Apaixonadas por aviação, mãe e filha se tornaram comissárias de bordo

Carolina e Rosely em Londres, Inglaterra - Foto: Arquivo Pessoal

Nesta sexta-feira, 31 de maio, data em que é comemorado o Dia Internacional do Comissário(a) de Bordo, o Click Guarulhos conta a história de Rosely e Carol, mãe e filha que acabaram escolhendo a mesma profissão: aeromoças. A data foi criada para homenagear essas profissionais, responsáveis por tornar as viagens de avião mais agradáveis para alguns, ou menos estressantes para outros.

Os comissários são capacitados e exaustivamente treinados para atender às mais diversas situações que possam ocorrer num voo, sempre mantendo a calma, elegância e apurado senso de responsabilidade.

Conta a história que a profissão teria surgido em 1930, graças à figura de Ellen Church, uma enfermeira que era apaixonada por aviação e que sugeriu à companhia Boeing Air Transport que incluísse sempre uma enfermeira nos voos para acalmar os passageiros.

Já a origem do Dia Internacional do Comissário de Bordo é uma homenagem à criação da Internacional Flight Attendants Association – IFAA (Associação Internacional dos Comissários de Voo), fundada em 31 de maio de 1973, no último dia do Congresso dos Comissários de Voo (Concov). No entanto, o Dia do Comissário de Bordo só foi oficializado em 1986.

Guarulhenses escolheram a mesma profissão

Rosely Aparecida Corbacho Sanmartin, comissária de bordo aposentada, optou pela profissão por acaso. “Foi por acaso, não estava nos meus planos. Fui acompanhar uma amiga em uma entrevista de emprego na Transbrasil Linhas Aéreas e durante a entrevista fui convidada a participar da seleção. Resultado: fui admitida e minha amiga não”, conta Rosely.

Ela entrou na empresa aos 23 anos e lá permaneceu até se aposentar (a profissão tem aposentadoria especial). “Um ano depois, a Transbrasil abriu falência, fiquei muito triste”, lembra.

Na Transbrasil Rosely passou por várias etapas até conseguir se tornar comissária de bordo. “O primeiro passo foi fazer um check-up no HASP (Hospital da Força Aérea de São Paulo), para tirar a carteira de saúde que comprovasse estar apta para voar; depois fiz um curso preparatório de aproximadamente três meses, na própria empresa. Naquela época não existia escolas para comissários. Esse curso era dividido em duas partes: teórica e prática, que incluía sobrevivência na selva, sobrevivência no mar e combate a incêndio, sempre refeito de dois em dois anos. E, para finalizar, o exame na Anac (Agencia Nacional de Aviação Civil) para adquirir a Licença de Voo Permanente. Depois tínhamos que fazer cursos de cada equipamento (aeronave) da empresa: Boeing – 727, 737, 707 e 767, para adquirir o certificado de habilitação técnica de cada um. Só aí deveríamos providenciar o passaporte”, relembra.

Na época havia somente três empresas aéreas grandes no Brasil: Vasp, Varig e Transbrasil. “O que eu mais gostava na minha profissão era o lado glamoroso, o lado fascinante, de conhecer muitas cidades e países. Conheci também pessoas maravilhosas, de vários locais e culturas diferentes, sem falar dos meus amigos tripulantes, que guardo no meu coração. Uma vez por ano nos encontramos para matar a saudade. Foram várias datas comemorativas, as quais passei longe da minha família, como Natal, Ano Novo, Dia dos Pais, Dia das Mães, aniversários, mas acho que valeu a pena cada segundo, pois acabei passando esses dias com minha outra família: a Transbrasil”, conta, nostálgica.

Quando soube do interesse da filha em se tornar comissária de bordo, Rosely não se surpreendeu. “A Carolina, desde sempre, vestia o meu uniforme quando era pequena e brincava com isso. Fiquei muito emocionada (quando soube) e dei a maior força, porque sabia que ela iria se apaixonar por essa profissão. Sinto-me honrada por ter conquistado a realização profissional e pessoal por meio desta profissão, tão linda e incrível, e muito orgulhosa pela conquista da minha filha, em ser uma comissária de bordo internacional, numa empresa muito conceituada da Inglaterra. Agradeço a Deus todos os dias e peço a Ele que proteja todos os tripulantes”, concluiu Rosely.

Tal mãe, tal filha…

Já Carolina Corbacho avalia que a decisão de seguir os passos da mãe sempre esteve com ela. “Desde pequenas, minha irmã e eu, gostávamos muito de viajar; a gente até brincava que iríamos montar a nossa própria companhia aérea. Tínhamos até a Barbie comissária”, conta entusiasmada.

Depois que virou adulta outros planos ocuparam sua cabeça e ela foi se engajando em outras atividades, mas o desejo de viajar sempre esteve lá, não necessariamente como comissária.

“Uma oportunidade surgiu no meu antigo trabalho, de vir para Europa, e claro que eu aproveitei”, diz.

Depois disso acabou se mudando pra Inglaterra; após alguns anos trabalhando como babá Carolina decidiu que era hora de ter uma carreira profissional. “Pesquisei cursos em um “college” perto da minha casa e um deles era de comissária. “Conversei com a minha mãe, pois eu não queria ter uma visão distorcida do trabalho, aquela versão dos anos 1950, que a gente imagina que tudo é glamoroso”, analisa.

Para Carolina, ter crescido nessa indústria a fez ter uma visão mais realista da profissão. “As partes boas são muitas, com certeza. Conhecer a Muralha da China, Las Vegas, a Opera House de Sydney, jardins de Singapura, templos na Tailândia. Mas também tem um lado muito cansativo, claro: trabalhar 16 horas seguidas; ficar acordada em voos noturnos, tentar entender tantas outras línguas, fusos horários etc”, compara.

Uma parte desconhecida do grande público é o esforço na preparação de uma comissária. “O que muita gente não sabe é o quanto somos preparados. Meu treinamento com a empresa aérea na qual trabalho durou quase dois meses (fim de semana e feriado não existem) e todo ano tem dois dias que eu preciso fazer todos os exames novamente: práticos e teóricos. Eles incluem treinamento de simulação de incêndio, medicina de aviação, incluindo CPR, e todos os procedimentos normais e de emergência, em cada avião que somos treinados: sou habilitada para quatro tipos de aviões. Nós também temos que chegar à sala de reuniões uma hora e meia antes dos voos; antes de todo voo a comissária responsável faz perguntas individuais a cada membro da tripulação, sobre cenários médicos ou situações de emergência; se você responder duas perguntas incorretamente você pode ser tirado do voo”, explica.

Mas, para ela, todo esforço e estudo vale a pena, pois todos os dias se depara com pessoas viajando de férias, visitando familiares, indo para reuniões de trabalho; e se algo inesperado acontecer, minutos podem fazer a diferença, portanto estar bem preparado salva vidas em uma situação de emergência.

“Mas, como muitos falam, não e uma profissão, é um estilo de vida. Assim que saímos do avião, mesmo muitas vezes não conhecendo nenhum dos colegas a nada além de algumas horas, a gente normalmente já faz um grupo no whatsapp, já combina de sair assim que chegar ao hotel, faz os melhores amigos, por um dia ou dois, e depois começamos tudo de novo”, conclui.