Alta-costura: nunca vi, nem vesti, só ouço falar

Em julho, Paris foi palco de mais uma semana de alta-costura, evento que reúne as mais famosas e consagradas marcas do universo fashion. Quem acompanha desfiles e gosta de moda  sabe bem que alta-costura não é para todos. Aliás, é quase para ninguém. Feita por um seleto grupo de estilistas, pouquíssimas pessoas têm acesso às roupas que são vistas na passarela, isso porque, segundo um artigo publicado no “The Telegraph”, uma peça sem muitos adornos pode sair pela bagatela de US$ 10 mil.

Achou muito? Então pasme, porque modelos mais elaborados, com bordados e pedrarias, feitos para festas e red carpets da vida, podem chegar à casa dos seis zeros. Mas afinal, o que há de tão diferente na AC e por que custa tão caro? A alta-costura caracteriza-se por ser uma moda exclusiva, feita à mão, com materiais de altíssima qualidade. E se você acha que qualquer um pode fazer parte desse clubinho de pompa e glamour, engana-se, pois existe um sindicato específico que define quem pode ou não participar. O Chambre Syndicale de la Haute Couture avalia, anualmente, o grupo de marcas que farão os desfiles.

Há regras rígidas para atender o padrão da AC, como, por exemplo, ter um ateliê em Paris, empregar ao menos uma equipe em tempo integral de 15 pessoas, fazer as peças sob encomenda e apresentar coleções duas vezes por ano, com pelo menos 35 looks para dia e noite. E vale lembrar que, apesar de o segmento ser de luxo, o trabalho é hard. Horas, dias e até semanas são gastos na confecção de uma única peça. Um simples terno da Chanel, por exemplo, é feito por duas pessoas trabalhando o dia inteiro por duas semanas.

Dá até para entender o lance da exclusividade, mas talvez você esteja se perguntando se existe quem compre roupas tão caras. A resposta é sim. Apesar de ser um segmento com poucas – mas afortunadas – clientes, preço não é preocupação para cerca de quatro mil consumidoras espalhadas mundo afora. Obviamente que a alta costura não se designa por ser um negócio tão rentável, mas é uma ótima oportunidade de posicionar a marca.

É como se fosse uma estratégia de marketing, em que o estilista tem a chance de mostrar suas habilidades, técnicas e criatividade, além de transformar roupas de conto de fadas em realidade. Aí, a consumidora que pode comprar o vestido que apareceu no desfile de alta-costura da Chanel compra. Já a mulher que tem dinheiro, mas não tanto para investir no “vestido da Cinderela”, pode satisfazer-se com uma bolsa modelo 2.55 também da marca.

Resumidamente, a alta-costura é um trabalho baseado em sonho, desejo e luxo. E ainda que seja uma realidade bem diferente da nossa, reles mortais que usam fast fashion (Zara, C&A, Riachuelo, Renner, etc), ela existe.  Bem, pelo menos não dá mais para dizer que nunca ouviu falar em alta-costura. Quanto a vesti-la, aí já são outros quinhentos.

PARIS, FRANCE – JULY 10: (EDITORS NOTE: Image converted to black and white) A model waits backstage before the Zuhair Murad show as part of Paris Fashion Week – Haute Couture Fall/Winter 2014-2015 at Palais Des Beaux Arts on July 10, 2014 in Paris, France. (Photo by Gareth Cattermole/Getty Images)