Afasta de mim este copo

Por Amauri Eugênio Jr.

Vamos imaginar duas pessoas durante uma confraternização entre amigos. A pessoa José está comemorando o êxito em um projeto no qual ela se dedicou por meses e, por isso, está consumindo quantidades generosas de cerveja. Logo, ela está bem relaxada, mais receptiva, brincalhona e afetuosa – tudo o que ela não é no dia a dia, em que ela é bem introspectiva. Já a pessoa João está rindo com o mesmo grupo e contando piadas, o que sempre costuma fazer, mas sem consumir uma gota de álcool, pois ela nunca gostou de beber. Ao reparar no comportamento de José, Jõao começa a estranhar, pois ele nunca o viu tão extrovertido. E, ao dizer que estava estranhando ver aquela cena, José diz que João é “careta”.
Quem nunca viu ou vivenciou a cena descrita acima ou viu uma pessoa que, em uma reunião com alguns amigos em um bar, virou o motivo de piadas e da velha zoeira sem limites só porque pediu um refrigerante ou suco de laranja em vez de uma garrafa de cerveja? Quem nunca se sentiu deslocado ou até mesmo excluído por não beber bebidas alcoólicas, por motivos mais diversos, durante uma festa? Ser o cara limpo (ou melhor: abstêmio) da festa é como ver que o mundo está ao contrário, mas ninguém mais reparar nisso. É ver pessoas conversarem em um idioma que você não fala, e dizerem isso para você. Em resumo: é se sentir como um extraterrestre.

Sejamos francos: beber aquela cervejinha no fim do expediente ou com os amigos – com moderação, vá lá – é bom, não vamos mentir. Mas nada justifica julgar ou excluir quem prefira manter a sobriedade e não colocar uma gota de álcool na boca. Enfim, por que o álcool é tão cultuado pela sociedade? E por que os abstêmios de plantão são malvistos? “Os indivíduos que têm o hábito de ingerir bebidas alcoólicas são identificados como mais autoconfiantes, mais ‘homens’ e, com isso, são aceitos em um grupo social, ao adquirem um status ilusório. Por outro lado, quem não bebe torna-se discriminado, motivo de chacota e até excluído”, explica a psicanalista Cristiane M. Maluf Martin. Sua opinião é endossada pela a da psicóloga Letícia de Oliveira, que enfatiza o fator social. “Quando a pessoa ingere bebida alcoólica, ela aumenta o nível de sociabilidade, e fica mais espontânea e relaxada, mas ela se preocupa com a avaliação de quem não está bebendo e a observando. Quem bebe faz um papel meio chato de isolar, ao não aproveitar [o momento] junto àquela pessoa que não está bebendo.”

Eu (não) me afogo em um copo de cerveja…
…talvez nela (não) esteja a minha solução. Quem não bebe acredita que não precisa de álcool para se divertir ou pensar na vida, o que é legítimo. Mas essa pessoa acaba sendo como alguém diferente. E lidar com diferenças caminha ao lado do preconceito. “Tudo o que é atípico causa um pouco de preconceito, seja com características físicas ou padrões de comportamento. Essa pessoa se sente diferente”, pontua Letícia, ao falar do caso de um paciente que havia parado de beber pouco tempo antes, e encontrou uma alternativa para driblar a patrulha do álcool. “Ele passou a beber cerveja sem álcool. Ele tem a sensação de estar no grupo, e as pessoas não enchem tanto o saco dele. Ele parece fazer parte daquilo.”

Rodada em família
De fato, alguns hábitos são adquiridos em casa. A história não poderia ser diferente com o consumo de álcool. Pensemos nas confraternizações em família: é comum ver os pais, tios ou primos mais velhos oferecerem doses pequenas de álcool para adolescentes, como se fossem um rito de passagem. Além disso, o barzinho da sala de estar pode ser a porta de entrada para eles tomarem (!) gosto pela coisa. “Você tem participação na vida dos filhos, mas é difícil delimitar um limite sobre até em que ponto isso vai ajudar, e se é favorável ou não para o filho”, destaca Letícia de Oliveira.

Na mídia
Vamos usar como exemplo o galã ou um cara bem sucedido de um filme hollywoodiano. Volta e meia, ele estará com um copo de uísque na mão, em claro sinal de poder. Ou, então, vamos pensar em um comercial com uma reunião para lá de animada entre amigos. Pronto? Pois bem: a mídia tem papel significativo nesse caso.
Duvida? Basta dizer que no fim de 2014, uma decisão da 4ª Turma do TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) restringiu a publicidade de bebidas com grau igual ou superior a 0,5 grau Gay Lussac (GL). Em resumo: comerciais de cervejas e vinhos só podem ir ao ar entre as 21h e as 6h, sendo exibidos no intervalo de programas não recomendados para menores de 18 anos até as 23h. Mesmo com medidas desse tipo, a influência midiática continua a ser significativa.

Na média?
Há quem pense que pessoas abstêmias tenham um perfil padrão – ou mais burocrático, no caso. Mas não é bem assim. Por exemplo, há os mais introvertidos que, após passarem por situações em que o comportamento era para lá de diferente após umas e outras, preferem não sair do controle. Pode haver também a pessoa mais extrovertida que, por essa característica, deixe o álcool de lado. Outros podem apenas não gostar ou não consumirem bebidas alcoólicas por causa da religião, dieta ou prática esportiva. Idem para quem teve problema com algum parente alcoólatra e não quer dar sequência ao histórico. “Muitas vezes, é difícil reconhecer o direito de dizer ‘não’ ao consumo de bebidas alcoólicas, pois o consumo é um costume milenar e, se o indivíduo não estiver resolvido com ele mesmo, a bebida torna-se uma rota de fuga até mesmo para ser aceito na sociedade”, comenta Cristiane M. Maluf Martin.

Abstemia liberada
Os abstêmios de plantão são, digamos, perdoados quando têm alguma justificativa. Quem nunca proibiu alguém de dar uma dose de bebida para o motorista da rodada, ou seja, a pessoa que não pode consumir álcool durante uma festa? Ou, então, agiu com um quê de compreensão com quem ficou à base de água porque está consumindo algum medicamento, ou até mesmo por algum motivo religioso?

Que porre, meu!
As brincadeiras com quem não bebe podem chegar a um ponto que perigam atingir a linha tênue com o bullying. Há quem não ligue, enquanto outros se incomodam ao ponto de se sentirem moralmente diminuídos e, acredite, recorrerem à terapia ou a métodos de autoajuda para não se sentirem inferiores. Nesse caso, vale o bom e velho respeito com opiniões e convicções alheias. Cada um na sua e todos curtem, bebendo ou não.

Estatística alcoólica
O 2° Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), feito em 2013 pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com 4.600 pessoas em 149 municípios, mostrou que 50% dos brasileiros não consomem bebidas alcoólicas. Já 20% bebem uma ou mais vezes por semana. Ainda, a proporção de quem consome grandes quantidades (quatro unidades para mulheres e cinco para homens) em duas horas subiu de 45% para 59% dos entrevistados.