As principais questões sobre gravidez tardia

Por Val Oliveira

A vida, com seu ritmo acelerado e a nova posição social da mulher, que mergulha cada vez mais fundo em busca de realização profissional, tem contribuído para que um número cada vez maior de mulheres adie o sonho de ser mãe. Números divulgados pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2013, dão conta de que no estado de São Paulo o índice de mulheres que optaram por ter filhos após os 35 anos aumentou, em média, 16,6%, o que reforça a percepção de que essa conduta está se tornando natural.
A evolução da medicina e o surgimento de recursos tecnológicos podem auxiliar as potenciais mamães e também encorajar a “empurrar com a barriga” o projeto de ter filhos. No entanto, apesar disso, a partir dos 30 anos a escala de dificuldade para se conseguir engravidar naturalmente sobe acentuadamente.

Chances

De acordo com o médico Renato de Oliveira, ginecologista e obstetra, responsável pela área de reprodução humana da Criogênesis, clínica e laboratório especializado em medicina reprodutiva e regenerativa, a idade ideal para engravidar depende de cada caso. Porém, fisiologicamente, pode-se considerar, entre os 20 e 25 anos, como idade apropriada. “Se formos mais flexíveis, entre os 20 e 30 anos. Os riscos de diabetes gestacional e doenças hipertensivas específicas da gestação, como a pré-eclâmpsia, por exemplo, são menores em pacientes mais jovens. No entanto, cada vez mais a mulher posterga sua gestação. Até 35 anos, há boas chances de gravidez e de uma gestação sem importantes intercorrências. A partir dos 35 anos, aumentam os riscos de complicações obstétricas e ainda há uma queda progressiva e mais evidente da fertilidade feminina”, pontua.
No momento da primeira menstruação, a menina tem média de 300 a 400 mil óvulos, que vão diminuindo mês a mês. Aos 35 anos, esse número de óvulos gira em torno de 50 mil, enquanto na menopausa não passa de mil. Dessa forma, as chances de gravidez após os 40 anos, sem ajuda médica, são menores que 10%. O médico destaca que a idade avançada também pode provocar abortos e nascimentos prematuros. “Com o avançar da idade, aumenta-se a probabilidade de desenvolvimento da Síndrome de Down, uma vez que oócito (gameta feminino) possui a idade da mãe, ficando mais suscetível às alterações genéticas e erros na divisão celular quando fecundado. Dessa forma, principalmente após os 40 anos, torna-se maior a chance de desenvolver alterações genéticas”, explica Renato.
Ainda assim, para o médico, apesar dos riscos, a gravidez tardia pode ter suas vantagens, pois geralmente ela é muito planejada e isto, na maioria das vezes, faz com que a criança receba maior suporte afetivo, além de a mãe renovar as expectativas para com sua própria vida.

Cuidados

Além da idade, outros fatores como o abuso do álcool, cigarro, drogas, obesidade e sedentarismo, doenças uterinas como a endometriose, por exemplo, podem comprometer as possibilidades de gravidez. “Para as mulheres que desejam engravidar, é muito importante fazer uma avaliação médica antes da concepção, a fim de verificar as condições gerais do organismo”, explana.
No pré-natal, segundo o médico, os cuidados devem ser redobrados, com consultas constantes. Além de exames específicos para detecção e controle de anomalias na mulher, o feto também precisa ser examinado. “A realização da ecocardiografia fetal é recomendada, devido ao aumento de casos de alterações cardíacas fetais em mulheres com idade mais avançada”, informa.

Exames de fertilidade, fertilização in vitro e inseminação

Ao perceber que há dificuldade para engravidar pelo método natural, é aconselhável que a visita ao médico não seja adiada, pois o tempo pode ser implacável. Geralmente, exames para o diagnóstico de infertilidade são feitos em casais que não alcançaram a gestação após um ano de tentativas. “Atualmente, há uma tendência em aguardar um ano quando a mulher tem idade até 35 anos. Entre 35 e 40 anos, aguarda-se seis meses. A partir de 40 anos, faz-se investigação imediata de possíveis causas de infertilidade. A averiguação mínima precisa de avaliação hormonal e anatômica feminina, e espermograma”, informa o ginecologista.
O profissional destaca ainda que, mesmo na inseminação artificial – procedimento em que o espermatozoide é colocado diretamente na cavidade uterina da mulher para que haja a fecundação -, ou na fertilização in vitro – método em que a fecundação é feita fora do organismo e depois colocada no corpo da mulher, não há garantias de gravidez após os 40 anos. Depois dos 45 aos 50, as possibilidades são ainda menores. Devido aos riscos e às poucas chances de sucesso, em 2013, o Conselho Federal de Medicina restringiu a 50 anos a idade máxima para o uso de técnicas de reprodução assistida. Dessa forma, o fator idade continua sendo entrave para a obtenção de resultados positivos. “Aliás, é um dos fatores que mais impacta nos resultados dos tratamentos de reprodução assistida. A dica é nunca postergar a gravidez, sempre que possível”, aconselha o médico.

Mãe aos 39

A enfermeira Ana Maria da Silva Castelari, 47, é mãe de Giovanna, Matheus e Giulia. Ela conta que após 11 anos desde sua segunda gravidez, receber o exame com resultado positivo foi um susto enorme. “Eu não esperava. Tive muito medo e receio de alguma síndrome, por causa da minha idade. Mas, graças a Deus, correu tudo bem. Com o tempo, meu coração se encheu de alegria e tudo passou a ser diferente”, relata.
Ana explica que o receio maior foi porque o parto de seu primeiro filho foi traumático, com 18 horas de contrações. Na terceira gravidez, teve hipertensão e fez uso de remédio para o controle de pressão arterial duas vezes ao dia. Mesmo assim, teve pré-eclâmpsia e o parto, por cesárea, teve que ser antecipado.
Ana destaca ainda que nas primeiras gestações trabalhou até o dia de ter o bebê e que na última estava em casa e curtia mais cada momento e pôde dispensar atenção e cuidado para com o recém-nascido. “É bem diferente. Quando você é mãe com mais idade, você está mais madura e paciente. Por ter nascido de 36 semanas, teve mais hospitalização e essa parte foi bem difícil. Mas, por outro lado, curti mais e pude amamentar até os dois anos”, diz.
Dessa experiência, a enfermeira relata alguns aspectos negativos, mas que não tiraram dela o prazer de ser mãe. “Primeiro houve o ciúme dos outros filhos mais velhos. […] Houve também uma vez que saímos de férias e fui chamada de avó por um funcionário do hotel, onde estávamos hospedados”, descreve.
Na concepção de Ana, a idade ideal para se pensar em ter o primeiro filho é por volta dos 30 anos. Para ela, após a experiência da maternidade a vida nunca mais será a mesma. “Hoje a maternidade fica em terceiro plano, pois as mulheres são bem resolvidas e decidiram estudar mais, focar na carreira, ganhar mais dinheiro para aquisição de bens, viagens e, depois de tudo isso realizado, vai pensar em ser mãe. Muitas vezes, por ter deixado esse sonho para o ‘momento certo’, é necessário utilizar os métodos de fertilização. Mas o amor de mãe não tem idade: 20, 30, 40, 50 anos? Ninguém pode definir, a maternidade é benção de Deus”, conclui.

Mãe aos 40

A advogada Márcia Teresa Lopes Covelli, 55, é mãe de Vinycius, 25; e Bárbara, 15. Ela diz que ser mãe é “um presente de Deus” e que a segunda gravidez, aos 40 anos, não estava em seus planos. Sobre os receios e expectativas que experimentou no momento que soube que teria mais um herdeiro, ela comentou: “Susto! Susto! Um medo muito grande. Fiquei perdida. Eu não sabia como reagir ou como contar ao Viny, que já tinha 10 anos de idade, que ele teria um irmão, pensando que eu estava muito ‘coroa’ para ser mãe. Tive muitas preocupações quanto à gestação, pois toda gravidez aos 40 anos é considerada de risco. Na primeira gravidez, tudo era surpresa, mas durante a segunda já estava familiarizada com as transformações do meu corpo, com as sensações maravilhosas de ser mãe e a gestação acabou sendo tranquila”, relata.
Márcia afirma que não houve ciúme por parte do filho mais velho, que aceitou muito bem a irmã e sempre se prontificou a ajudar a cuidar da caçula, até mesmo querendo dar banho e trocar fraldas. Para ela, a maternidade depois dos 40, apesar de alguns riscos, é maravilhosa. Contudo, alerta para que as futuras mamães “quarentonas” não se esqueçam de verificar as condições de saúde antes da concepção do “rebento” e que há sempre o lado bom, apesar dos obstáculos que podem aparecer.

Mãe aos 42

A microempresária Angélica Silva, 47, é mãe de quatro filhos: Nora, Noara, Vinícius e Juliano.
A primeira gravidez foi com 21 e a última com 42 anos. Ela conta que, apesar da imensa felicidade que sentiu com a descoberta da quarta gestação, foi uma surpresa. “A minha reação foi: e agora? Tudo de novo? Mesmo porque, da segunda gestação para a terceira, tem 10 anos de diferença, e quase dez anos depois, vem o quarto susto”, diz, bem humorada.
Ela relata que não notou grandes diferenças na experiência de ser mãe em momentos bem distintos da vida e que o trato com os filhos não apresentou grandes inovações, mas que a questão da idade sempre gera algum inconveniente. “Nunca é igual. Parecidos mesmo são só o amor e a expectativa. Sempre há um pouco de medo por causa da idade. Depois, tem também aquelas pessoas preconceituosas que te olham e comentam. O legal de ter filho depois dos 40, quando já se tem outros, é que a paciência é maior, você tem mais segurança e os outros filhos acabam ajudando nos cuidados. Quando é primeiro filho, além dos riscos, você não tem mais o ritmo das crianças. É preciso energia para brincar, correr atrás e conseguir acompanhar o filhote. Não aconselho ninguém a engravidar depois dos 40”, declara.