A poetisa Jane Rossi, semeando a Paz

Foto: Marcelo Santos

A professora Jane Rossi, em vez de se abater diante da dificuldade, teve uma iniciativa que merece elogios e todo apoio: impossibilitada de atuar na sala de aula, criou o Projeto Semente da Paz, pelo qual os alunos têm atividades sobre a importância da Paz entre os seres humanos, escrevem poemas a respeito da Paz e os selecionados vêm suas criações publicadas em livros.

No mês dos professores, a RG a escolheu como símbolo dos que efetivamente fazem a diferença por uma educação mais abrangente e por um mundo melhor.

Onde nasceu, quando e por que veio para Guarulhos?

Nasci em Recife (PE), cheguei na Vila Maria, em São Paulo, com 5 anos em 1960; passei lá minha infância; em 1970 fomos para Itaquera, onde morei até 1979. Quando me casei, mudei para Guarulhos; eu não conhecia, mas era a paixão do meu esposo desde os tempos em que cumpriu o serviço militar na Base Aérea. Amo Guarulhos, aqui nasceram meus 3 filhos e foi aqui que me realizei como esposa, mãe, comerciante, empresária e professora.

Qual sua formação?

Sou graduada em letras – português/ inglês pela UNG, onde também cursei libras. Sou pós-graduada na educação especial pela Universidade Claretiano, em São Paulo.

Como surgiu a poesia em sua vida?

Meu caminho na poesia teve início com 14 ou 15 anos; enquanto as garotas da minha idade faziam diários, escrevendo segredos, eu fazia cadernos e mais cadernos com poemas, mas guardava-os para mim e não os mostrava pra ninguém, pois tinha vergonha e insegurança dos meus rabiscos. Foi no ano de 2004 que participei de um concurso de poesia na UNG e entre 900 inscritos eu fiquei no terceiro lugar; esse foi um grande incentivo, mas o maior incentivo era quando meu esposo e minha mãe liam meus poemas e diziam: pode divulgar que está lindo. No antigo Orkut, participei de várias comunidades de poesia; conheci o jornalista e escritor Marcelo Puglia, que estava fazendo a Antologia Coração de Poeta. Recebi o convite para participar do livro e ser revisora. Marcelo me descobriu na poesia e foi um grande ensinamento para a minha carreira de antologista. Logo fui indicada como membro correspondente na Academia de Poesia – Casa Raul de Leoni, de Petrópolis (RJ). Depois vieram convites de outras cidades. Em 2014, foi minha posse como membro efetivo na Academia Guarulhense de Letras.

Quantos e quais livros lançou?

Sou autora de dois livros solos: “Amargura tem Cura?”( Editora Shooba) e “Azul Infinito”, pela Futurama. Como antologista, idealizei e organizei a Antologia Alimento da Alma: foram 7 volumes com a participação de poetas do Brasil e Portugal. Também participei de várias Antologias poéticas.

Quando quis aprender libras, foi porque sentiu que precisaria?

Eu pretendia ser intérprete. Não podia imaginar que eu mesma precisaria. No parto do meu filho tive eclâmpsia e dali a probabilidade de sequelas na visão ou na audição. Muitas mulheres têm a vida totalmente prejudicada. Para mim, afetou os ouvidos gradualmente; estou com surdez severa, o que me fez ser posta para trabalhar na sala de leitura da escola.

Onde exerce o magistério?

Na E.E. Odete Fernandes P. Silva, que faz parte da D. E. Guarulhos-Norte – e tem como supervisor Alexandre de Paula Franco.

Conte sobre os projetos na rede estadual de ensino

Em 2008, na E.E. João Luiz de Godoy Moreira, eu peguei umas aulas de leitura. Senti dificuldade de trabalhar com as crianças e então resolvi fazer um projeto no qual eles escrevessem.Apresentei o projeto Mãos que Falam para o diretor Elio de Assis, que aprovou e deu o maior apoio. Trabalhei durante dois anos lecionando libras, mostrando aos alunos o que é viver no mundo do silêncio, preparando-os para a inclusão do surdo em sala de aula regular, porque poucas pessoas estão preparadas para esse trabalho; o aluno surdo fica lá no canto, porque o professor e os colegas não conhecem a linguagem de libras. Lá pude pôr em prática e foi uma maravilha, porque os alunos puderam entender, aprenderam o nome da rua onde moram. Depois do Mãos que Falam, vieram outros: Poetas da Escola, que foi bem artesanal e no qual trabalhei os sentimentos dos alunos; falaram de amor, de saudade. Aí teve o Lembrança de Criança e, finalmente, o Semente da Paz, que já fez cinco anos. Cheguei a pôr dinheiro meu, porque não tinha patrocínio.

Como nasceu o Semente da Paz?

Diante dos conflitos no mundo, nas comunidades, nas famílias, achei que seria um grande aprendizado trabalhar um projeto baseado na cultura de Paz. Divulgar em sala de aula os grandes pacificadores e mostrar aos alunos que, mesmo diante de tantos problemas, podemos sim semear a Paz e viver a Paz. Em seguida, surgiu a ideia de incentivá-los a escrever poemas cujo tema central fosse a Paz, publicando-os em um livro, que eles pudessem guardar, mostrar às famílias e aos amigos.

E como se desenvolveu o projeto?

Comecei com o Semente da Paz em 2012, na E. E. Odete Fernandes. A diretora Nivaldete de Souza Ramalho e a equipe de professores abraçaram o projeto e assim realizamos um belo livro. Em 2013, o Semente da Paz foi realizado também em outras escolas.

Em quais escolas?

Já são 11 edições, com mais de um mil alunos participantes: na E.E. Odete Fernandes Pinto da Silva, cinco edições; na E.E. João Luiz de Godoy Moreira, com a diretora Jinlova Pantaleão, duas edições; E.E. Maria Helena Faria Lima e Cunha, diretor Josafá M. Santos, duas edições; E.E. Brigadeiro Haroldo Veloso, diretora Maria Augusta O. Michiles, uma edição; E.E. Juvenal Ramos Barbosa, diretora Maria Benedita Corunha, uma edição.

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Foto: Marcelo Santos

Como é feita a seleção dos poemas para serem publicados?

Sempre há professores(as) que se dispõem a colaborar. Sem essa ajuda, não seria possível, porque eu fico na sala de leitura. A professora fala na aula sobre a cultura da Paz. Aí os alunos, desde a sexta série até o EJA (Educação de Jovens e Adultos), escrevem, com aquelas letrinhas que a gente mal pode entender. Quem faz a seleção sou eu.

Como são obtidos os recursos para imprimir os livros?

Um deles a AllPrint patrocinou; outro, inscrevi num projeto do Estado e conseguimos a verba. Para outro, buscamos apoio de empresas, mas não deu certo. Aí, pedi ajuda a poetas que conheço, alguns do Facebook, e os convidei a serem padrinhos dos alunos; cada um colabora com quanto pode. Em 2015, conseguimos fazer camisetas para os alunos participantes, patrocinadas pela loja Eletroferro, da Perfil Lider. Em outro ano, os pais se cotizaram a pagara as camisetas. Neste ano, só deu para fazer uns adesivos para identificar os participantes.

Quanto custa cada edição dessa; quantos livros são impressos?

Fizemos 150 livros, que custaram R$ 2.700. Não havia dinheiro suficiente, mas a dona da Editora Futurama participou, reduzindo para R$ 1.700; assim, viabilizou a impressão.

Há possibilidade de expandir o Semente da Paz para muitas outras escolas? Ou tem de pagar direitos autorais ou algo assim?

Pode multiplicar por quantas escolas quiserem; não tem de pagar nada: apenas quero que seja citado que fui idealizadora do projeto. A dificuldade é ter gente que se disponha a encabeçar uma tarefa dessas. Os professores têm muitas atividades, que não se resumem à sala de aula. É difícil conciliar. Eu ocupo seis meses para a preparação de cada livro desses.

Quando ingressou na Academia Guarulhense de Letras e de quais outras entidades você faz parte?

Passei a ser membro efetivo da AGL em 2014. Sou também embaixadora da Paz, pelo Cercle Universel Des Ambassadeurs De La Paix Suisse/France; dama comendadora da Real Ordem do Mérito Cultural D. João VI de Portugal , pela Falasp (Federação das Academias de Letras e Artes do Estado de São Paulo) e pela Ordem “Maria Quitéria”, título outorgado pela Falasp; membro correspondente das Academias: Itapirense de Letras e Artes – “Aila”, Itapira, SP; de Letras da Mantiqueira, Águas de Lindóia (SP); AACLIG Academia de Ciências, Artes e Letras de Iguaba Grande – Região dos Lagos (RJ); e Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), correspondente da Academia Brasileira de Poesia, Casa Raul de Leoni, Petrópolis (RJ); representante da Falasp em Guarulhos.

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Foto: Marcelo Santos

O que mais a motiva a tocar esse trabalho?

A importância que dou à Paz; ver as crianças e adolescentes se dedicando a isso, pensando em um jeito de escrever sobre a Paz, refletindo sobre o quanto é bom viver em harmonia, nesse mundo que é tão carente de afeto. Fazer alguém parar para pensar nisso, já é uma vitória. Imagine saber que um aluno que participou do projeto tomou gosto pelas letras, formou-se, seguiu carreira no magistério ou no jornalismo…

Você poderia citar alguns casos de alunos que se destacaram?

Foram muitos que deixaram os professores emocionados com sua criatividade, pelo capricho que tiveram ao escrever seus poemas. Sem desmerecer o trabalho de nenhum deles, pois todos têm seus méritos, eu peço a liberdade de destacar dois ex-alunos Gabriel Melo e Stefany Nayara, que seguiram a carreira poética. Ele participa do Movimento Poetas Del Mundo e ela é acadêmica na cidade de Alto, em Minas Gerais. Vejam estes poemas, de autoria deles:

Memórias – Gabriel Melo
Contra o vento,
Contra o céu e as estrelas,
Tento reconstruir minha paz,
Sem mirar as nuvens atrás
Onde tudo me leva a transcender
memórias
Que lastimam a alma
E inibem o coração.

Paz – Stefany Nayara
E a paz? Onde está?
Está em cada criança, em cada sorriso
Na infância a inocência,
na vida adulta, as preocupações
A Paz está em cada um de nós
Em cada sentimento, em cada amor
A Paz se faz e se torna preciso!
No mundo cruel o simples se faz
necessário
Oh! Paz! Precisamos de ti pra viver!