A série “3%” e o complexo de vira-latas

“O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”. Nelson Rodrigues.

O jornalista e cronista Nelson Rodrigues é um dos autores nacionais que mais admiro. Tanto por seu talento nato com as palavras, quanto pela crítica de tons cínicos que tão bem usava. Termos que muitos falam, mas que poucos sabem de sua origem, são oriundos dos toques desse escritor e dramaturgo. Uma das expressões por ele alcunhadas e uma das mais afamadas é a do “complexo de vira-latas”, com a qual designava a baixa autoestima do povo brasileiro. Tomo a liberdade de utilizá-la para contextualizar “3%”, a primeira série destas bandas a ser produzida e distribuída internacionalmente pela Netflix.

A princípio, a obra apresenta-se como uma cópia tupiniquim de “Jogos Vorazes”, devido ao cenário distópico que nos é apresentado. Todo o enredo gira em volta de uma série de testes que serve para separar duas sociedades existentes. A primeira, uma terra paupérrima, sem tecnologia e com pessoas que pouco valor dão à vida, é nominada como Continente. A segunda, um lugar excêntrico, farto, cujos moradores são aqueles que conquistam o direito por meio das provas que enfrentam, chama-se Maralto. Desnecessário dizer onde está concentrado o maior número da população, não é? O conjunto de testes que dá direito à passagem para esse mundo deleitoso é conhecido como Processo, o qual ocorre uma vez por ano.

Ao completar 20 anos, os jovens do Continente têm a única oportunidade da vida de participarem do Processo e granjear o direito de ser um cidadão do Maralto. O problema é que apenas 3% deles podem entrar para “o lado de lá”.

No Continente, existe um grupo revolucionário denominado “A Causa”, que busca a todo custo acabar com o sistema estabelecido. Composto por pessoas avessas à organização que impera e por outros que só estão ali apenas por questões pessoais, é a única oposição ao regime.

As atuações dos atores enriquecem a produção e mostram como brasileiros reagiriam em um cenário como o de 3%. Existem, sim, aqueles que não souberam dar a vida que o personagem exige, mas nada que ponha em descrédito a qualidade do todo. Os cenários foram bem elaborados, apesar de seguirem o básico nesse tipo de enredo. Enquanto o Continente é uma paisagem desolada, cheia de ruínas, pessoas na miséria e distantes da tecnologia, o Maralto é sua verdadeira antítese – ainda que na primeira temporada é mostrado muito pouco desse lugar paradisíaco. Não espere grandes efeitos especiais, pois disso a série carece devido ao orçamento que o diretor Pedro Aguilera tinha em mãos (R$ 10 milhões) para a primeira temporada.

A crítica, no entanto, é o ponto-chave da trama. Baseada na desigualdade social por meio da meritocracia, o pensamento que a série propõe é uma “porrada” para lá de bem dada em quem prega que as pessoas devem viver conforme suas capacidades, quando a escolha de quem pode chegar ao topo, ou não, é feita por uma série de regras criadas a partir de um único conceito. Chama a atenção, por exemplo, que em provas que se espera equitativas, é permitido a máxima “vencer é o que importa, o resto é consequência”.

A série peca um pouco em exceder o didatismo sobre essa questão, ou seja, martela constantemente na mente do telespectador sobre a meritocracia e suas consequências, mas isso não chega a ser ruim, já que a forma como a série apresenta seus conceitos e preconceitos é totalmente abrasileirada. E isso é justamente o que considero ser o charme de 3%: os elementos são bem distintos do que a produção audiovisual americana fabrica, sendo possível notar um Brasil que pode aventurar-se na ficção científica e sair-se bem.

As discussões podem ser ampliadas na segunda temporada, pois é sugerido que A Causa pode não ser a grande oposição esperada. Afinal, até que ponto vale destruir o sistema, somente por destruir? É, inclusive, um detalhe muito corriqueiro na realidade em que vivemos, de confrontos exacerbados de ideias nas redes sociais, em que predomina o mote do “nós contra eles”, sejam quem forem uns e outros.

Outra crítica colocada de forma sutil refere-se à religião e sua capacidade de implantar ideias na mente de seus adeptos, mesmo que sejam, na visão dos de fora, intoleráveis. É bom citar que o enredo passa perto do que poderíamos caracterizar como sendo uma intervenção militar e outros problemas relacionados a situações que passamos, mas que jamais contaríamos para ninguém. Aliás, romance, definitivamente, não é o forte da série.

A segunda temporada de 3% foi lançada em abril deste ano e traz um conteúdo amadurecido, com produção mais robusta. Se na primeira temporada o roteiro é mais contextual, a segunda tem mais ação e reviravoltas, de deixar a gente de cabelo em pé. O enredo tem uma construção dinâmica. Não enrola e deixa sempre uma sensação de “quero mais” ao final de cada episódio.

Há questões que ficam no ar. Provavelmente, serão exploradas em uma terceira temporada. Afinal, ganchos foram deixados com esse intuito, recurso semelhante ao que ocorreu na primeira parte da série.

Conclusões

A série é antiga, de 2016. Fiquei decepcionado comigo mesmo quando percebi o que perdi, pelo simples preconceito de menosprezar a série por tratar-se de uma produção brasileira, já que estamos acostumados a consumir e ter como boas apenas as produções ‘gringas’. Mais chateado fiquei quando percebi que, ao contrário do que pensava ao início, a série não é uma cópia disfarçada de “Jogos Vorazes”, pois, apesar da premissa ser a mesma, não traz nenhuma semelhança em seu enredo ou produção. E também me entristeci por ter pensado que não passaria de mais uma produção falida que transmitisse somente a crítica pela crítica. Em resumo, incorporei a velha máxima rodriguiana do complexo de vira-lata. Lamentável!

Segundo a Netflix, 3% é a série de língua não-inglesa do serviço de streaming mais assistida nos Estados Unidos. Outro dado que não sei avaliar se é bom ou ruim: cerca de 50% de sua audiência vêm de outros lugares do globo. Austrália, Canadá, França, Itália, Coreia do Sul e Turquia são alguns dos países que se tornaram fãs da obra. Em sua grande maioria, a crítica especializada internacional foi positiva em suas considerações. No Brasil, no entanto, os pontos negativos predominaram. Por que será?

Dica que dou: vá além do primeiro episódio e você não se arrependerá. A primeira temporada conta com oito capítulos, duração de 40 a 50 minutos cada um, em média. Já a segunda é composta por dez partes, com o mesmo tempo da primeira.