Por Amauri Eugênio Jr.

Na sexta-feira, 2, é celebrado o Dia Mundial do Autismo, data voltada à conscientização sobre o transtorno. Apesar de diversos avanços no tratamento e na integração social de pessoas autistas, o autismo ainda é cercado pela pouca ou nenhuma informação e até mesmo pelo preconceito. Isso porque o autismo é um transtorno global do desenvolvimento, no qual há alteração que prejudica a interação, a comunicação e o comportamento. Ou seja, é marcado pela dificuldade na comunicação social.
Algumas das principais características do autismo são a dificuldade no relacionamento com outras pessoas; preferência pelo isolamento; recusa a afagos e demais demonstrações de carinho por parte de outras pessoas, como pais; atraso no desenvolvimento da fala; ecolalia, ou seja, quando uma mesma palavra ou frase é repetida fora de contexto e sem sentido; repetição de gestos, ações e fala; resistência à mudança de rotina; dificuldade para expressar necessidades; choro ou riso inapropriados; e fixação ou apego não apropriados a um determinado objeto – por exemplo, um menino brincar com um carrinho e virá-lo de ponta cabeça em vez de colocar em movimento. “Se a criança tiver oito dessas características em diante, pode-se dizer que ela tem autismo”, destaca Alexandra Oliveira, coordenadora pedagógica do Ciaag (Centro de Inclusão e Apoio ao Autista de Guarulhos).

Os graus do transtorno
O autismo pode ser classificado por meio dos TEAs (transtornos do espectro autista), graduados nos níveis leve, moderado e severo. Há também a síndrome de Asperger, pertencente ao TEA, considerada como autismo de alta funcionalidade. Como se pode supor, os casos mais leves de autismo têm maiores chances de inserção social, a depender do trabalho socioterapêutico recebido na infância. Em casos mais agudos há mais dificuldade para fazê-lo, em virtude da particularidade e complexidade de cada caso. Contudo, aqui vale uma ressalva: quanto mais cedo se descobrir o transtorno, mais fácil será para a criança se desenvolver. “As características da criança autista são fáceis de ser observadas antes mesmo dos 3 ou 4 anos. É possível ver os primeiros sintomas com 1 ano e meio ou 2 anos, quando já começa a haver interação social e linguagem verbal. Quanto antes começar o trabalho de desenvolvimento de estímulo, melhor será para a criança”, destaca Marielaine Gimenes, fonoaudióloga, mestre em fonoaudiologia, especialista em linguagem e diretora-clínica da Comunicare Clínica e Consultoria em Fonoaudiologia.

Passo a passo
O trabalho de desenvolvimento de uma criança autista é multidisciplinar, ou seja, foca na formação de sua autonomia, por meio de linguagens verbal e não verbal. Além disso, o objetivo é dar-lhe autonomia para fazer tarefas básicas, como alimentação ou ir ao banheiro. São feitas sessões com fonoaudiólogo, psiquiatra, terapeuta ocupacional, neurologista, psicólogo, psicopedagogo e fisioterapeuta, por exemplo. Outras atividades podem ser a musicoterapia, ecoterapia, atividades voltadas à vida diária, entre outras.

E a coordenação motora?
Pois bem, ela precisa ser desenvolvida também. Isso acontece pelo seguinte: a criança autista pode ter dispraxia, ou seja, dificuldade para relacionar um membro à funcionalidade – as pernas para a locomoção, ou as mãos para pegar um objeto, entre outros casos.

Modo repeat
A repetição é uma das características marcantes para uma criança autista e, por isso, estabelecer uma rotina é importante para ela. Por exemplo, ao levá-la à escola, é fundamental fazer o mesmo trajeto ao qual ela está acostumada e, caso seja necessário mudá-lo, é preciso comunicar a ela com antecedência. Caso não o fizer, a criança se sentirá fora de seu eixo e, assim, fora de seu mundo.

Fase adulta
Uma vez que o autismo foi detectado ainda nos primeiros anos de vida e foi feito todo o trabalho multidisciplinar, é possível que a pessoa seja inserida na sociedade. De acordo com o grau cognitivo, a repetição (de novo!) pode ajudá-la a desenvolver sua habilidade em determinada área, ao fazê-la se tornar até mesmo especialista no assunto em questão.

Blue Kids Group
Um dos símbolos do autismo é a cor azul. Sabe por quê? A incidência do transtorno é muito maior em meninos do que em meninas, ao ser detectado em uma garota para quatro crianças do sexo masculino.

Base familiar
É inegável que receber a notícia de que o filho tem autismo não é a coisa mais fácil de ser assimilada. Contudo, é fundamental a família saber lidar com essa nova realidade, e dar todo o suporte e carinho à criança. Afinal, o ambiente familiar é o primeiro grupo social dela e, por isso, o seu ponto de referência.
Como o assunto é a adaptação à nova realidade de vida, a família precisa também passar por acompanhamento contínuo com a criança, para poder ter condições de dar todo o suporte emocional e cognitivo para ela, por meio do auxílio em tarefas cotidianas e lúdicas. “Ter um filho autista não é fácil, pois tudo o que precisamos é muito difícil, ou ainda temos de lutar para conquistar e isso é demorado em muitas vezes. Porém, enxergar cada conquista e avanço de seu filho é uma forma de incentivo para o autista e nós, como pais, aprendemos nessa caminhada que cada pequeno feito é motivo para festa e alegria”, conta Marina Cafasso Moreira, diretora vice-presidente da associação Autismo & Sociedade, ao enfatizar um aspecto fundamental. “[É necessário] simplesmente amar, pois não temos uma forma pronta para falar às famílias sobre como se adaptar ao seu autista. O que torna esse transtorno mais difícil é que cada autista, apesar de seu grau parecido, é único, pois uma linha de tratamento que serve para um nunca será igual para o outro de mesmo grau.”

Vida escolar 
Procura-se inserir a criança com autismo em uma sala de aula regular, mas com mais cuidado na parte pedagógica, pois ela tem maneiras diferentes para aprender – o que varia de acordo com o caso. Além disso, é fundamental ela ter acesso a centros especializados, nos quais ela fica no contraturno escolar, onde terá acesso a materiais adaptados e pode fazer exercícios para adaptar-se à sala de aula regular. Infelizmente, ainda são poucas as escolas que permitem, de fato, a interação de uma criança autista e, sendo assim, o suporte de uma equipe técnica em um centro especializado é fundamental nessa tarefa. Vale ressaltar que a matrícula em uma escola especial deve ser feita em último caso, quando não houver nenhuma alternativa.

O dia A
O Dia Mundial do Autismo foi criado pela ONU em dezembro de 2007 para fomentar a conscientização sobre o autismo ao redor do mundo. A data escolhida (2 de abril) é marcada pela iluminação de prédios e o uso de peças de roupa com a cor azul. Em Guarulhos, a data foi incluída calendário oficial de eventos do município por meio da Lei 7.208/13, de autoria do vereador Laércio Sandes (PMN).