Por Cris Marques
Fotos Arquivo pessoal, banco de imagem
e Beatriz Takata – Bia Fotografia

Aleitamento-materno-click1A chegada de um novo bebê é um acontecimento que mexe com os pais, principalmente com a mulher, e reflete em todo o núcleo familiar. É um misto de novidade, felicidade, insegurança e medo, em meio aos cuidados que aquele pequeno ser requer. E, na imensa lista dos receios, com certeza, a amamentação tem espaço cativo. Thais Olardi Tarocco (foto), doula e consultora de aleitamento materno, explica que, do aspecto fisiológico, dar de mamar não deveria ser difícil. “O corpo começa a se preparar para o aleitamento ainda na gestação. As mamas tornam-se maiores e mais pesadas, dentre outras alterações que vão possibilitar a produção de leite. Porém, apesar de mamíferos, os seres humanos são multifatoriais, ou seja, sofrem interferência do meio, o que faz com que seja necessário aprender a amamentar. A mãe também precisa ensinar o novo ser a mamar e esse processo exige ajuste, paciência, insistência e atenção aos sinais de que algo não está certo”, relata. Denise Curti Feliciano, psicóloga, psicopedagoga e também doula, acrescenta que o ato desperta sensações, até então desconhecidas e que isso exige uma doação por completo. “Amamentar não é só alimentar e saciar a fome da criança: é passar segurança, aconchego, carinho, tranquilidade e mais uma gama imensa de sentimentos”.
Sendo assim, é indiscutível que a importância do aleitamento materno é mais do que nutrição, ela é multifatorial. “O leite materno é o alimento mais completo e equilibrado para essa fase. Ele fortalece o sistema imunológico do bebê, que tende a apresentar menos doenças infecciosas, alergias e problemas futuros. Além disso, o ato também auxilia no desenvolvimento dos ossos e músculos do crânio, face e boca, o que irá refletir na respiração, fala, mastigação e deglutição, além de ajudar na preparação para a introdução de sólidos. E a amamentação também traz benefícios para as lactantes, auxiliando o útero a voltar ao normal após o parto, reduzindo o risco de hemorragia e câncer de mama e ovário, gerando sensação de bem-estar por causa dos hormônios e atuando na perda de peso”, afirma Thais.

 

Apoio e orientação são fundamentais

Aleitamento-materno-click2De acordo com a psicóloga, a falta de informação e apoio são os fatores que mais dificultam a amamentação, pois, segundo ela, hoje a mulher perdeu a crença em si. “É importante a mãe voltar a acreditar que amamentar é o que ela pode fazer de melhor para o filho e isso só acontece com informação, calma e disponibilidade. Ela precisa acreditar que não há nada de errado com seu corpo ou com seu leite. Precisa apenas de tempo. Tempo total para estar com seu bebê; estar com ele e para ele. E isso, numa sociedade imediatista como a nossa, é um desafio muito grande”, diz Denise (foto).
Ao primeiro sinal de dificuldade, Thais dá a dica. “É importante que se busque ajuda de profissionais qualificados, consultoras de aleitamento, pediatras que conheçam o manejo da lactação, fonoaudiólogas e grupos de apoio (virtuais ou presenciais). Eu sempre indico uma visita aos bancos de leite também; além de gratuitos, eles possuem informação de qualidade […] Agora, para combater os casos em que nem sequer existe interesse em uma busca por solução, só mesmo orientando a sociedade. Seja com campanhas do Ministério da Saúde, ativismo ou mesmo desmistificando os mitos em uma conversa do dia a dia”.
Já sobre os bicos artificiais, a profissional é enfática. “Os bicos de silicone não devem ser usados, podendo até agravar a dificuldade que fez a mãe buscar essa alternativa. Assim como as mamadeiras e chupetas, os bicos de silicone podem causar confusão de bicos, pega incorreta, diminuição da produção de leite, dificuldade de cicatrização ou até aumento do trauma mamilar”, pontua a consultora de aleitamento materno.

 

Os receios dos pais

Aleitamento-materno-click3Apesar de toda a importância do aleitamento materno e da OMS – Organização Mundial da Saúde – e outros órgãos determinarem que o leite materno deve ser o único alimento a ser oferecido ao bebê até os seis meses de vida, no Brasil, a média é de apenas 51 dias. Esse número reflete a falta de apoio e incentivo que as lactantes sofrem, além das dúvidas que não são sanadas da forma correta, o que leva até à desistência. “Choro não é um indicativo de fome; os recém-nascidos choram por vários motivos. Depois, é fácil identificar se ele está sendo bem alimentado verificando se, ao final da mamada, a mama está vazia ou, pelo menos, mais vazia que no início. A forma com que ele abocanha o seio também é importante: ele precisa abocanhar a maior parte da auréola possível para que a sucção seja eficiente e não apenas o bico, já que a pega errada, além de causar rachaduras no seio materno, interfere na quantidade ingerida. Outro parâmetro para saber se a amamentação está sendo eficaz é a fralda cheia, ou as trocas frequentes. Se o pequeno faz bastante xixi, é um ótimo sinal de que está mamando bem. Ganhar peso também é um fator importante, mas cada bebê deve ser avaliado respeitando sua genética e individualidades”, defende Juliana de Souza (foto), nutricionista.

 

Já conhece as Amigas do Ventre?

Aqui em Guarulhos mesmo, existe um grupo em prol de uma maternagem mais ativa, responsável e consciente. Inclusive, todas as profissionais citadas na matéria fazem parte dele. Em encontros periódicos, as Amigas do Ventre promovem rodas de apoio sobre assuntos relacionados à gestação, parto humanizado e pós-parto, com a troca de informações, leituras, dicas e apoio para levar adiante a autonomia da mulher com seu corpo e assuntos relacionados aos filhos. “Nós fazemos esse papel de orientar, de informar, de ouvir, de apoiar e incentivar”, comenta Thais.

Conheça: Facebook ou roda.amigasdoventre@gmail.com

 

Saber nunca é demais

Aleitamento-materno-click4É muito comum a mulher se preparar, física e mentalmente para o parto e acabar se esquecendo da lactação. É o que conta Maira Rodrigues Caldas Ribeiro, administradora e mãe do Augusto, de 6 meses. “Antes de começar, eu não tinha medo, mas também não tinha pesquisado sobre o assunto. Achava que seria algo natural e fácil. Ele mamou logo na primeira hora de vida e foi só um pouco incômodo. Mas depois piorou muito. A pega não estava correta, eu tinha muito leite e meu peito ficava superchei; os dois racharam e era uma dor absurda. Sofri, chorei e pensei em desistir muitas vezes. Foi aí que descobri que informação nunca é demais e ter um grupo de apoio é mais do que fundamental. Minha doula foi em casa com uma consultora em amamentação, que me fez as orientações. Hoje amo amamentar e consegui chegar aos seis meses exclusivos de leite materno”.

 

Carinho sem limites

Aleitamento-materno-click5Renata Camargo Coscia Campos acredita que o leite materno é o melhor alimento para a criança e que o ato cria um vínculo e um carinho tão único que continuou amamentando seu filho Davi, hoje com 1 ano e 8 meses. “Lido sempre com olhares de reprovação e, quando me dizem algo, tento explicar os benefícios da amamentação prolongada. Sobre a polêmica do ato ser ‘coisa de pobre’, a primeira coisa que me passa pela cabeça é que as pessoas são muito desinformadas. Mas a realidade é que elas são vítimas de um sistema que prega isso. Ouvem isso desde pequenas. Então, como julgá-las?”
Além da recomendação de amamentação exclusiva até os seis meses de vida, após a introdução dos sólidos o indicado é, sim, continuar amamentando a criança até 2 anos ou mais. “O leite materno é o melhor polivitamínico que existe e só ajuda a complementar a alimentação. No início da introdução alimentar, alguns pais podem achar que o bebê não está se alimentando o suficiente por causa do leite, mas é errado pensar assim. A comida deve ser oferecida aos poucos, com calma e sem muitas expectativas. É importante ressaltar que até 1 ano o leite materno supre as necessidades nutricionais; então, não há motivo para pânico. Com calma e amor, tudo se resolve”, garante a nutricionista Juliana.

 

Incentivo essencial

Aleitamento-materno-click6Amamentar não é uma tarefa fácil, mas, sem apoio, é impossível. Essa é a opinião de Ana Flávia Bicalho Padoves, engenheira, gerente de programas e mãe da Laura, de 1 ano. “O começo foi bem difícil. Com cinco dias, minha filha tinha perdido 20% do peso e, se não fossem o pediatra e o meu marido terem me dado todo o suporte do mundo, ela teria desmamado ali. É quase inacreditável que o médico tenha sido tão humano que, mesmo com essa perda de peso, inaceitável para a maioria absoluta dos profissionais, não tenha me indicado a fórmula. Ele me incentivou a ordenhar o leite e oferecer para ela no copinho (eu dei na seringa); assim ela acalmava e ia pro peito em seguida. Depois vieram as inseguranças. Laura ficava o dia inteiro no peito. Inteiro! E, claro, os palpites sempre eram os mesmos: ‘esse leite não está sustentando’ ou ‘essa menina precisa é de chupeta’. Se não fosse ter ao meu lado pessoas que me explicassem que faz parte o recém-nascido ficar o dia todo no peito e que a chupeta só ia atrapalhar, eu, mãe de primeira viagem, não conseguiria bancar minha decisão”.

 

Insistência e doses homeopáticas de amor

Aleitamento-materno-click7A história de Adyja Maria Braga dos Santos, ex-fisioterapeuta, sócia-proprietária da Mulliere Lingeries e Acessórios e mãe do Theo, que está com sete meses, foi um pouco diferente “Meus problemas começaram ainda no hospital, quando me venderam um bico artificial. Já em casa, ele não pegava o peito de maneira alguma, chorava muito, ficava nervoso e assim eu fui ficando cada vez mais triste e desesperada. Fiquei com medo dele passar fome e entrei com o complemento na mamadeira. Uma amiga pediatra ficou ‘besta’ com o fato do hospital me vender o bico artificial e avaliou que ele já estava acostumado a isso. Depois ainda passei por uma doula especialista em amamentação, alguns dias no Banco de Leite de Guarulhos e uma nova pediatra, além de relactação e aumento de complemento. Segui praticamente numa amamentação mista quase até o quinto mês de vida dele e depois desisti. Não foi fácil! A médica falou que mesmo assim isso faria diferença na vida dele. Então costumo dizer que meu filho tomou doses homeopáticas do meu leite. Tenho esperança de amamentar numa próxima gestação. Com certeza, farei tudo diferente”

 

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