A natureza mística que existe em cada um de nós

O homem possui uma natureza mística, que o impulsiona ao mistério e o coloca em conexão, quase que permanentemente, com o transcendente, em que pese seus níveis de conhecimentos, crenças e, até mesmo, graus de superstições ou temores.

Embora cada cultura, apoiada geralmente em suas próprias tradições, possua seus próprios arcabouços para explicar o insólito, pode-se dizer que – de maneira geral – quando ocorrem fatos extraordinariamente surpreendentes em nossas vidas, em decorrência das dificuldades naturais em explicá-los de imediato, principalmente, aos olhos da ciência, nossa tendência é sempre justificá-los pelo sagrado. Assim, muitas coisas ou fatos, ao longo de nossas existências, ainda que ocorram ao acaso, podem ser tomadas como divinas e nos promover, no geral, um salutar estado que nos acalma e nos oferece, quase sempre, uma espécie de satisfação pessoal, que se torna inexplicável à compreensão dos outros.

Mas, o mais importante, diante do sagrado, não é o que pensamos ou concebemos sobre ele, e sim o que sentimos. Como no caso da meditação, por exemplo, onde é o estado que importa, o sentir, e não o pensar. Assim, o que a experiência íntima nos promove ou resulta, no sentido psíquico de cada um de nós, é o que realmente tem valor, já que dificilmente o homem vive sem ocorrências que o vinculem ao sublime e que o induzam, ao menos, a sentir que existem forças além das explicadas costumeiramente pela física natural.

Comumente, nossas experiências pessoais com o sagrado nos promovem sentimentos de gratidão e do reconhecimento que temos pela própria vida, especialmente naquelas em que consideramos, de alguma forma, como verdadeiros milagres. Pode-se dizer que, nessas ocasiões, ocorre uma espécie de comunhão de nossas almas com a transcendência e que, geralmente, ela pode, a partir de então, causar significativas mudanças em nosso modo de pensar e sentir a vida, já que estabelece, também, estados de paz e profunda serenidade que podem durar longos períodos.

Há pessoas, por exemplo, que após extraordinárias experiências mudam não só seu modo de pensar mas, também, de se comportar. Lembramos, por exemplo, daquele astronauta que foi o primeiro homem a pisar sobre o solo lunar, ou contemplar a Terra do espaço sideral. Após seu retorno da viagem à Lua ele testemunhou uma profunda experiência que mudou suas concepções de vida para sempre!

Muito provavelmente seja por isso que os poetas são aqueles que enxergam, ou antes percebem e sentem na Natureza, as expressões mais sutis da Vida e as traduzem pelos escritos ou palavras de forma rítmica e harmoniosa. Eles parecem sempre aptos a tais experiências ou comunhões transcendentais, por isso são aqueles que, geralmente, dizem o que sentimos e não sabemos exprimir diante da beleza que a própria Vida compõe perante nossos olhos, ou nos oferece em ocasiões especiais, fazendo-nos sentir emoções diversas, sejam elas de satisfação ou frustração, dor ou alegria.

De forma geral, podemos até mesmo considerar que aqueles que se comunicam pelas artes, seja por meio das formas, dos sons, dos movimentos ou da escrita, são pessoas mais sensíveis ou aptas às experiências mais transcendentais, onde o sagrado ou o divino, não por acaso, está sempre presente nos seus dia-a-dia.

Muitos, tocados por essa hipersensibilidade ou disposição, buscam nos caminhos da religião, ou nas chamadas vias místicas e esotéricas, que permitem uma maior permanência no estado da contemplação, suas formas de realizações pessoais. Há, ainda, aqueles que não conseguem viver sem um certo grau de comunhão com o insólito e, para tanto, renunciam aos chamados da sociedade convencional e aquilo que é tido como sinônimo de realização e felicidade como casamento, trabalho ou certos padrões comportamentais, sobretudo no mundo ocidental.

Sob a visão de determinada corrente de estudos e pesquisas da Psicologia, atualmente, as pessoas mais propensas às experiências místicas ou sagradas são consideradas como portadoras de uma forma peculiar de expressão da inteligência.

De qualquer maneira, por mais materialistas que possamos ser, ou acreditamos ser, todos nós – em um grau ou outro – em algum momento de nossas vidas, experienciaremos uma vivência mística que poderá ou não, ao menos, mudar nossa compreensão sobre as coisas.

José Paulo Ferrari – abril de 2019