Por Jônatas Ferreira
Fotos: Rafael Almeida

Quem observa aviões sobrevoarem a cidade de Guarulhos não imagina que mais de 800 deles passam pelos céus do município com destino ao Aeroporto Internacional Governador André Franco Montoro, ou ainda, Aeroporto de Cumbica, como popularmente é chamado pelos moradores desta cidade.

Esse é um dos números que permitem ao terminal ser o maior do Brasil e um dos mais movimentados da América Latina em número de passageiros transportados. São 39 destinos domésticos (nacionais) e 48 internacionais – o maior hub da América do Sul. Em 2016, 19.463.303 pessoas usaram Guarulhos para voos dentro do Brasil e 11.632.759 para o exterior.

Ao todo, os três terminais, que constituem um complexo de 387.109 m², receberam cerca de 36,6 milhões de passageiros no ano passado, dos 50,5 milhões que é a sua capacidade total. A média é de 104 mil usuários diariamente, sem contar acompanhantes e visitantes, o que totaliza 250 mil pessoas. O mês fecha com cerca de três milhões de viajantes e sete milhões de indivíduos que circulam em um dos locais que pode ser considerado patrimônio do Brasil.

Aeroporto de Guarulhos. Crédito: Rafael Almeida/ Weekend

Para sustentar essa impressionante estrutura, 30 mil funcionários, entre colaboradores da GRU Airport, terceirizados e equipes das companhias áreas, fazem o sítio aeroportuário movimentar-se 24 horas por dia, sete dias por semana. Em agosto deste ano foi registrado volume recorde de passageiros internacionais com mais de 1,3 milhão de viajantes transportados.

O terminal é líder no segmento de carga no País, com market share de 39% (importações e exportações) em 2016. Está em 1º lugar na preferência dos passageiros, na categoria acima de 15 milhões de passageiros por ano, conforme apontou a Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC) em levantamento feito no 3º trimestre deste ano.

O Aeroporto de Guarulhos é também o segundo mais pontual do mundo, de acordo com a consultoria britânica de inteligência de mercado de aviação OAG, estando atrás apenas do japonês Hanada, em Tóquio. Em 2015, o terminal brasileiro figurava na terceira colocação.
Esses são alguns pontos que tornam o Aeroporto de Guarulhos um orgulho para todo o Brasil. Nesta reportagem, a revista Weekend mostra um pouco mais sobre o funcionamento da porta de entrada do Brasil.

A história

O Aeroporto de Guarulhos nasceu com o intuito de suportar a demanda crescente de passageiros de São Paulo, além de também ter um espaço mais estruturado para receber as aeronaves cada vez maiores que sobrevoavam o mundo. Na época de seu planejamento, cogitou-se construir o aeroporto em cidades como Campinas e Ibiúna. Além da proximidade com a capital, pesou a escolha de Guarulhos pelo fato de já existir uma área em Cumbica que pertencia à Força Área Brasileira, o que reduziria o custo das desapropriações que deveriam ser feitas para que as obras fossem viabilizadas.

O Terminal 1 foi inaugurado em 1985. O Boeing 747-200 da Varig, procedente de Nova Yorque, foi o primeiro avião a pousar na recém-construída pista e inaugurar operações do aeroporto. Na época, comandavam o estado e município, respectivamente, André Franco Montoro e Oswaldo de Carlos. Posteriormente, em 1993, o Terminal 2 começou a funcionar.

Vale ressaltar que na época em que o aeroporto não passava de uma ideia, em meados de 1977, o então prefeito Néfi Tales tornou-se um opositor à instalação do sítio aeroportuário e apoiou os diversos atos de uma parcela da população, principalmente da região de Cumbica e dos habitantes das áreas que seriam desapropriadas, que se colocaram contra o início das obras. Diversos políticos também fizeram oposição ferrenha à construção.

Hoje, apesar de todas as dificuldades e mudanças que o complexo trouxe para a cidade, são inegáveis os inúmeros benefícios de ter um aeroporto como o nosso. Um deles são os milhares de empregos gerados – a GRU Airport tem um acordo com o município pelo qual 60% dos funcionários precisam ser habitantes de Guarulhos.

Terminal 3: o voo da GRU Airport

A palavra privatizar nem sempre é vista com bons olhos. No caso do Aeroporto de Guarulhos, foi assertiva e muito bem-vinda. Em 2011, a então presidente Dilma Rousseff, com o objetivo de adequar o complexo para a Copa do Mundo de 2014, decidiu conceder o terminal à iniciativa privada. A vencedora do certame administraria o complexo por 20 anos, sendo que durante esse período, um total de 6,5 bilhões de reais teria de ser investido.

Terminal 3 do Aeroporto de Guarulhos. Crédito: divulgação.

No dia 6 de fevereiro de 2012, o consórcio formado pelas empresas Invepar (Investimentos e Participações em Infraestrutura S.A.) e ACSA (Airports Company South Africa) foi anunciado como sendo o vencedor do leilão de concessão do aeroporto por um valor de R$ 16,2 bilhões.

Com o nome de GRU Airport, a empresa iniciou as obras do Terminal 3, concluindo-as em março de 2014 com 192 mil m² de área, exclusivo para voos internacionais e maior do que os outros terminais juntos. Essa estrutura tem capacidade inicial para receber 15 milhões de passageiros.

Com 34 posições no pátio de aeronaves, sendo que 20 têm pontes de embarque, passam pelo Terminal 3 companhias aéreas que voam para América do Norte, Europa, África e Ásia, como American Airlines, British Airways, Emirates, Air China, entre outras.
O terminal também conta com a maior área de duty free com aproximadamente 7,5 mil m² de área, composta por diversas lojas de grife com marcas famosas. Há os mais de 7 mil m² de salas VIPs do próprio aeroporto e de algumas companhias áreas, além de um hotel exclusivo dentro da área de alfândega para passageiros internacionais, o qual detalharemos mais adiante.

Crédito: Rafael Almeida/ Weekend.

O aeroporto dobrou o número de vagas de estacionamento. De 3,9 mil foi para 9,232 mil. Até setembro deste ano, somente o Terminal 3 movimentou mais de 28 milhões de passageiros. Em 2016 foram mais de 9 milhões de usuários transportados.

É importante destacar que todas as adaptações e mudanças promovidas pela GRU Airport gerou um total R$ 4,1 bilhões dos R$ 6,5 bilhões previstos em contrato. A concessionária fica no comando do aeroporto até junho de 2032.

Bastidores da porta de entrada do Brasil

Passear por todo o aerporto não é uma tarefa tão simples quanto se imagina. São 14 quilômetros de área, o que totaliza algo em torno de 45 minutos de caminhada de uma ponta à outra.

Impressionante mesmo é a estrutura existente dentro do complexo, que faz toda a operação acontecer. A reportagem da Revista Weekend percorreu diversos setores do Aeroporto de Guarulhos para entender um pouco mais sobre como funcionam os bastidores do local.

Centro de Controle Operacional do Aeroporto de Guarulhos. Crédito: Rafael Almeida/ Weekend.

O Centro de Controle Operacional (CCO), área responsável por coordenar todas as operações de chegadas e partidas que acontecem no maior aeroporto do Brasil, é um setor localizado no Terminal 2. Ali, as mais de duas mil câmeras instaladas no sítio aeroportuário são monitoradas 24 horas por dia por um conjunto de profissionais formado por funcionários das principais companhias aéreas, agentes das Polícias Federal e Civil e colaboradores do aeroporto. Todos eles comunicam-se incansavelmente para que tudo ocorra dentro dos conformes por meio de um sistema de gestão compartilhada. “As principais empresas áreas têm representantes dentro desta sala. Todas as informações que a gente tem, eles também têm. Os dados das companhias que afetam o Aeroporto nós também temos. A gente tem a informação o tempo todo. Qualquer alteração, seja troca de avião, atraso, se acontecer alguma coisa a bordo, todos ficam sabendo no mesmo tempo”, explica Wilson Souza, coordenador do Centro de Controle Operacional de Guarulhos.

Nesta sala são acompanhadas as operações dentro e fora do aeroporto, desde posições de estacionamento das aeronaves, portões de embarque, esteiras de bagagens e fluxo de filas, condições climáticas até o trânsito na rodovia Hélio Smidt. Numa seção separada, policiais e seguranças do aeroporto ficam atentos a qualquer atitude suspeita.

É importante ressaltar que no CCO passam todas as informações em terra. Quando um avião vai decolar, quem fala com piloto é a torre, operada pela Infraero. A capacidade da pista do Aeroporto de Guarulhos para pouso e decolagem é de 52 operações por hora acompanhadas pelos olhares clínicos dos profissionais da CCO. Os horários de pico giram em torno das 5h às 9h e das 17h às 19h.

entro de Controle Operacional do Aeroporto de Guarulhos. Crédito: Rafael Almeida/ Weekend.

Todos os horários de voos programados, por exemplo, devem ser seguidos à risca. Atraso ou antecipação pode gerar grandes problemas. Para exemplificar, Souza conta que quando um voo chega com antecedência, para o passageiro é ótimo, mas para a equipe do CCO é uma loucura. “Para nós minutos fazem muita diferença. Estamos esperando a aeronave em um horário programado. Quando o pouso é antecipado, temos que sair desesperados em busca de um novo espaço. É um transtorno”, explica.

Nas pistas, tudo deve ser extremamente controlado. Funcionários têm um colete específico com um número próprio. Além de trazer mais segurança ao colaborador, garante também que atitudes indevidas, como furtos, sejam evitadas. A reportagem, por exemplo, teve de usar um colete ligado ao CPF de cada membro da equipe.

Outro ponto a destacar é que a concessionária dispõe ônibus para transportar os passageiros. Segundo Souza, são 20 mil pessoas que passam diariamente por esses veículos.

A reportagem também conheceu o núcleo do Complexo de Gerenciamento de Crises (CGC), apelidado como “sala de crises”. O local foi planejado e equipado para reuniões de prevenção, acompanhamento e reação a episódios de crise de qualquer natureza: acidentes, ataques terroristas, grandes eventos, manifestações públicas e catástrofes naturais.

Sala de crise do Aeroporto de Guarulhos. Crédito: Rafael Almeida/ Weekend.

Toda a ambientação da sala é inspirada na da Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos, em Washington. No local, há aparelhos de fax e rádio – sempre carregados –, que podem substituir as novas tecnologias em caso de falhas eventuais.

Quando seu uso é preciso, uma parede de vídeo (‘vídeo-wall’) mostra tudo o que for necessário, inclusive sites e noticiários do mundo todo, para que gestores de diferentes áreas do aeroporto e companhias áreas reúnam-se para tomar as medidas. Em casos mais específicos, membros de outras instituições e órgãos podem fazer parte da reunião. Como quando houve o surto de ebola nos aeroportos, ocasião em que profissionais da Agência Nacional de Saúde (Anvisa) estavam presentes.

Toda a tecnologia usada na sala é de ponta e voltada para fornecer extremo conforto. As cadeiras ergonômicas foram projetadas para que o usuário aguente pelo menos 18 horas. O tempo de maior permanência no local foi na época dos Jogos Olímpicos no Brasil, em 2016, período em que a sala de crise foi usada 24 horas durante toda a competição.

Mesmo sendo no Rio, Guarulhos recebeu 40% das delegações participantes, o que fez com que toda uma mobilização especial fosse montada para atender os atletas de diversos países, sem afetar o fluxo normal do aeroporto. Outro caso ocorreu em março de 2016, quando por 18 horas equipes permaneceram na sala de crise em decorrência das fortes chuvas que castigaram Guarulhos. Na ocasião, a pista de pouso e decolagem ficou sem iluminação. Mais de 100 voos sofreram atrasos naquele dia.

Outros casos: manifestações políticas em junho de 2013, na Copa do Mundo em 2014 ou quando o avião em que o senador Aécio Neves (PSDB) estava precisou fazer um pouso de emergência, em fevereiro deste ano.

A cidade dentro da cidade

O Aeroporto de Guarulhos conta com o setor de Respostas a Emergência (Corpo de Bombeiros) mais bem equipado, em termos de combate a incêndios, da América Latina. O setor é preparado para qualquer tipo de incidente que possa vir a acontecer no terminal, inclusive acidentes envolvendo as aeronaves. Para isso, conta com 108 soldados da Força Aérea Brasileira especialmente treinados para os diversos tipos de situações.

Crédito: Rafael Almeida/ Weekend.

Segundo explicou João Carlos Bottairi, coordenador de combate a incêndio e salvamento, quando acionada, a equipe precisa chegar ao local de atendimento em, no máximo, três minutos. Para que esse tempo-resposta seja obtido, o setor conta com um caminhão do modelo Panther Rosembauer 6X6, utilizado em mais de 80 aeroportos do mundo.

O Panther vai de 0 a 80 Km/h em apenas 30 segundos, uma performance 50% superior ao exigido pela ANAC. Com uma capacidade de 12,5 mil litros de água, seu jato d’água atinge uma distância de 90 metros, o que permite cobrir as maiores aeronaves do mundo. Além disso, o veículo tem um braço perfurador que pode jogar água dentro do avião.

Para economizar mais tempo, o Panther tem acionamento automático externo que abre as portas e liga o motor, dando ao bombeiro apenas o trabalho de acelerar. “Isso economiza cerca de 10 segundos do tempo, essenciais dependendo do caso”, afirma Bottairi.
Atualmente, Guarulhos conta com duas unidades deste veículo e outras quatros de modelos mais antigos. Em janeiro de 2018, a terceira unidade do Panther chega a Cumbica. Cada modelo custa 1 milhão de euros e é fabricado na Áustria. O modelo fez parte do filme Transformers.

Se Guarulhos não trata o seu esgoto como deveria, o Aeroporto trata. O sistema de tratamento de efluentes é do tipo digestão biológica ativada por aeração profunda intensa. O esgoto de todo o complexo é canalizado pela rede coletora, o qual chega até a estação por meio das 45 estações elevatórias internas, localizadas no Terminal 3, e nove estações elevatórias externas. O efluente tratado é lançado no Rio Baquirivu dentro das conformidades da Conama.

Além do mais, o aeroporto conta com um posto que armazena 42 milhões de litros de combustível de aviação. Desses, sete milhões são gastos em Guarulhos por dia. De Cumbica saem caminhões que abastecem outros aeroportos, como Congonhas e São José.

O maior avião do mundo

O Aeroporto de Guarulhos é o primeiro do País a receber o A380, a maior aeronave de passageiros do mundo, com espaço para 480 pessoas e cerca de mil malas. É também o primeiro na América do Sul a fazer uma rota direta para Dubai.

Para que esse tipo de movimentação pudesse se tornar viável sem afetar o desempenho do terminal como um todo, a GRU Airport fez uma série de investimentos no sistema de pistas, como o alargamento das faixas de pouso/decolagem e taxiamento. E até uma nova ponte de embarque (‘finger’) foi especialmente feita com dois andares direcionados para as duas portas do avião. Somente neste avião, trabalham diariamente cerca de 80 pessoas para a operação de limpeza e organização após um voo. Há lounge, bar, suítes privativas e chuveiro.

Tryp by Wyndham São Paulo Guarulhos Airport. Crédito: Rafael Almeida/ Weekend.

Tryp Hotel, um dos sete do mundo

Na área alfandegária do Terminal 3, entre as lojas do duty free e os portões de embarque, os passageiros podem observar uma discreta porta que guarda um conceito de hospedagem inédito no Brasil: o Tryp by Wyndham São Paulo Guarulhos Airport, um hotel dentro do aeroporto, no qual apenas pessoas com voos internacionais podem ter acesso.

O conceito é novo, tendo apenas sete hotéis nestes moldes em todo o mundo. Foram R$ 50 milhões de investimento para construir um ambiente sofisticado que chama a atenção de quem conhece o local. São 80 quartos e alguns com visão privilegiada para a pista de voo.

O diferencial do hotel é que passageiros com conexões podem optar pelo sistema day use, com serviços de curta permanência entre 3, 6, 12 e até 24 horas. As taxas, contabilizadas por hora, variam de US$ 45 apenas para sala VIP e US$ 75 com quarto. Em ambos os formatos, são inclusos café da manhã, almoço, snacks e bebidas nacionais – não são disponibilizadas bebidas alcóolicas. Além disso, o Wi-Fi é gratuito e ilimitado.

 

*Matéria de capa da edição 388 da revista Weekend