O tradicional desfile cívico de Sete de Setembro reuniu milhares de guarulhenses na rua Paulo Faccini, onde habitualmente diversas instituições promovem suas passeatas em demonstração de respeito à Pátria. Entre as fardas militares e os uniformes de estudantes de diversas escolas, um grupo destaca-se pelos trajes atípicos: cerca de 60 homens com terno preto e gravata preta. Acompanhados por jovens vestidos com capas inusitadas, maçons prestaram suas homenagens à Proclamação da Independência do Brasil, importante evento para cuja concretização essa discreta ordem colaborou decisivamente.

Você, em algum momento, deve já ter se perguntado quem realmente são os maçons e qual sua efetiva participação na sociedade. Abordar assuntos sobre a Maçonaria sempre desperta a curiosidade no público em geral. Afinal, em algum momento todos já ouviram falar de temas envolvendo essa confraria. Poucos, no entanto, tiveram contato com ela.

Assuntos sinistros, outros simplesmente curiosos, mas sempre envoltos em um clima de profundo mistério. Quase todos eles ligados a alguma teoria da conspiração ou história esotérica, atraem as mais diversas opiniões sobre a ordem. Por exemplo, parte significativa da população alimenta a visão de que a Maçonaria seria algum tipo de religião ou seita ou que suas frentes estão amplamente dispostas a perpetrar uma espécie de plano de dominação mundial. Mas, o quanto de verdade tem em tudo isso?

A Reportagem da Revista Guarulhos visitou Kamel Aref Saab, de 64 anos, sereníssimo Grão Mestre do Grande Oriente de São Paulo (GOSP), instituição que congrega 800 lojas, espécie de templos onde ocorrem as reuniões dos mais de 24 mil maçons espalhados por todo o Estado. Engenheiro metalúrgico e administrador de empresa, está no corpo diretivo desde 2015, quando era adjunto de Benedito Marques Ballouk Filho, passando ao maior cargo da ordem em 2017.

Bem-humorado, Kamel brinca que a fraternidade um dia foi secreta, passou a ser discreta e agora é indiscreta. “Todo mundo tem curiosidade sobre a Maçonaria, mas é bom entender que como ela é iniciática, temos nossos rituais, assim como a Igreja Católica, a exemplo do batismo da criança no tanque, do casamento, a fumaça branca de quando se é anunciado o novo Papa, entre outras ritualísticas que só são de interesse da Igreja e de seus membros. Como eles, nós temos a nossa iniciação, que só interessa a nós. Agora, por que indiscreta? Se você assistir a alguns filmes, você vai perceber cenas relacionadas à Maçonaria, quase reproduzindo 100% o que fazemos em nossas lojas. Claro que é uma brincadeira essa questão de indiscreta, mas é para se entender um pouco da abordagem que hoje se tem na Maçonaria. Não podemos ser secreta, porque temos personalidade jurídica, com endereço divulgado, por exemplo”.

O Grão Mestre explica que a ordem nada mais é que uma oportunidade do ser humano de se transformar em um construtor social. “Claro que é muito difícil uma pessoa com uma formação completa ser transformada, mas sempre é possível melhorá-la. O iniciado passa a mudar não só a si mesmo, mas também o vizinho, o parente e todos que o rodeiam”. Questionado sobre a sua própria transformação, ele diz que após sua iniciação tornou-se um homem mais tolerante, respeitoso e calmo. “O principal ponto é aplicar a Justiça, sem fazer o papel de injusto”.

Sobre a participação da Maçonaria em eventos importantes no País, conta que a ordem sempre esteve presente nas principais decisões que levaram o Brasil a alguma grande mudança. No entanto, com o passar do tempo, os irmãos, como os maçons identificam-se entre si, passaram a dedicar-se com maior intensidade à filantropia, afastando-se um pouco dessas outras questões.

Todas as lojas assistem a uma instituição de caridade. Inclusive, esses são um dos momentos em que a família dos irmãos podem acompanhar os trabalhos. Na fraternidade, não é permitida a entrada de mulheres – questão de tradição. Contudo, não há restrições quanto a raça, credo e nacionalidade.

Para ingressar na ordem, a forma mais fácil é ser convidado por um membro. Mas, não é tão simples assim. São necessários alguns atributos morais e civis, que façam o aspirante ser considerado um homem de reputação ilibada. Alguns pontos são: ser um cidadão exemplar e maior de 21 anos, ter emprego e residência fixos; ser empreendedor, sem exercer atividades ilícitas; nome limpo, inclusive sem passagens pela polícia e não ter vícios, como o envolvimento com drogas. Aliás, o principal: não ser ateu.

Em que a Maçonaria acredita?

A Maçonaria tem como norte preceitos judaico-cristãos; logo, subentende-se que os maçons devem acreditar em Deus, sem distinção religiosa. O denominador comum para se referir a esse ser supremo é Grande Arquiteto do Universo (G.A.D.U.).

Os famosos símbolos, diferentemente do que muitos acreditam, são usados para estudos e não culto, sem nenhuma referência com invocação de demônios ou coisas parecidas. Cada uma das imagens indica algum tipo de ensinamento que deve ser observado pelos iniciados. “A Maçonaria é herdeira de varias culturas e ordens do passado, e como já abordava Albert Pike [“Pai” do Rito Escocês Antigo e Aceito, rito mais praticado no Brasil], herdamos dos egípcios a maneira de ensinar por símbolos. O símbolo fala por si, mas sempre tem o que absorver olhando de maneira mais clínica. Tudo é um símbolo, até você – físico – é um símbolo do que você representa. As letras que aqui estão inseridas são a junção de uma série de signos que expressam aquilo que você deseja dizer”, explica Filipe Passos, mestre maçom ligado ao GOSP.

É importante ressaltar que muitos símbolos atribuídos à ordem na verdade não têm nenhuma ligação com a Maçonaria.

Um exemplo é o Olho de Hórus, importante no Egito Antigo, porém, sem conexão nenhuma com os maçons. A imagem usada pela fraternidade é o Olho que Tudo Vê, que traz alusão à onisciência e onipresença de Deus.

Você deve estar se perguntando o que acontece nas reuniões maçônicas. De antemão, já adianto que não há bodes ou nenhum outro sacrifício de animal, mas um momento em que se é discutido filosofia, história, religião – desde que não seja sectária –, ciência, comportamento, política não partidária ou qualquer outro assunto da atualidade. “Tudo pode ser estudado, desde que você não queira impor a sua opinião como a certa”, explica Passos.

Da esquerda à direita: Washington Ap. dos Santos e Filipe Passos, mestres maçons, e Max Rodrigues Pereira Hager, mestre instalado e Grau 33

Em Guarulhos

A Maçonaria no Brasil tem seus primeiros registros em 1724. Mas somente em 1822, mesmo ano em que ocorreu o grito da Independência do Brasil, foi criado o Grande Oriente do Brasil (GOB), grande potência maçônica, com reconhecimento da Grande Loja Unida da Inglaterra.

Além do Sete de Setembro, a Ordem Maçônica esteve presente em outros momentos fundamentais da história do Brasil, como na abolição da escravatura, na redemocratização do País e em outros eventos marcantes. O GOSP, por exemplo, participou ativamente da Revolução Constitucionalista de 1932, na qual muitos dos membros morreram.

Em Guarulhos, são 25 lojas, como Santa Mena, Paraventi, Paulo Faccini e Cumbica. A mais antiga é Loja Conselheiro Crispiniano, que tem 51 anos. Fundada em 1967, marca também a chegada da fraternidade no município.

Vale ressaltar que existem marcos da Maçonaria espalhados na cidade. Um deles está na Vila Galvão, na praça que separa a avenida Sete de Setembro da rua Alberto Ferreira Lopes, na altura da Comercial Esperança. Outro encontra-se na avenida Aniello Pratici, na entrada da cidade pelo viaduto Fioravante Iervolino.

Curiosidades

  • Alguns dos maçons mais famosos do mundo foram: Nelson Mandela, George Washington, Martin Luther King Jr., Franklin Delano Roosevelt e Ludwig van Beethoven. No Brasil, temos Rui Barbosa, marechal Deodoro da Fonseca, Dom Pedro I e Jânio Quadros;
  • Maçons costumam usar três pontos na assinatura em forma de triângulo;
  • Sim, os maçons têm uma série de cumprimentos e gestos. Alguns para identificação, outros para utilizar dentro dos seus rituais;
  • As lojas estão repletas de referências judaicas em suas construções. Algumas estão ligadas diretamente com o Templo de Salomão;
  • Existem fraternidades para-maçônicas, como a Ordem Demolay (jovens que usam capas inusitadas citados no início da matéria), uma sociedade para jovens do sexo masculino, com idade entre 12 e 21 anos incompletos;
  • Não é só na nota de um dólar que há símbolos maçônicos, mas todas as notas do real também possuem. A mulher que aparece nas cédulas é Marianne, símbolo da república francesa. A efígie foi inspirada na obra “A Liberdade guiando o Povo”, pintada em 1830 por Eugène Delacroi. A Maçonaria teve grande participação na Revolução Francesa, época retratada pela arte. Não à toa, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” é lema da revolução, amplamente compartilhado pela Maçonaria;
  • Existem segredos na Maçonaria, muitos escondidos a sete chaves. Dizem que é justamente a preocupação em manter seus ritos longe dos não iniciados que fez com que a sociedade perdurasse por tantos anos.

Dicas para saber mais

Quem quiser aprender um pouco mais sobre os mistérios dessa antiga ordem pode assistir à série “Maçonaria – Segredos Revelados”, da Netflix. Há também os filmes “Mauá – O Imperador e o Rei”, “Do Inferno”, “O homem que queria ser Rei” e os dois longas de “A Lenda do Tesouro Perdido”. Para quem preferir a leitura, há a instigante aventura de Robert Langdon, do escritor Dan Brown, no livro “O Símbolo Perdido”.