Por Cris Marques
Fotos: Divulgação e
Vagner Campos/A2 FOTOGRAFIA

O ano de 2015 foi cheio de contradições em muitas áreas, inclusive no que se refere ao meio ambiente. Se por um lado, a COP 21, a cúpula do clima de Paris, produziu um acordo histórico, no qual, pela primeira vez, países do mundo entraram em um consenso de que as emissões advindas dos combustíveis fósseis e o desmatamento precisam chegar ao fim. Por outro lado, tivemos um cenário nacional de crise hídrica em grandes cidades do Sudeste, as enchentes que castigam quase todo o território brasileiro e o maior desastre ambiental ocorrido em terras tupiniquins, a tragédia de Mariana. Depois de um ano em que o País oscilou entre importante protagonista para a resolução firmada na Cidade Luz e uma nação muitíssimo mal preparada para reagir diante da enorme complexidade de seu próprio cenário, o que podemos esperar de 2016?

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Erika Guimarães e Angela Pellin

Angela Pellin, bióloga, pesquisadora e coordenadora de projetos relacionados a áreas protegidas do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas), docente da Escas (Escola Superior de Conservação Ambiental) e uma das autoras do livro “BiodiverCidade”, afirma que a consciência ecológica ainda é um grande desafio para a nossa sociedade, mas que a temática vem ganhando espaço. “A agenda ambiental deve ser parte de uma política de Estado e o desenvolvimento econômico do País não pode desconsiderar esse patrimônio natural, já que nosso PIB é extremamente dependente disso. As áreas protegidas urbanas são essenciais nesse contexto, uma vez que, se a sociedade puder desfrutar desses espaços e entender sua importância, iremos ganhar o apoio social necessário para sua conservação”.

Erika Guimarães, bióloga e coordenadora de áreas protegidas da Fundação SOS Mata Atlântica e também autora da citada obra, acredita que, apesar do rompimento da barragem da Samarco e suas consequências terem mostrado o quanto ainda é necessário aperfeiçoar a gestão do País, a “lição” pode não ter sido tão eficaz. “As consequências dessa tragédia serão sentidas ainda a longuíssimo prazo. Nós não sabemos como lidar com as contingências e nosso processo de monitoramento ambiental apresenta muitas fragilidades. É preocupante que, semanas depois do trágico acontecimento, o Senado tenha aprovado uma proposta que flexibiliza e simplifica o processo de licenciamento de obras consideradas ‘estratégicas’, o que torna o processo menos severo. E temos ainda o novo Código da Mineração, que também está em discussão, e permite que áreas sensíveis e já reconhecidas como Unidades de Conservação possam ser alvo de atividades minerárias, o que é um grande retrocesso”.

 

É hora de agir

Apesar de ser um consenso que a questão ambiental ainda precisa avançar muito na criação de políticas públicas que assegurem o fim do desmatamento ilegal, a restauração de áreas e a transição para uma economia de baixo carbono no mundo todo, ambas as especialistas ressaltam a importância da COP21 como um primeiro passo dado. “O fato de os países terem compreendido a necessidade de reagir e de propor medidas para estabilizar a temperatura da Terra bem abaixo de 2º C, esforçando-se para limitá-la a 1,5º C, é uma grande conquista. Contudo, o acordo foi construído tendo como base compromissos voluntários e, nesse cenário, a implementação será conforme permitirem as circunstâncias”, avalia Erika Guimarães.

No Brasil, um dos dez maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, causados, em sua maior parte, pelo desmatamento, o plano foi ambicioso: uma redução de 37% nas emissões até 2025, e de 43% até 2030, com base nos níveis de emissão de 2005. Um prazo incompatível com a emergência climática, segundo Angela Pellin. “A revisão da nossa Lei de Florestas, aprovada em 2012, já foi bastante tolerante com o desmatamento ilegal e, passados três anos, ainda não foi implementado o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e outras medidas para pôr fim de uma vez por todas ao desmatamento legal. Outra contradição está no que diz respeito à energia limpa já que, de certa forma, o Acordo de Paris decreta o fim da era dos combustíveis fósseis, mas o governo previu que 70% dos seus investimentos energéticos nos próximos dez anos serão destinados a esses combustíveis. […] A promessa coloca a nação num bom caminho, o desafio me parece ser converter isso em ação. Não deveria existir uma dissociação entre os compromissos internacionais assumidos e as estratégias de desenvolvimento e investimentos”, opina.

 

A questão da água

A crise hídrica pela qual passaram grandes cidades do Sudeste chamou a atenção, mas, mesmo que hoje o cenário pareça menos pessimista por conta do Verão chuvoso de vários estados, o que fez, inclusive, o sistema Cantareira sair do volume morto, o assunto não deve desviar do foco, segundo a pesquisadora e docente. “É preciso entender que sem florestas não tem água. Elas são produtoras desse bem natural e é imprescindível investir na restauração e na proteção de áreas de mananciais, além de ser mais barato do que fazer obras homéricas de transposição para levar água de um ponto distante ao outro. A outra questão é a má gestão do sistema e os desafios com saneamento. Precisamos parar de jogar esgoto nos rios: isso é ineficiente e caro; e também cobrar uma mudança de comportamento dos governos quanto à gestão do sistema”.

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Resoluções para 2016

Com o legado que 2015 deixou e as promessas para o futuro, o mundo e o País começam a reconectar sociedade e natureza. “O Brasil precisa valorizar mais seu patrimônio natural e ser muito mais ambicioso e eficaz no que diz respeito às questões ambientais. Todos os setores da economia precisam estar comprometidos com a redução das emissões e engajados em melhorar seus processos e sua cadeia produtiva, para evitar os impactos ambientais. Mas digamos que o primeiro passo foi dado em Paris e, apesar de ser preciso manter o engajamento e o comprometimento para que as metas saiam do papel, por ora, devemos celebrar essa conquista”, finaliza Angela.

 

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