes aegypti é o principal responsável pela transmissão desses vírus nas Américas. Outra espécie chamada Aedes albopictus é mais comum no continente africano. Outras formas de transmissão ainda estão sendo questionadas, e precisam ser mais bem estudadas, inclusive para casos de transmissão sexual e por transfusão sanguínea (já relatadas para infecção pelo Zika vírus) e a presença desse vírus na saliva e urina”, informa.
Para ele, a dengue no Brasil já é uma epidemia há alguns anos e que talvez, pelo fato da doença não ter consequências tão graves quanto as outras infecções, medidas mais eficazes não tenham sido tomadas. O pesquisador entende que o alerta emitido pela Organização Mundial de Saúde vai ajudar muito no combate ao Aedes aegypti, uma vez que a entidade trabalha para que as doenças relacionadas ao mosquito não se tornem uma epidemia mundial, e, desta forma, estimula a tomada de medidas mais enérgicas e o desenvolvimento de pesquisas científicas.
Ele destaca também que, apesar de não haver ainda medicação específica para tratar os vírus, é importante consultar o médico para acompanhamento, controle e notificação da doença ao sistema público de saúde. Quanto à produção da vacina, ele observa: “Vacinas contra o vírus da dengue já foram desenvolvidas, como a vacina da indústria farmacêutica francesa Sanofi, ou estão em desenvolvimento, como é o caso da vacina do instituto Butantan. Projetos para a produção de vacinas contra o vírus Zika estão em fase de análise, tanto pelos institutos públicos quanto por empresas privadas; porém, o prazo mínimo para o início dos testes clínicos pode chegar a dois anos, além de mais um ano para a aprovação pelos órgãos regulatórios (fase em que as vacinas da dengue estão no momento). O desenvolvimento de medicações e vacinas no Brasil, apesar de pioneiro em instituições de renome como o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz, depende muito da disponibilidade de verba pública e da capacidade dessa verba chegar efetivamente aos centros de pesquisa. Assim como acontece na Europa e nos EUA, o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação aprovado pelo governo em 2016 pode ajudar a desburocratizar esses processos e permitir que iniciativas privadas trabalhem junto com o poder público no desenvolvimento dessas medicações”, ressalta.

Desenvolvimento da vacina

Na semana passada, o ministro da saúde, Marcelo Castro, anunciou a parceria com a Universidade Medical Branch, no Texas, EUA, para o desenvolvimento de vacina para o Zika vírus. O governo brasileiro aplicará US$ 1,9 milhão nos próximos cinco anos, e espera-se que a vacina fique pronta em dois anos. Os planos também envolvem parcerias com o Instituto Evandro Chagas, Laboratório de Referência Nacional para Arbovirus, órgão vinculado ao Ministério da Saúde; o CDC, National Institutes of Health, a Fiocruz e o Instituto Butantan.

A microcefalia e o uso de larvicida

O estado do Rio Grande do Sul proibiu o uso do larvicida pyriproxyfen, que é usado para limpar os reservatórios de água, uma vez que ele impede que a larva do mosquito cresça e chegue à fase adulta. Isso porque uma ONG de médicos argentinos disse que o larvicida seria o responsável pelo aumento dos casos de microcefalia no Brasil. Pesquisadores brasileiros e membros da classe médica reagiram e condenaram a atitude, pois alegam que as conclusões da ONG não têm base científica e que informações inconsistentes podem prejudicar os esforços na busca pela solução do problema. Em entrevista à Revista Época, a pesquisadora da Fundação Osvaldo Cruz Dilene do Nascimento ressalta: “[…] O governo diz: ‘as gestantes devem usar repelentes e vestir manga comprida, para se proteger. ’ Se alguém diz que a microcefalia não é causada pelo Zika e, sim, por vacinas vencidas ou por um larvicida, as pessoas se sentem livres para desrespeitar essas recomendações”, disse.
Já o médico Edmilson Migowsky, membro da Sociedade Europeia de Infectologia Pediátrica e colunista da Band News, entende que, mesmo nada tendo sido comprovado contra os larvicidas, é recomendável às grávidas evitar contato, por precaução.

Campanha Nacional de Mobilização contra o Aedes aegypti

O dia 13 de fevereiro foi aclamado como Dia Nacional de Combate ao Aedes aegypti. O projeto é uma parceria entre estados e municípios e faz parte do Plano Nacional de Enfrentamento ao Aedes e à Microcefalia, do governo federal. A ação contou com a participação de 220 mil militares das Forças Armadas, e diversos profissionais dos estados e municípios, que distribuíram panfletos com orientações sobre medidas de prevenção e a importância do envolvimento de todos.
Na mesma data, quem passou pelas ruas do centro de Guarulhos foi abordado por funcionários da Prefeitura e recebeu panfletos e orientações. No semáforo, motoristas eram alertados por meio de faixa com o mesmo apelo.

Guarulhos no ataque ao mosquito

De acordo com informações fornecidas pela assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde do município, Guarulhos tem como prática ofensiva contra o Aedes as “visitas às residências e empresas e demais imóveis especiais, para verificação da existência de focos de criadouro, e orientação técnica, bem como o reforço dos trabalhos no entorno de residências onde houver registro da doença. Há brigadas monitoras em empresas privadas e órgãos públicos visando envolver as equipes de funcionários. As ações educativas contam com informe técnico, cartazes e folhetos; formações e palestras, cartilha de controle de criadouros; teatro itinerante com a peça “Belinha no combate à dengue”; gazebos educativos com orientações e exposição de amostras do mosquito, além de mobilização social no sentido de fomentar o desenvolvimento de ações para a mudança de comportamento e adoção de práticas para a manutenção do ambiente preservado da infestação por Aedes. A partir das reuniões técnicas, que acontecem mensalmente, o Comitê Executivo de combate à dengue define os encaminhamentos de futuras ações.”.
A Secretaria informa também que, em 2015, Guarulhos registrou 19 casos de recém-nascidos com microcefalia. Destes episódios, dois tiveram resultado negativo para o Zika vírus. De 01 de janeiro a 11 de fevereiro de 2016, a cidade contabiliza 51 casos de dengue confirmados e um caso de recém-nascido com microcefalia, possivelmente associada à infecção pelo vírus Zika. Os demais casos permanecem sob investigação. Não foram admitidas ocorrências com a febre Chikungunya, bem como não houve óbitos relacionados a estas infecções. Perguntada quais as regiões da cidade são mais afetadas pela proliferação do mosquito, a Prefeitura informa que, até o momento, não foi observada nenhuma concentração por região.
Para denúncias de possíveis criadouros e solicitação de agentes de combate ao Aedes aegypti, ligue para a Ouvidoria da Saúde: 0800 772 2986.

• Mantenha as caixas d’água vedadas;
• Limpe as calhas regularmente;
• Sempre que chover, providencie o escoamento de água que possa ter ficada acumulada em lajes e marquises;
• Semanalmente, verifique e remova qualquer indício de águas em fossos de elevador;
• Ao usar o vaso sanitário, em casa ou em outro local, deixe a tampa abaixada. Nos banheiros que não são usados regularmente, dê descarga ao menos uma vez por semana;
• Periodicamente, limpe as bandejas de ar-condicionado e da geladeira. Alguns modelos acumulam água;
• Coloque areia nos pratos das plantas e não cultive espécies que se desenvolvem diretamente na água. As bromélias pedem atenção especial, pois acumulam água;
• Não descarte pneus em lugares inadequados, como em terrenos baldios, por exemplo;
• Mantenha a água de fontes e piscinas sempre limpa e tratadas com produtos específicos;
• Guarde garrafas de cabeça para baixo;
• Lacre os sacos de lixo e os mantenha fora do alcance de animais.

Artilharia

Para combater o mosquito, faça a sua parte. Limpe o seu quintal, permita a entrada dos agentes de saúde em sua casa, fiscalize e denuncie espaços públicos ou privados que tenham acúmulo de lixo ou poças de água. Converse com seus vizinhos e, juntos, declarem guerra ao Aedes aegypti nas proximidades de sua residência.

A busca por soluções caseiras e suas controvérsias

Mosquitoeira

É uma espécie de “ratoeira” para o Aedes. Uma garrafa pet é cortada ao meio. A parte do gargalo fica virada para baixo, dentro da outra parte, com água até sair alguns centímetros do gargalo. A “boca” da garrafa é vedada com tecido fino, para que os ovos passem para baixo, a fim de que quando as larvas se desenvolverem, fiquem presas no fundo da garrafa. Dentro da água colocam-se “iscas” como arroz, ração ou alpiste, desses grãos surgirão as bactérias, que são alimentos das larvas, que crescerão e não conseguirão sair pelo tecido.

Crotalária

Pelo menos duas cidades brasileiras já tentaram ou tentam alternativas como o plantio de crotalária, uma planta leguminosa que ajudaria no combate ao mosquito. Em Sorriso, MT, a experiência aconteceu há cerca de nove anos e acabou sendo abandonada. Em Andradina, interior de SP, neste ano, com o objetivo de diminuir a quantidade de mosquitos, a Prefeitura pretende distribuir cerca de 300 quilos de sementes da planta. Segundo o engenheiro agrônomo Cláudio Gotardo, em entrevista ao G1, a crotalária atrai a libélula, predador natural do Aedes aegypti.

Para o biólogo e pesquisador Rafael, não há receita mágica. “Diversos boatos e ações relacionadas ao controle do Aedes têm sido tomadas sem o devido embasamento científico. Mesmo a libélula atraída pela planta e que se alimenta das larvas do mosquito em água parada é uma ação mirabolante, sem índices satisfatórios. O ideal é que o combate ao mosquito seja realizado na destruição dos focos de larvas. A proteção contra o mosquito pode ser realizada com repelentes, lembrando o cuidado de usar substâncias aprovadas pela Anvisa, e, no caso de mulheres grávidas, por precaução, o uso de roupas compridas. Caso a população não ajude as equipes do governo no combate aos focos de larvas de mosquito, os números de novos mosquitos irão superar a efetividade das armadilhas caseiras”, finaliza.

Para mais esclarecimentos acesse:

dengue.org.br
portalsaude.gov.br