Carlos Eduardo da Soledade Costa nasceu em Guarulhos, tem 22 anos e há três anos deixou a cidade para morar nos Estados Unidos, onde foi jogar basquetebol. Agora, está de mudança para o Canadá. Ele contou à RG como tudo aconteceu.

Cadu, como é chamado pela família e amigos, estudava no Colégio Parthenon, no 8º. ano, quando o basquete passou a fazer parte de sua vida. Diz que já tinha feito de tudo em esportes: judô, futsal… Já era alto aos 13 anos e a professora Vilma, que desenvolve projetos ligados ao basquete; ela era treinadora do Sesi, Cocaia. “Comecei a treinar lá, em duas ou três categorias, com pessoal da minha idade e mais velhos. Ia depois da aula e treinava a tarde toda, chegava em casa à noite. Vilma viu em mim um talento que eu não havia descoberto. No primeiro jogo, minha família ficou admirada com o interesse dela, porque meu desempenho não era tudo isso”, relata.

Ele ficou dois anos no Sesi, jogando também pela Prefeitura algum tempo. No Sub-15, foi para a Hebraica: havia jogado contra o clube tempos antes e o técnico Nicolas, filho de um diretor, Marcelo Schapochnik, convidou-o a jogar lá. Nessa fase, teve a oportunidade de viajar para a Áustria; foram 12 dias, quando pôde conhecer outras culturas; depois, participou dos Jogos Panamericanos Maccab e começou a ver o basquete como uma ferramenta para alcançar objetivos.

Diz que até teve sorte, mas que precisou de muito empenho para galgar cada espaço, cada degrau: “A sorte está ao lado de quem trabalha”, opina. No segundo ano ali, foi para o Sub-17 do Palmeiras, convidado por um técnico, que se transformou em seu mentor até hoje, que lhe ensinou muito, Felipe Luiz Santana, o Filé. “Ele me ensinou muito. Montou um supertime com caras que até hoje estão jogando no adulto ou fora do País. Ali eu percebi o que é disputar pra valer, treinar muito para melhorar a cada dia. O Filé acabou saindo do Palmeiras e chegou o Betão, que havia sido jogador há muito tempo. Tivemos uma ótima sintonia de trabalho. Foi quando passei ao time adulto, profissionalmente, o que anos antes eu nem imaginava”.

Indagado sobre como conseguia conciliar essa rotina com os estudos, disse que precisou sair do Parthenon no terceiro ano por não poder estudar dois períodos; foi para o Torricelli. Saía da aula e ia com a mãe até a Dutra, em frente ao Shopping; ela levava uma marmita e ele almoçava no carro nesses poucos minutos. Tomava ônibus e depois metrô para chegar ao Palmeiras. Chegava em casa depois das 20h. “Foi muito sacrifício, não só para mim, mas para a família”, emociona-se.

“Como Betão havia jogado basquete muito tempo, agora como técnico, ele acreditava muito no que eu acredito, de se entregar por inteiro ao esporte, ao aprendizado”, revela.

No final do Estadual, o time perdeu para o São José, derrota que ainda machuca, pois a equipe do 17 era muito talentoso. Ficou no Palmeiras até o Sub-19, tendo oportunidade de jogar com atletas que antes só via jogar. “Só de estar perto daqueles caras da Seleção Brasileira, da Argentina, jogadores que foram campeões da NBB (liga nacional do basquete), foi uma vivência muito especial. Nada parecia aquele moleque de 13 anos que mal sabia fazer bandeja, nem os fundamentos, mas muita vontade de aprender”, filosofa.

Filé voltou ao Palmeiras e manteve cinco dos que jogavam comigo desde o 17 e trouxe jogadores que, de início, parecia que não daria liga com os outros. “Mas, treinamos muito, aprendemos muito sobre ética no trabalho, disciplina; treino de manhã, academia depois, treino à tarde mais tático, com muita interação, ensaiar como seria o jogo. Na verdade, Filé defendia que o treino tem de ser mais difícil do que o jogo”, conta. Cadu elogia a personalidade de Filé, por sempre ser estudioso, ter feito mestrado, em análise de vídeos, e por tudo isso o admira muito.

Morando fora

Depois disso, chegou a chance de fazer carreira no Exterior. “Sempre tive o sonho de morar fora. Via a competitividade dos jogos de lá. Depois do Sub-19, não tinha muito a fazer por aqui. Se fosse jogar adulto, não conseguiria estudar. Fui para a Flórida (EUA), jogando em uma academia; estudava por conta própria e fiquei quatro meses. Foi a primeira vez que fiquei longe da família. Por mais que tenhamos uma proximidade de sentimentos, mães e pais não têm ideia do que a gente passa, à noite principalmente, quando pomos a cabeça no travesseiro. Não foi fácil, muito perrengue: tive de desenvolver a arte de cozinhar, limpar, ter versatilidade. Aí, entrei em contato com o Butte College, uma universidade da Califórnia, do outro lado do país. Na casa éramos um eslovaco, um sérvio, um mexicano e este brasileiro louco”, brinca. A cidade era Chico, muito pequena, famosa por ter sido muito doida, embora não seja mais assim. Tem 100 mil habitantes, dos quais 40 mil são estudantes. Lá cursou International Business, dois anos de matérias gerais, misto de Administração com Relações Internacionais e Empreendedorismo. Ele vê a mescla disso com os meios digitais como o futuro para trabalhar, pois não se vê fechado em um escritório.

Na Califórnia, trabalhou na cafeteria do campus da faculdade, um desafio para conciliar e uma oportunidade para praticar e fazer fluir o idioma inglês, dialogando com gente do mundo todo: “Minha turma tinha 154 alunos, de 60 nações diferentes”.

Nesses dois anos, teve de sair da zona de conforto e obteve uma experiência que diz ter superado os 20 anos anteriores: “Isso me proporcionou um crescimento mental, como pessoa, incalculável”. Ali buscou informações e contatos com outras universidades, pois em um Junior College só se pode ficar dois anos. “O lance do Canadá surgiu aos 43 do segundo tempo, como uma ferramenta que o basquete me proporciona, uma chance de ouro, porque os créditos que acumulei na faculdade da Califórnia são transferíveis para o Canadá e poderei ficar três anos estudando e treinando lá, um dos quais pretendo fazer um mestrado ou MBA lá”, comemora.

Ao falar à RG, estava fazendo as malas para mudar-se para Victória, próxima de Vancouver, uma hora de voo de Seattle. Está muito animado com as perspectivas, com a estrutura que terá, a bolsa de estudos que conquistou e com a nova convivência: “Serei o único estrangeiro na casa, os outros são canadenses. Será mais uma experiência interessante”.
Perguntado sobre uma palavra que resumiria o que é basquete para ele, diz que, depois de Deus, que ele sente como uma força superior, algo que não se consegue mensurar, diria que é “tudo”, pelas portas que abriu para ele, lhe propiciou conhecer pessoas e ter vivências que dificilmente obteria em outra atividade.

Sobre seus planos, quer graduar-se na universidade, cogita morar em alguma cidade pequena na Europa, se possível jogar profissionalmente por lá. Assim, poderá conviver com outras culturas, o que aprecia muito. Não descarta, entretanto, fazer parte da NBB, pois a liga brasileira está crescendo, ganhando projeção internacional. “Nada é por acaso. Acho que se você faz as coisas do jeito certo, sem fazer mal a ninguém, as coisas retornam da melhor forma para você”, imagina. Agradece a todos que, com o incentivo, os ensinamentos, os treinos – e até as broncas –, contribuíram para forjar o cidadão e o ser humano em que ele se transformou.

Conclui dizendo que, ao conhecer outras culturas e como as pessoas vivem, sente orgulho do povo brasileiro, por entender que nossa população mereceria ter uma vida mais tranquila e digna.